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O filtro da memória de um resistente

O filtro da memória de um resistente

No seu novo livro, "De maneira que é claro...", Mário de Carvalho espreita para o passado sem se deter na nostalgia. Na ausência das notas pícaras que dão sempre um colorido especial a quaisquer notas biográficas, fica a verve segura do autor.

Sabedor como poucos do peso, tantas vezes excessivo, das palavras, Mário de Carvalho (MdC) resiste em definir "De maneira que é claro..." como um livro de memórias. Muito menos como uma autobiografia. Prefere recorrer a uma panóplia de termos ("relances", "reminiscências", "lampejos", "recordações"...) que aligeiram essa carga, mas não a desviam do essencial - transmitir, ainda que de modo parcial, o caráter "multiforme" de uma vida "nem sempre aprazível", mas da qual o "fervilhar, por dentro e por fora", nunca esteve ausente.

Essa especificidade permitiu-lhe um conjunto de omissões que, num projeto biográfico convencional, não seriam expectáveis. Aí figuram, como explica o autor, os "amores e desamores", assim como as "epifanias", "as retóricas" ou as referências "a artistas". Territórios tantas vezes movediços cuja abordagem ficará para uma empreitada futura.

A longa lista de temáticas excluídas nesta revisitação memorialística operada por MdC pode ter atenuado o caráter pícaro do livro - o "voyeur" que há em cada leitor tende a procurar preferencialmente esses assuntos em primeiro lugar -, mas não lhe esvaziou em absoluto o interesse.

Antes de mais, porque o registo vivaz do escritor consegue conferir a qualquer episódio remoto que evoca no livro um colorido óbvio. Seja a lembrança do primeiro contacto com a neve (mesmo que não passassem de "flocos, mínimos" que "pontilhavam os ares, mal se distinguindo, em diagonais deslassadas") ou a convocação da memória do irmão falecido com poucos dias, cuja simples referência ainda emocionava a mãe muitos e muitos anos depois, o leitor depara-se com exemplos abundantes de uma verve colocada ao serviço do esforço de reconstituição do passado (ainda que parcelar).

Ao longo de uma centena de entradas, tão breves que pouco ultrapassam a extensão de uma página, Carvalho espreita para o próprio passado com o espírito analítico e agudeza com que trata uma personagem de ficção de um dos seus livros. Em parte porque a distância e a inevitável transformação entretanto ocorridas conferem o distanciamento ideal para que o escritor olhe hoje para a criança, o estudante ou o militante antifascista, entre muitos outros eus, com uma despertença similar à de um qualquer outro interveniente dos seus livros.

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