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O mais jovem dos cineastas franceses faria agora 100 anos

O mais jovem dos cineastas franceses faria agora 100 anos

Eric Rohmer, um dos mestres da Nouvelle Vague, viveu e filmou até aos 89 anos.

Escreveu um romance, foi professor de literatura e chefe de redação dos "Cahiers du Cinéma". Conheceu Godard e Truffaut na Cinemateca Francesa. Começou ao mesmo tempo do que eles a fazer os seus filmes. Dirigiu mais de meia centena, se contarmos as curtas-metragens e os documentários.

Dividiu uma boa parte dos seus filmes de fundo em três grandes blocos, os Seis Contos Morais, as Comédias e Provérbios e os Contos das Quatro Estações. É autor de clássicos como "A Minha Noite em Casa de Maud", que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de melhor argumento original, "O Joelho de Claire" ou "A Marquesa d"O".

Eric Rohmer viveu e trabalhou até aos 89 anos, mas a frescura e juventude dos seus filmes nunca os perdeu. Como muitos dos grandes, como Ozu ou John Ford, por vezes lembramo-nos de algumas sequências dos seus filmes sem recordar de qual se trata. É um dos casos em que a frase "os seus filmes são todos iguais" não é uma crítica.

O estilo de Rohmer é simples mas eficaz. Os seus filmes não têm efeitos e utilizam uma linguagem muito prática e funcional. Há quem não goste muito dos seus filmes. Pode-se preferir Godard ou Truffaut, Chabrol ou Rivette. Mas os que gostam, gostam perdidamente.

Para esses, as suas personagens, muitas vezes jovens em iniciação sentimental e sexual, deixam de estar do lado de lá do ecrã para fazer parte das suas vidas. Os jogos de sedução podem começar pelo fascínio pelo joelho de uma adolescente, por encontros inocentes "às três da tarde", por uma imagem que se entrevê através de uma porta ou de uma janela, ou por uma noite em casa de uma amiga com pensamentos mais livres.

O centenário de Rohmer celebra-se agora, com algumas fontes a apontar para o nascimento a 21 de março e outras a 4 de abril. A Leopardo anunciara já a reposição em sala de cópias novas de vinte dos filmes do realizador e posterior edição em DVD, formato em que edições mais antigas se encontram esgotadas no mercado, mas a situação de quarentena obrigatória e necessária para todos os que a podem fazer, com os cinemas também encerrados, adiou a iniciativa, que terá lugar assim que for possível a todos sair de casa.

Jean-Marie Maurice Scherer nasceu numa pequena localidade da Lorrena. Sob o pseudónimo de Gilbert Cordier escreveria mais tarde o romance "Elizabeth", mas seria sob o nome de Eric Rohmer, construído sobre o do realizador Erich von Stroheim e o do romancista Sax Rohmer, criador da personagem de Fu Manchu, que se tornaria eternamente conhecido.

Já em Paris, onde dá aulas de literatura, começa a frequentar a Cinemateca Francesa e os outros jovens que irão formar a geração da Nouvelle Vague. O primeiro filme, "Journal d"un Scélerat", é uma curta-metragem e data de 1950, o mesmo ano em que funda a "Fazette du Cinéma", com Godard e Rivette. No ano seguinte, faz parte da equipa de André Bazin que funda os míticos Cahiers du Cinéma, percebendo-se a sua influência crítica pelo facto de ter sido chefe de redação da revista entre 1956 e 1963.

Nessa altura já se tinha lançado na longa-metragem e "La Carrière de Suzanne" lançaria a série dos Seis Contos Morais, filmes com os quais cimentaria rapidamente o seu espaço no cinema francês e iniciaria um culto em torno da sua obra que o acompanharia para sempre. Basta repetir o título de outros dos filmes deste ciclo, qie o ocupariam durante uma dezena de anos.: "A Coleccionadora", "A Minha Noite em Casa de Maud", "Amor às Três da Tarde", "O Joelho de Claire".

Ao romanesco contemporâneo, a obra de Rohmer viu suceder-lhe uma breve paixão pelo cinema de época, com os belíssimos "A Marquesa d"O" "Perceval Le Gallois". "A Mulher do Aviador", já em 1981, inicia novo ciclo de seis filmes, onde se incluem pequenas maravilhas como "Paulina na Praia" ou "O Raio Verde". Sucedem-lhe, entre 1990 e 1998, os Contos das Quatro Estações, outras tantas jóias da forma admirável que Rohmer tinha de contar as suas pequenas histórias, com as quais é tão fácil e tão belo identificar-nos.

No final de carreira, Rohmer voltaria ao filme de época, com "A Inglesa e o Duque" (passado durante a Revolução Francesa" e "Agente Triplo" (situado durante a Frente Popular de 1936/37), terminando a sua imensa obra em 2007 com "Os Amores de Astrea e Celadon", uma história de amores proibidos entre um pastor e uma pastora numa floresta encantada. Se os filmes de Rohmer são quase todos bem conseguidos, os amores de que fala nem sempre são consumados.

Nos primeiros anos da sua carreira, Rohmer trabalhou com alguns dos melhores atores da época, já estabelecidos, como Jean-Louis Trintignant, Françoisse Fabian, Marie-Christine Barrault ou Jean-Claude Brialy. Mas também se tornaria conhecido por lançar jovens que iriam conhecer mais tarde carreiras de sucesso, como Béatrice Romand, Marie Rivière, Arielle Dombasle ou Pascale Ogier, a filha de Bulle Ogier, que trabalhou duas vezes com Oliveira e morreria prematuramente, aos 25 anos),

Para quem não conhece de todo o cinema de Eric Rohmer, poderíamos dizer que é o mais parecido que se pode encontrar, na forma e no conteúdo, com o de Woody Allen. Com as devidas distâncias e garantindo a cada um deles a sua própria identidade. Rohmeriano é mesmo um adjetivo que se usa com frequência na análise cinematográfica. Mas o norte-americano confinou-se à ilha de Manhattan, antes de começar um périplo por Barcelona, Londres, Veneza ou Paris, e se concentrou sobretudo ao mundo urbano.

Por seu lado, Rohmer, se é verdade que visitou as ruas - e as alcovas - de Paris, também andou por praias e campos à procura do melhor local para colocar as suas histórias. Lá onde há um homem e uma mulher, o amor espreita, à medida de Rohmer.