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"O Rivoli sempre foi um Teatro nacional"

"O Rivoli sempre foi um Teatro nacional"

Edição especial dos Cadernos do Rivoli conta a história do Teatro Municipal desde a sua fundação, incluindo as sucessivas "tentativas de destruição efetiva e simbólica".

O Teatro Rivoli tem mais vidas que os gatos. Essa será a primeira lição a retirar da leitura da edição especial dos Caderno do Rivoli - 834 páginas, 34 autores, dois volumes pensados, organizados e editados por Tiago Bartolomeu Costa, e exaustivamente providos de documentos históricos (cartazes, contratos, cartas, fotografias, bilhetes, notícias) resgatados do depósito da autarquia portuense -, que foi apresentada esta semana no Porto, no âmbito das celebrações dos 90 anos do Teatro Municipal do Porto.

A segunda lição evidencia que há mais histórias dentro da História do Teatro que foi inaugurado em 1932 e municipalizado em 1989 além da história, amplamente conhecida, do acantonamento de que foi alvo nos anos 2000 -, mas todas elas contam uma história de resistência e de relação apertada com a cidade de que o equipamento desejava ser "digno". A ambição está escrita numa das atas primeiras da fundação.

"O edifício resistiu inúmeras vezes às tentativas de destruição efetiva e simbólica", lembra o editor ao JN. "Existir, ainda, 90 anos depois da sua criação, deve fazer-nos refletir sobre o impacto que um Teatro tem na evolução cultural, social, e mesmo política, de uma cidade", afirma Tiago Bartolomeu Costa.

"Devemos aprender a olhar para um Teatro como um lugar que sabe muito mais do que nós. O Rivoli teve várias vidas. E talvez não haja muitos Teatros que possam dizer que a malha urbana foi mudada por sua causa. Que possam dizer que o trânsito foi alterado por sua causa. Que possam dizer que resistiram à especulação imobiliária. Que possam dizer que apesar de os seus acionistas serem banqueiros, resistiu ao poder económico."

A terceira lição poderá soar subjetiva, mas o editor faz a sua defesa convicta, ancorado no trabalho de investigação que precedeu a edição dos Cadernos: ""O Rivoli, apesar de estar no Porto, sempre desempenhou o papel de barómetro do que foram as artes no século XX. O Rivoli tem Porto no nome, mas sempre foi um Teatro Nacional. A sua missão é nacional", sublinha.

"É bom que o Teatro e a cidade percebam que o Rivoli não representa um lugar de segunda escolha, mas de primeira escolha. Ele foi sempre um lugar de validação para projetos que só depois se afirmaram como nacionais. Foi uma sala de teste, do ponto de vista técnico e artístico. Muitas digressões, nos anos 60, começaram por ali."

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Os dois volumes (8º e 9º), que contam a história do Teatro como talvez nenhum outro Teatro tenha visto a sua história ser contada, debruçam-se também sobre a contribuição dos artistas para a construção da identidade da cidade e sobre o lugar que o Teatro pode oferecer aos artistas.

"Compreender a forma como o discurso coletivo ajudou a construir a cidade a partir da relação com a casa em que se apresentou com regularidade levou-me a pedir ensaios aos criadores que mais vezes passaram pelo Rivoli entre 2014 e 2021", diz Bartolomeu Costa, que diz ter uma certeza:

"A existência do Rivoli tira-nos a razão para dizermos que em Portugal não se faz nada, que não se arrisca. Este Teatro foi pioneiro, também enquanto forma de pensar a cidade a partir de uma ideia de cultura que pressupõe a presença do público. Devemos pensar: E agora, o que queremos fazer com isto?"

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