Literatura

O humor é um vírus que não se extirpa

O humor é um vírus que não se extirpa

Ricardo Araújo Pereira reuniu no livro "Ideias concretas sobre vagas" as crónicas que escreveu sobre a covid-19 durante dois anos. Do confinamento ao processo de vacinação (quase) nada foi esquecido.

Agora que as preocupações com a pandemia que sobressaltou o planeta no último par de anos foram substituídas por outras preocupações, não necessariamente menos graves ou ameaçadoras, é um exercício desconcertante recordar esses tempos, no mínimo, confusos, em que, de um dia para o outro, os imunologistas se transformaram em "pop stars" e a figura do "imunologista de bancada" irrompeu com assombro em qualquer português, lado a lado com a do treinador de bancada e a de outros espécimes similares.

Vistos à distância (ou a uma maior distância, pelo menos), muitos dos episódios então vividos ganham contornos caricatos, tal a forma atabalhoada como foram sendo geridos, dos cidadãos às autoridades de saúde e governantes, proporcionando ampla matéria de análise para as crónicas que o humorista Ricardo Araújo Pereira (RAP) foi publicando semanalmente na imprensa e agora foram reunidas no volume "Ideias concretas sobre vagas".

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Ordenados cronologicamente, estes textos permitem-nos acompanhar a um ritmo acelerado a sinuosa trajetória emocional que todos vivenciámos nesse período, desde o momento em que, subitamente, a maioria da população foi enviada para casa - onde muitos aprenderam a fazer pão e se entretiveram a fazer "lives" no Instagram - até ao processo de vacinação em massa. Tudo isto sem esquecer a nova terminologia pandémica - um autêntico "covidioma", como escreve RAP - que fomos obrigados a assimilar num tempo recorde.

Nesta visitação irónica a um mundo às avessas, não falta também a referência devida a fenómenos episódicos, como o açambarcamento de papel higiénico nas prateleiras dos supermercados, praticado logo na fase inicial da pandemia, o que despertou em Araújo Pereira uma observação mordaz: "A covid-19 ameaça acabar com a civilização tal como a conhecemos e o primeiro pensamento da raça humana vai para o rabo".

Alvo predileto do humorista são os negacionistas, "carinhosamente" apelidados de "chalupas" pela forma imaginativa ou ardilosa como iam arquitetando as mais mirabolantes teorias da conspiração, com que procuravam desacreditar as regras para limitar a circulação de um vírus que alguns, como Jair Bolsonaro, começaram até por negar sequer existir, ao definirem-no como uma simples "gripezinha".

"Ideias concretas sobre vagas"
Ricardo Araújo Pereira
Tinta da China

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