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"O diabo": tantos rostos para o mesmo Mal

"O diabo": tantos rostos para o mesmo Mal

Livro após livro, Gonçalo M. Tavares continua a perscrutar as origens da perversidade. "O diabo", com a chancela da Bertrand Editora, é o terceiro título da série "Mitologias".

Pode assumir diferentes nomes - lúcifer, demónio, belzebu, mafarrico ou simplesmente diabo -, mas, em última instância, ele é sempre o rosto do Mal, o ser a quem o Homem atribui todas as perversidades, mesmo quando elas têm a única origem em si mesmo.

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Na sua nova incursão pelo território das "Mitologias", depois de "A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" e "Cinco meninos e cinco ratos", Gonçalo M. Tavares apresenta-nos um livro fortemente perturbador, no qual as referências geográficas e temporais são abolidas de forma radical.

Dependemos apenas do narrador e da sua boa vontade para nos situarmos numa narrativa onde pululam personagens que, apesar de nomes improváveis (como a Mulher-com-a-Língua-de-Fora, o Homem-com-a-Boca-Aberta ou o Menino-com-os-Pés-para-Dentro), revelam comportamentos que nos são familiares quando a sobrevivência está em causa, abrindo mão de quaisquer resquícios de humanidade que pudessem ter.

Presente em todos os capítulos está a figura do diabo. Entre a figura bíblica e a versão que Tavares nos apresenta, detetamos a mesma crueldade, ainda que com um requinte e uma sofisticação maiores. A diferença não reside tanto, afinal, na sua composição eternamente maligna, mas na conduta dos homens, que o convidam a entrar e a sentar-se à mesma mesa.

São eles, os homens, que banalizam a sua presença e vão aceitando, sem protestos de maior, as suas ideias ou práticas, mesmo que tão hediondas como armazenar todo um povo num espaço recôndito e privá-lo dos mais elementares direitos ou colocar uma criança no forno porque é preciso ter farinha para fazer pão.

De figura temida, origem de todos os atos perversos, o diabo converte-se, assim, em apenas mais um ser. Indistinto na multidão, ele próprio se vai surpreendendo com o modo descontrolado como os seus ensinamentos se vão alastrando entre os demais. As vozes de protesto ou simples estranhamento vão perdendo força até se silenciarem por completo.


Compreender os mecanismos da maldade, as suas ínfimas variações, é o desiderato que move o autor de "A máquina de Joseph Walser" na construção de um mundo de contornos demenciais, onde entrevemos mais semelhanças com a realidade do que as que gostaríamos de encontrar.

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