O Jogo ao Vivo

DDD - 5ª Edição

O âmago de cada palavra é Quinta-feira: Abracadabra

O âmago de cada palavra é Quinta-feira: Abracadabra

"Quinta-feira: Abracadabra", o mais recente trabalho de Cláudia Dias, é transmitido online pelo festival Dias da Dança a partir de 28 de abril.

O quarto capítulo do projeto Sete Anos Sete Peças, da lisboeta Cláudia Dias, é uma espécie de desconstrução semântica de palavras comuns. "Quinta-Feira: Abracadabra" chega ao quarto dia da saga e o encontro com o artista convidado junta, desta vez, Cláudia Dias com a coreógrafa basca Idoia Zabaleta.

Se pudéssemos resumir a peça numa palavra, essa palavra seria palavra. Numa época em que a linguagem se apresenta cada vez mais de forma escrita, seja nos jornais, nos símbolos ou nas redes sociais, o voltar à palavra dita apareceu como uma necessidade para Cláudia Dias. Afinal, é através da palavra que se proporcionam encontros, que se ocasionam relações pessoais e que se preenche realmente a necessidade humana de socialização interpessoal.

Quinta-Feira: Abracadabra teve como inspiração a obra "Ecologia", de Joana Bertholo, que é uma distopia sobre a ideia de que no futuro a linguagem pode ser privatizada e as pessoas terão de pagar para falar. A mercantilização da palavra torna-a num produto e faz desvanecer o seu significado. Há tantas formas de dizer "ecologia" nas mais variadas linguagens, mas há tão pouca ecologia no Mundo.

O palco de Quinta-feira: Abracadabra é preenchido com uma grande imagem de um livro aberto. "Não tenho palavras para tantas palavras", ouvimos no trailer da peça, pela voz de Idoia Zabaleta. O ritmo em que o duo de intérpretes se envolve neste jogo semântico de revisitação de conceitos e termos acaba por ser quase musical.

"Dá-me... uma prenda". "Toma... um abraço". "Toma... uma recordação". "Dá-me papel!". "Toma dinheiro". "Dá-me trabalho". Ainda que às vezes de forma implícita, há um certo espírito de denúncia de injustiças e uma "palavra especial sobre a apropriação da linguagem por parte das mulheres", desvenda Cláudia Dias, que explica que o projeto Sete Anos Sete Peças teve como objetivo a união de duas pessoas com métodos de trabalho distintos de onde resultam "consensos ou os dissensos para a criação de um objeto artístico".

Sete Anos Sete Peças é produzido pelo Alkantara, convida um artista por ano para se juntar a Cláudia Dias e retrata um dia da semana. O ciclo estreou em 2016 com "Segunda-Feira: Atenção à Direita", que teve como convidado Jaime Neves e recriou um combate de boxe.

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A excelente "Terça-Feira: Tudo o Que É Sólido Dissolve-se no Ar" juntou Cláudia Dias ao italiano Luca Bellezze para uma espécie de cartoon apresentado frame a frame que retrata aspetos peculiares da realidade contemporânea.

"Quarta-Feira: O Tempo das Cerejas" teve a colaboração de Igor Granja, diretor artístico do Teatro de Ferro, e está repleto de crítica política ao abordar tudo o que é varrido para baixo do tapete ocidental.

"Ao longo deste ciclo de peças, que vai durar uma década, tenho um projeto também pessoal, que o é de gradualmente ir abrindo a mão e não ficar tão obcecada com o controlo e com a autoria", confessa Cláudia Dias.

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