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O silêncio como fim último do poema

O silêncio como fim último do poema

Inédita em Portugal até ao início deste ano, obra de Louise Glück merece ser descoberta. "Noite virtuosa e fiel" é um dos quatro livros de Glück publicados já neste ano.

Não são muitos os méritos que podemos assacar ao Prémio Nobel da Literatura, convertido nos últimos (largos) anos numa espécie de bornal, atribuído mais em função de motivações de teor político, geográfico ou até de género do que por razões puramente literárias. E, todavia, por entre as escolhas insólitas, improváveis ou puramente bizarras, lá aparecem de quando em vez nomes que engrandecem o prémio criado pelo inventor da dinamite há bem mais de um século.

É esse o caso de Louise Glück. Praticamente desconhecida em Portugal, apenas com alguns poemas saídos em revistas e publicações especializadas, a poetisa norte-americana viu os direitos dos seus livros para o nosso país serem adquiridos de imediato pela Relógio D"Água.

Numa ação de arrojo, a editora de Francisco Vale avançou com a publicação integral da sua obra até final do ano, recorrendo a um punhado de poetas de indiscutíveis méritos para assegurar a tradução.

Vertido por Margarida Vale do Gato, "Noite virtuosa e fiel"é um dos quatro títulos já disponíveis no mercado e constitui, para quem ainda não tinha contactado com a sua escrita límpida mas impregnada de significado(s), um verdadeiro deleite.

Pelo despojamento destes poemas, antes de mais, evitando o jargão (falsamente) poético que por aí abunda, mas também pela forma subtil como interseciona passado, presente e futuro nas suas reflexões.

Nestes escritos, "um dia segue-se continuamente a outro", sem cortes ou ruturas abruptos, mas como se nos movêssemos num território paralelo que dispensa medições cronológicas convencionais. O tempo, inelutável e impoluto, fica em suspenso à medida que acedemos a uma dimensão mais profunda e enriquecedora da nossa visão do mundo e dos seres humanos.

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Nunca tendo escondido que é uma apaixonada pelo silêncio, Glück parece imbuída desse mesmo objetivo na construção dos seus poemas. Não significa isto que sejam necessariamente breves ou urgentes, mas, acima de tudo, porque o modo como fixam os instantes contém um reconhecimento implícito da impossibilidade de comunicação.

A vida não pulsa lá fora, distante desta poesia feita de tensões e equilíbrios. Ela lateja, de forma compassada e rítmica, à medida que Louise Glück a vai narrando diante dos nossos olhos.

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