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O que fará Hollywood com este novo vírus coreano?

O que fará Hollywood com este novo vírus coreano?

"Parasitas" vence Oscars de melhor filme, filme internacional, realizador e argumento e faz História. Parece um vencedor de outros tempos, mas o tempo, esse não voltará nunca mais atrás.

É bastante irónico, mas "Parasitas" parece ser o filme perfeito para inaugurar uma nova era populista em Hollywood. Está estruturado de forma clássica em cinco atos, é o mais acessível do coreano Bong Joon Ho até hoje (sim, ainda mais do que "The Host-A criatura", de 2006, um surreal e muito original filme de ficção científica disfarçado de drama familiar), e revolve à volta de uma premissa social de ressonância global: uma família de farsantes da classe trabalhadora, fazendo-se passar todos por tutores, choferes e governantas de alta classe, usurpa o estilo de vida de uma família rica. Uns, os pobres Kims, estão cheios de defeitos e falhas graves de caráter e os outros, os ricos Parks, que veem o seu ecossistema invadido como se por um vírus, são apresentados com grande bonança, cheios de ingénua candura e até beleza. Apesar disso, o espectador está sempre do lado dos pobres e assiste à sua ascensão, e à introdução de novas camadas no drama, até ao seu final verdadeiramente devastador, com uma emoção atordoante, quase a rejubilar.

"Parasitas" é uma maliciosa comédia que floresce numa tragédia, termina num cume de ultraviolência, mas que pelo meio, cheio de confiança mesmo quando muda o tom, se instala placidamente no espectador e o põe a olhar de frente para a iniquidade - o abismo que hoje separa ricos e pobres.

O que vai fazer Hollywood com esta matéria verdadeiramente viral? Vai fazer com que haja mais disto mesmo: cinema clássico da melhor apanha, com "storytelling" do mais agudo e gratificante e original que há. E o vírus continua a germinar: o filme vai ser adaptado a série por episódios na HBO e poderá ser lançado de novo no circuito comercial, hipótese já aventada pelo realizador Bong, numa versão de dramático preto e branco.

A sua vitória é um facto histórico que importa sublinhar: pela primeira vez em 92 anos de Oscars, e que ocorre, justamente, no tempo político do "América first", um filme que não é falado em inglês triunfou como filme do ano na cerimónia americana que é do mais auto-congratulante que há. E fez mais: foi o mais premiado da noite passada, sugando ainda os Oscars ponderosos de melhor filme estrangeiro, melhor realizador e melhor argumento original. O perplexo Bong, 50 anos de idade, subiu quatro vezes ao palco e na última, a sala cintilante do Dolby Theatre, em LA, estrondeou em palmas e riso, mas não sem antes abrir a boca de espanto.

Tarantino e Mendes curvados

A impremeditada glória de "Parasitas" provocou várias baixas de vulto, particularmente em "1917", de Sam Mendes, e "Era uma vez... em Hollywood", de Quentin Tarantino, que estavam no pódio dos favoritos da crítica.

O filme de Mendes, uma fascinante proeza técnica de cinema imersivo (tem um só longo plano-sequência de duas horas com a câmara a arfar), mas que manifesta uma certa falta de alma, ou de espessura, segue dois soldados que levam uma mensagem vital pelas trincheiras da I Guerra, e era o mais nomeado, mas só ganhou três Oscars em 10 e todos técnicos (fotografia, efeitos visuais e mistura de som).

O filme de Tarantino, uma elegia sobre o fim da inocência em Hollywood e o início dos selváticos anos 70 que chegam em chamas com os crimes da família Manson e o assassínio de Sharon Tate, factos que o cineasta usa para ajustar contas com a história e escrever uma nova carta de amor às capacidades redentoras do cinema, estava nomeado para 10 Oscars mas ganhou apenas dois - e nenhum foi para Tarantino. Os triunfos confirmaram Brad Pitt (5.ª nomeação e primeiro Oscar como ator secundário) e a sublime cenografia do filme. Tragicamente, Tarantino pode já ter feito a sua irrepetível obra-prima aos 31 anos ("Pulp Fiction", de 1994) ou, pior, aos 29 anos, quando se estreou, cheio de fúria e a rutilar vigor, com "Cães danados" (1992).

Não saíram, ainda assim, humilhados como "O irlandês", uma outonal revisão do filme de gansters, do magnífico Scorsese (10 nomeações, zero Oscars), nem vexados como saiu a Netflix. A plataforma de streaming conseguiu 24 nomeações, mas apenas concretizou dois Oscars: um para a atriz Laura Dern em "História de um casamento", em que faz de advogada rapinante, e outro para "Fábrica americana", melhor documentário produzido pela Higher Ground, nova produtora de Barack Obama.

Atores confirmados sem surpresa

Depois da propícia perplexidade de "Parasitas", talvez o único filme unânime entre todos, tudo correu como esperado - e sem vírus. O quarteto de atores vencedores seguiu à risca o guião traçado no favoritismo desde os Globos de Ouro e os Bafta, confirmando Laura Dern e Brad Pitt nos seus papéis secundários e Joaquin Phoenix ("Joker") e René Zellweger ("Judy") como atores principais.

A vitória de Phoenix é particularmente justa após três nomeações falhadas aos Oscars: ele é o filme e o filme é uma doença mental provocada pela sociedade. "Joker", uma perturbação dramática de Todd Phillips, autor dos três tomos da comédia desatinada "A ressaca", reinventa a nossa relação com os filmes de super-heróis, atirando o assombroso Joker dos quadradinhos para o mundo real com inamovível convicção. O filme do monstro sensível, que tinha 11 nomeações, venceu apenas mais um Oscar: melhor banda sonora para a islandesa Hildur Guðnadóttir, que construiu uma partitura tensa e angustiada com acordes minimais - é a primeira mulher a vencer esta categoria em 92 anos (!).

São mais os que perderam

O resto da lista de vencedores redunda, no que aparenta ser mais um efeito de contaminação estrambólica da vitória de "Parasitas", numa lista em que parecem mais (e são de facto) os que perderam do que os que saíram de cabeça erguida a ganhar.

O melhor exemplo dessa espécie de confusão emocional é "Jojo rabbit": a excêntrica e acídula revisitação do nazismo que assume a forma de uma sátira em que um miúdo de 10 anos tem como melhor amigo imaginário Adolf Hitler. Era o objeto mais arriscado desta edição dos Oscars e a sua inclusão no lote de candidatos a melhor filme já é uma vitória em si mesma. Mas tinha seis nomeações e sacou apenas uma, o melhor argumento adaptado pelo também cineasta Taika Waititi.

Mais derreamento há de ter sentido a atriz e realizadora Greta Gerwig, cujo "Mulherzinhas" foi atualizado da novela de 1868 de Louisa May Alcott para uma versão contemporânea do retrato das quatro irmãs March, adolescentes determinadas que se transformam em mulheres da sua própria voz, não sem antes serem varadas pelos comprometimentos, e inevitáveis cedências, da idade adulta. O rácio é o mesmo deinefável "Jojo": seis nomeações, apenas um Oscar, o de melhor guarda-roupa, um prémio ironicamente infame, talvez, para o mais feminista dos filmes a concurso.

Os prémios todos aspergidos

No meio da distribuição dos Oscars, os prémios apareceram espalhados como que por um borrifador, isto é, sem qualquer hipótese de concentração num só produto, coisa que agora parece uma relíquia de outros tempos. Por essa razão, os dois Oscars para "Ford vs Ferrarri", de James Mangold, com Matt Damon e Christian Bale a reviveram esses dias históricos de 1966 em que a construtora de automóveis americanos se intrometeu na hegemonia da marca italiana e triunfou três anos seguidos em Le Mans, fazem uma bela figura. O filme saiu dali com uma excelente relação de 50-50 entre nomeações e galardões: concorria a quatro prémios, ganhou dois (melhor montagem e melhor edição de som).

Melhor, isto é, capaz de cantar a plenos pulmões vitória, só os filmes que ganharam um Oscar e tinham uma só nomeação. E aqui há apenas um exemplo, um só (não contam, evidentemente, aqueles que pelo seu género, como a curta-metragem ou o documentário, só podem obter efetivamente uma candidatura) e esse exemplar único é Elton John. O cantor inglês viu "Rocketman", a biografia sobre si mesmo, triunfar com a melhor canção original, "(I'm Gonna) Love Me Again", escrita e interpretada pelo próprio Elton John, que recebeu o Oscar cheio de purpurinas e dentes.

Saudades do antigamente em que havia filmes grandes mesmo grandes, coroados dos pés à cabeça, que saíam dos Oscars como da reinação? Esse tempo não só não volta para trás como definitivamente acabou - e os últimos exemplos vão já muito lá atrás: "Ben-Hur" (1959), 11 Oscars em 12 nomeações; "Titanic" (1997), 11 Oscar em 14 nomeações; ou, melhor ainda, "O senhor dos anéis - O regresso do rei" (2003), que foi nomeado para 11 categorias e ganhou... 11 Oscars!

A culpa, evidentemente, não é só do mundo, é muito nossa e da nossa dispersão consumista por múltiplas plataformas e ecrãs - isto é, hoje colhemos, e muito justamente, aquilo que semeamos, ainda que hoje tudo pareça ser semeado debaixo da polvurosa do vento. Tudo o resto, é só o barulho do vento a passar.

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