Cinema

"O primeiro dia do resto da vida do Batalha" foi cheio e replicou emoção

"O primeiro dia do resto da vida do Batalha" foi cheio e replicou emoção

Ministro da Cultura Pedro Adão e Silva inaugurou esta sexta-feira o novo Batalha Centro de Cinema. E agradeceu a visão do autarca Rui Moreira, "um presidente que é vereador de Cultura" e que "é um exemplo para o país". Diretor artístico Guilherme Blanc também se comove e fala no "princípio do futuro".

"É uma experiência holística", disse, já em cima do palco, minutos antes da inauguração do Batalha Centro de Cinema, a cinemateca do futuro do Porto que hoje, sexta-feira, abriu ao público com casa cheia e emocionada, o seu diretor artístico Guilherme Blanc. Holística, isto é, que concebe a realidade como um todo, com uma doutrina que destaca e acentua o que é vital: a prioridade do todo sobre as partes que o constituem.

É isso "o nosso Batalha", vincou Blanc atrás do púlpito do palco da sala 1, sala quentinha, fofa, cheia como um ovo, a cheirar a verniz e a novo. "É um projeto de comunidade, é um projeto em rede, com calor social, comunal e que é para todos os públicos". É "um património que é memória e é ideia de futuro". E continuou: "Hoje é o primeiro dia do resto da vida do Batalha, hoje é o princípio do futuro", aventou Guilherme Blanc, que depois admitiu ao JN: "Estou muito feliz, muito entusiasmado, muito emocionado".

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O sentimento atravessou toda a gente, numa reação psíquica e física muito agradável - e muito rara - num ato formal de inauguração, apanhando também o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva.

"É uma enorme felicidade estar aqui. Obrigado ao Porto", disse o governante nas primeiras palavras que dirigiu ao público e ao séquito que o seguia, fiel e feliz em fila, na primeira visita às duas salas do novo Batalha, à biblioteca, à filmoteca, ao salão de debates e chá, a todo o edifício da "modernidade radical" - o Batalha é de 1947, cumpriu com glória durante 60 anos, mas depois decaiu, transviou-se, deformou-se e estava fechado há mais de 10 anos, tendo agora vida nova garantida pela Câmara numa concessão para os próximos 25 anos, até 2047.

A alegria de agradecer

Também ele se emocionou, o ministro Pedro Adão e Silva, nunca tinha visto o grande fresco mural de Júlio Pomar, que o artista pintou quando 21 anos de idade, e que as obras de reabilitação do Batalha salvaram das sete camadas de tinta com que o Estado Novo o cobriu na sua repressão ditatorial (mas porquê?!, é uma pintura de festa, feérica, de celebração, de S. João, por que é que alguém alguma vez a haveria de querer vendar?!).

"É uma enorme alegria que temos de agradecer", repetiu Adão e Silva ao lado do presidente da Câmara do Porto - e não se cansou de sublinhar, e de repetir, que "este presidente é também vereador da Cultura", o que "é um sinal de que na Cultura o Porto sabe o que está a fazer" e esse sinal "é um exemplo para todo o país".

Pedindo "partilha de responsabilidades entre o Estado, as autarquias e os privados, como o Porto faz", o ministro, cheio de enlevo, continuou: "O Porto fez uma aposta estrutural no Batalha, o Porto sabe a importância que a Cultura, transformadora de identidades e de oportunidades, tem". E realçou a felicidade desta recuperação: "Agora o Porto já pode ver cinema onde ele deve ser visto, que é na sala do cinema".

A exalar uma certa forma de êxtase, mas muito tranquilo, o autarca Rui Moreira é o responsável pelo sonho que o Porto sonhou - ou, como já dissera Blanc, "o Rui sonhou e fez"."Toda a gente queria isto, mas era preciso fazer. E fez-se", disse Moreira, que conseguiu alocar para o Batalha 500 mil euros por ano e 5,7 milhões de euros na obra vultosa de regeneração.

O futuro que tem passado

O autarca Rui Moreira foi o primeiro a falar na inauguração. E falou de gratidão por o Porto ser o que é.

"Quero agradecer aos portuenses terem acreditado sempre que era possível voltar ao Batalha e voltar a ter vivência de cinema na cidade". Mas o Batalha, seguiu Moreira, "é mais do que cinema, mais do que cinemateca, é para todos, o Batalha é o futuro que não esquece o seu passado". E agora, concluiu Moreira, "se não se importam, vamos ver cinema como deve ser".

E antes de começar a projeção do primeiro filme, já a Sala 1 estava toda sentada e a abarrotar (cheia leva 315 pessoas; a Sala 2 leva 110), Guilherme Blanc, o argucioso e admirável diretor artístico do Batalha, ainda haveria de dizer: "Começa hoje a jornada. É uma nova etapa do Porto e do país, é uma etapa justa e bela".

E depois vimos todos, no silêncio macio e escuro da graciosa sala, "The new sun", uma curta-metragem de 12 minutos, de 2017, da polaca Agnieszka Polska, o primeiro filme projetado no novo Batalha Centro de Cinema, que o próprio Blanc escolheu.

É uma animação poética e satírica suave sobre o fim do mundo, mas um fim do mundo cheio de alegria, com um lastro de humor surreal, em que o Sol, a última testemunha da extinção da humanidade, se dirige a nós momentos antes do colapso final.

É um filme-hipnose, é delicioso e foi escolhido com a precisão de um bisturi. "É um filme com uma mensagem de esperança para o futuro, é um filme sobre o amor sideral", disse ao JN o diretor artístico do novo Batalha, certamente a pensar menos no filme concreto e mais no seu novo projeto, a que prometeu "dedicação permanente e absoluta", com a cara num sorriso ilimitado, todo ele a radiar.

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