"O irlandês"

O gangue de Scorsese em exclusivo na televisão

O gangue de Scorsese em exclusivo na televisão

Martin Scorsese chega, esta quarta-feira, a Portugal com a sua mais recente incursão na metagaláxia da máfia, mas em versão envelhecida. "O irlandês" (1 para a plataforma de streaming Netflix - 0 para o realizador norte-americano, uma vez que ao contrário do que chegou a supor-se a longa-metragem terá mesmo digressão limitada pelas salas de cinema) é uma reflexão sobre um passado que ficou guardado na década de 1970, a data em que o líder sindical Jimmy Hoffa desapareceu.

Essa reflexão é protagonizada por um elenco de luxo - regressa Robert De Niro, cúmplice perfeito do crime de Scorsese, que não víamos a seu lado desde "Casino" (1995), e regressam também Harvey Keitel e Joe Pesci - e por um convidado de honra: Al Pacino. O ator estreia-se, aos 79 anos, no gangue scorseseano.

O filme, produzido pela Netflix, é disponibilizado apenas para os assinantes da plataforma, não tendo exibição nas salas de cinema portuguesas. É uma pena, porque apesar das suas três horas e meia, "O irlandês" é mais adequado ao grande ecrã do que ao ecrã de casa.

A elegância narrativa de Scorsese e a sucessão de acontecimentos do filme fazem com que, visto de seguida, o tempo pareça não passar. E teme-se que, nas distrações caseiras, possa perder-se o ritmo incessante da película, que vive, em partes iguais, de diálogos absolutamente delirantes e de olhares e silêncios eloquentes.

O filme tem argumento de Steve Zaillian - o mesmo de "A lista de Schindler", o que lhe valeu o Oscar em 1994 - e bebe inspiração no livro "I heard you paint houses", de Charles Brandt, autor de vários best-sellers e, em tempos, considerado um dos melhores advogados dos EUA. A sua narrativa acompanha um conjunto de personagens verídicas ligadas ao mundo do crime organizado da América dos anos 1950 e 1960 do século passado, cuja morte é devidamente indicada na tela à medida que vão surgindo, para satisfação dos amantes dos dados factuais.

Robert De Niro e Al pacino

A figura central da história - que descobrimos já em fim de vida, numa cadeira de hospital, no final do soberbo plano-sequência inicial -, é Frank Sheeran, um veterano da II Guerra Mundial também conhecido como "o irlandês", interpretado por Robert De Niro. Sheeran vai recordando a sua vida, contada ao longo de uma viagem de automóvel com o seu mentor, o mafioso Russell Bufalino (Joe Pesci), e respetivas mulheres.

Um encontro casual com Bufalino, então mero motorista de camiões de transporte de carne, tornou-o um homem de confiança do mundo do crime, nomeadamente de Jimmy Hoffa (Al Pacino), o presidente do poderoso sindicato dos motoristas, a cujo destino Sheeran estará ligado.

Se lhes juntarmos Harvey Keitel como Angelo Bruno, o italo-americano que dominou o crime organizado em Filadélfia durante duas décadas, teremos então toda a trupe dos filmes de gangsters de Martin Scorsese - de "Os cavaleiros do asfalto" (1979) a "Casino" (1995), passando por "Tudo Bons Rapazes" (1990). Companheiro de aventura de vários filmes de Robert De Niro, nem se nota que, afinal, Al Pacino tem aqui a sua estreia num Scorsese.

Scorsese puro

"O irlandês", produção que custou mais de 140 milhões de euros (valor que a Netflix não se importou de pagar, ao contrário da Paramount, que sempre produzira os filmes do oscarizado realizador), é Scorsese puro. Quando é para matar, é mesmo para matar.

Quem vir o filme vai descobrir o que significa afinal pintar paredes. Mas quando é humano - e é quase sempre -, torna-se comovente. O papel das mulheres nestas sociedades do crime está lá, mesmo que em surdina. E a relação com a política é mais do que evidente, sobretudo quando Scorsese se empenha em alimentar a fogueira eterna do assassinato de JFK.

A decisão de não estrear em sala portuguesa o "O Irlandês", compêndio do cinema de Martin Scorsese, foi da Netflix. E não é a primeira vez que acontece, embora nunca com uma obra com a dimensão de um Scorsese. "Roma", do mexicano Alfonso Cuarón, vencedor do Leão de Ouro de Veneza, também teve estreia limitada em sala em Portugal. Passou apenas por oito cinemas antes de passar na televisão.

O mesmo acontece agora com "O irlandês". Estará no cinema em Itália, Bélgica, Alemanha, Grécia, México, Hungria, Espanha, EUA, Reino Unido e República da Irlanda. Mas Portugal fica definitivamente de fora. v

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