1949-2020

O dia em que Lobo Antunes disse desconhecer Luis Sepúlveda

O dia em que Lobo Antunes disse desconhecer Luis Sepúlveda

Era domingo e chovia no Porto. Luis Sepúlveda acabara de acrescentar um ano aos 50 anos que transportava naquela barba farta e negra, muito chilena, que lhe emoldurava o olhar melancólico.

A chuva que Carmen Yáñez insultava na poesia para dela se vingar, a ele inspirava-lhe apenas desânimo. Carmen fora a sua primeira mulher, a sua mulher do meio e a sua última mulher, história de amor em curvas e círculos que poderia, noutro contexto, muito bem ser contada pelo bom e velho José Bolívar Proaño.

Sepúlveda, que adoptara Espanha para viver, amava Portugal, visitava Lisboa com regularidade, tinha em Fernando Assis Pacheco o seu melhor amigo português, o seu guia e, desde há muitos anos, tinha nele também a falta que dele sentia.

Mas naquele dia o contador de histórias não estava em Lisboa, estava no Porto a convite da Porto 2001. Paulo Cunha e Silva (quem mais?), comissário da área do Pensamento, inventara um ciclo de conferências chamado "Sob Influência", que entregara a Richard Zimler e Alexandre Quintanilha. Aos curadores do programa internacional de leitura fora pedido que cruzassem autores que influenciaram outros autores.

A Biblioteca Almeida Garrett estava mais cheia que um balão cheio, muita gente de pé, varandas empanzinadas. No palco, o cruzamento fazia-se entre o escritor chileno e o português António Lobo Antunes. Era o ano de "O que farei quando tudo arde?", décimo quinto romance do futuro pretérito Nobel, fresco no mercado. O cruzamento, contudo, não passaria de uma valsa desastrada, cada um dançando ao som do seu tom, Lobo Antunes abandonando o colega como noiva no altar.

Em privado, com a elegância que se lhe conhece, Lobo Antunes justificava o comportamento com o desconhecimento. "Não sei quem é o Sepúlveda. Há uma grande diferença entre os escritores e as pessoas que escrevem livros."

(Silêncio) Longe do pasmo e do embaraço que enregelaram quem ouviu a frase, Sepúlveda seguiu livre e leve. "Não faz mal. Eu conheço-o e gosto dos livros dele. Não me preocupa que o contrário não aconteça." Mais tarde, o homem que além de romancista, era contista, jornalista e ativista político, diria o que sendo óbvio, não o será para todos. "A literatura não é uma competição."

Sepúlveda também conhecia Eugénio de Andrade, poeta do Porto com quem Lobo Antunes passara a tarde, falando da "escrita como salvação" e bebendo um "fatal vinho do Porto". Nada lhe dava, aliás, mais prazer do que ler poesia. E mesmo escrevê-la, embora não a publicasse. Era uma espécie de pacto de honra com a mulher, ou só o mais sublime gesto de amor. Ele ficaria com a prosa, ela com a poesia. Foi assim a vida toda.

E perante isso, que não está ao alcance de todos, até Lobo Antunes sabia render-se. "Uma das coisas boas da vida", disse nesse dia, "é encontrar pessoas com capacidades humanas que nós não temos, sobretudo a capacidade de amar. O amor é uma questão de delicadeza na atenção, no lento amanhecer dos pequenos nadas. Afinal, é pelos pormenores que as pessoas se perdem."

"Em algum momento temos de aprender a voar"

Momentos antes, Luis Sepúlveda dava à "Notícias Magazine" a entrevista que António Lobo Antunes recusara. "Já leu os meus 15 livros? Não? Então, nem pensar." De Sepúlveda lera então apenas dois, mas a pergunta nem sequer foi colocada. Outras coisas moviam o homem que fora guarda pessoal do presidente Salvador Allende. Gostava de comover-se, como Proaño; de voar acima do que é raso, como o gato Zorbas.

"Encantam-me as pessoas que lêem de forma apaixonada e que se comovem até às lágrimas. Emociono-me muito a ler, mas também a escrever. E gosto que o leitor sinta a ler o mesmo que sinto a escrever."

Aquilo de que não gostava era que o catalogassem. Muito menos como escritor de viagens, mesmo se as viagens fizeram dele o que ele foi. "Tenho uma forma de ver as coisas muito aberta, muito generosa, justamente porque as viagens mo ensinaram. Mas as viagens nunca são o tema central. As viagens que realizo nos meus livros e os personagens que as protagonizam querem sempre provar alguma coisa. Querem sempre fazer uma demonstração dos valores que considero fundamentais. Como a amizade."

Foi justamente por causa desses valores fundamentais que escreveu "A história de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". É livro-promessa-legado-lição para os seus seis filhos.

"Queria ensinar-lhes que, em algum momento, temos de aprender a voar. Mas queria também que aprendessem o valor da amizade. Quis ensinar-lhes como a lealdade é fundamental. Porque a vida é uma função dialéctica, tudo está relacionado. Não pode haver preocupação ecológica sem antes haver preocupação humana. As nossas preocupações fundamentais têm que ter a ver com as pessoas, porque tudo o que lhes acontece vai afectá-las de forma definitiva."

Tão definitiva como a literatura. "O livro é uma reflexão aberta. É algo que não fica terminado no momento em que se acaba de ler. É algo que se prolonga, que continua a levar-nos a ter vontade de consultar determinada página e que contém uma série de elementos que se incorporam em nós. É essa a essência da literatura. O resto não interessa."

Interessa ouvir o gato Zorbas, que hoje também mia à chuva. Zorbas diz-nos que Sepúlveda, que reclamou para si, muito antes de Marcelo, ser "um dos fundadores do afecto", nunca será o escritor que morreu no meio de uma pandemia, será sempre o escritor que em cada página de cada livro da vida nos ensinou que "não há outra forma de viver coerentemente que não seja através do carinho e do afecto".

Mia Zorbas. "Vais voar, Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas."

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