Cultura

"O cavaleiro da ilha do Corvo" promete polémica

"O cavaleiro da ilha do Corvo" promete polémica

O primeiro romance do investigador Joaquim Fernandes, "O cavaleiro da ilha do Corvo", promete criar polémica, ao sugerir que os navegadores da Antiguidade terão conhecido os Açores muitos séculos antes de os portugueses ali terem chegado. 

Na base da tese defendida no livro, alicerçada em anos a fio de investigações, encontra-se um dado para muitos desconhecido: quando os navegadores portugueses chegaram à ilha do Corvo, nos Açores, em meados do século XV, encontraram ali uma intrigante estátua de pedra, representando um cavaleiro com traços característicos do norte de África. A existência do referido momumento até poderia ser uma simples lenda não fosse dar-se o caso de o relato da sua descoberta ter sido escrito pelo grande humanista português dos Descobrimentos Damião de Góis, cuja "obra e crédito são dificilmente questionáveis", adianta Joaquim Fernandes. Obra de ficção que, segundo o autor, "não deixa de ser também um ensaio histórico". "O cavaleiro da ilha do Corvo" levanta questões várias ("e se a tal lenda de um tal cavaleiro em pedra que aponta, do mais alto cume da ilha, em direcção às Américas fosse apenas uma tentativa de insinuar a descoberta por outros povos do que Colombo definirá de Novo Mundo?", questiona o autor) numa trama conspirativa destinada a relançar o debate em torno dos Descobrimentos. "O livro defende, em suma, a plausibilidade da hipótese da navegação no Atlântico mil anos antes de os portugueses darem início à sua aventura marítima ", explica o especialista no estudo do imaginário português. O docente da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, tem outros projectos que aguardam publicação. O primeiro, intitulado "Poesia e o Céu", é uma revisão da poesia portuguesa de todos os tempos, inspirada pelos astros. Igualmente ambicioso é o volume "O livro dos portugueses esquecidos": em mais de meio milhar de páginas, Fernandes recorda a vida de 300 figuras nacionais dos séculos XVI a XIX que, devido a perseguições várias, se viram obrigadas a procurar refúgio noutros países, nos quais atingiram relevo em áreas tão distintas. Desde José Carlos de Almeida, o fundador da Sociedade Francesa de Física, ao Padre António de Andrade, o primeiro europeu a chegar ao Tibete, há biografias para todos os gostos. Do seu conjunto extrai-se a ideia de "um país que sempre conviveu mal com a diferença, exibindo sinais de uma intolerância, sobretudo política e religiosa, que se revelou catastrófica para o seu desenvolvimento, ao dispensar um número avultado de talentos". A lista poderia ser ainda mais vasta se incluísse figuras como Damião de Góis ou Pedro Nunes, que abandonaram o país nas mesmas circunstâncias dos restantes biografados, mas o organizador da antologia entendeu privilegiar figuras que, apesar da sua valia, foram esquecidas com o decorrer dos anos. Para investigar esta autêntica 'fuga de cérebros', Joaquim Fernandes recorreu a enciclopédias e dicionários, mas também jornais e publicações científicas, surpreendendo-se com a quantidade de 'estrangeirados' que Portugal foi acumulando ao longo dos anos. "Boa parte dessa elite foi enriquecer sociedades como a alemã ou a holandesa", lamenta o autor de "Fátima e a ciência".