Música

O dia em que Marta Ren encheu os Aliados com soul

O dia em que Marta Ren encheu os Aliados com soul

Registo ao vivo da cantora com a Orquestra Jazz de Matosinhos recupera o groove que dominou o "salão de festas" da Invicta antes da pandemia.

Pouco antes do "dilúvio", a 28 de dezembro de 2019, Marta Ren subiu ao palco na Avenida dos Aliados, no Porto, acompanhada pela Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM) para interpretar temas do álbum de estreia, "Stop, look, listen". O concerto motivou cartas de fãs, declarando que aquele fora o último grande espetáculo que viram. E ao ouvir o registo agora editado o sentimento percebe-se, porque não parece provável que nos próximos tempos possa haver tamanha eclosão de energia. Parabéns aos que testemunharam "Marta Ren convida Orquestra Jazz de Matosinhos ao vivo nos Aliados": serão deles as últimas crónicas do Mundo como o conhecíamos.

"Mal eles sabiam o que aí vinha", reflete agora a cantora, que se instalou no Alentejo desde setembro de 2020, entre Arraiolos e Mora, num lugar onde os "invernos são verdes e em que já não sinto que esteja a perder nada". No concerto nos Aliados, Marta fartou-se de falar, por "nervosismo", mas também pela sua atitude portuense, desenvolta e afirmativa, que se tornou clara na conversa com o JN. Desses interlúdios pouco sobrou no disco: "Gosto de álbuns pequenos: 40 minutos é o tempo máximo que as pessoas disponibilizam hoje em dia para ouvir música". Podia ser diferente, ao vivo surgem pérolas que seria interessante reter, mas confiamos na edição de Marta, até porque são 40 minutos de exceção onde se fixa o mais importante - a sua música.

Que não foi exatamente recriada no concerto dos Aliados, desde logo porque prescindiu da formação que sempre a acompanha, The Groovelvets. "Com a banda, ia ser mais do mesmo; queria outra textura, sem guitarras. Queria arranjos novos e o perfume da orquestra. E nem era o tecnicismo que eu procurava, mas sim o groove. Onde me sinto confortável a cantar é em cima do groove." Foi por causa do groove que Marta contactou a OJM, planeando a edição de um disco, gravado e misturado por Nélson Carvalho: "A experiência faz com que desperdices menos oportunidades, e quando esta surgiu foi para sugá-la ao máximo, não quis deixar nada no prato".

Fazer os temas crescer

Com um alinhamento reduzido a oito temas, encontramos cinco faixas pertencentes a "Stop, look, listen", álbum de 2016 que confirmou o poderio da sua soul e a projetou internacionalmente. Há ainda dois singles, "Worth it" e "Summer"s gone", e uma versão de "Nature boy", tema de Eden Abhez celebrizado por Nat King Cole, o único standard dessa noite que ficou registado. Os 21 músicos da OJM em palco trouxeram "densidade e fizeram os temas crescer", diz Marta, que reclama ainda como grandes influências as vozes clássicas da soul e do funk, como Marva Whitney, Lyn Collins, Vicki Anderson, Betty Davis ou James Brown, "apesar de ser uma pessoa intragável". Mas é um classicismo sem preconceitos: "Se tivesse muito dinheiro, tanto fazia discos de jazz clássico, como de música brasileira, eletrónica, ska ou até de cúmbia".

Uma amplitude que merece ser mais bem conhecida, sobretudo em Portugal: "As pessoas conhecem o meu nome, mas não necessariamente a minha música. Em Portugal há cultura de pop e de rock, mas não de soul e de funk, porque há pouca divulgação nas rádios e na televisão. E sem essa visibilidade não chegas ao grande público. Talvez me desse jeito ser jurada de um concurso de talentos".

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