Teatro

O último verão antes do colapso estreia no Teatro São João

O último verão antes do colapso estreia no Teatro São João

"Veraneantes", de Maksim Gorki, estreia esta quinta-feira no Teatro São João, no Porto, com encenação de Nuno Cardoso, que compara a futilidade das personagens da peça à obsessão com os "likes" na atualidade.

A frivolidade das personagens de "Veraneantes", o espetáculo que esta quinta-feira se estreia no Teatro São João, no Porto, às 21 horas, é a mesma do "Portugal empreendedor, do Porto turístico e do Facebook", disse Nuno Cardoso, que voltou à dramaturgia russa para encenar este texto de Maksim Gorki (1868-1936) escrito nas vésperas da revolução de 1905.

"Toda a gente se indigna com a situação dos refugiados, mas não se criam estruturas para ajudá-los, fazem-se hashtags. E também se diz muito mal do Trump e da Marine Le Pen, mas o que interessa, no fundo, são os likes." Este comentário ao presente através do passado é uma das marcas de água do trabalho de Nuno Cardoso, que de "Ajax" a "Plasticina", de "Woyzeck" a "O misantropo", tem explorado os ecos que esses textos, e as suas épocas, continuam a ter na atualidade.

Outra das características do encenador volta a estar patente em "Veraneantes" - a gestão hábil de uma grande turba de atores. São quinze as personagens em cena. Representantes da classe média alta na Rússia do início do século XX. Apresentam-se com roupas coloridas e bebem cocktails. Envolvem-se em intrigas e conflitos. Tentam compreender um mundo que lhes vai fugindo debaixo dos pés (como o escritor Shalimov, interpretado por Dinarte Branco, que diz já não saber para quem escreve).

A alegria crepuscular dos "veraneantes" lembra o ambiente de "O jardim dos Finzi-Contini", o romance de Giorgio Bassani que foi adaptado ao cinema por Vittorio de Sica, em 1970. Também ali as personagens vivem os últimos momentos de uma vida de privilégio e conforto, guardadas pelos muros da propriedade de uma rica família de judeus italianos. Uma espécie de jaula dourada, que no texto de Gorki é a "datcha" (casa de campo) da família Bassov.

Da iminência da revolução ao refluxo do progresso

Em 1904, quando a peça foi escrita, dava-se o motim a bordo do couraçado Potemkin, com a tripulação a exigir melhores condições de trabalho (episódio registado no cinema por Serguei Eisenstein, em 1925). Alguns meses depois, a 22 de janeiro de 1905, tinha lugar, em São Petersburgo, o "domingo sangrento", data em que a guarda imperial do czar Nicolau II disparou sobre a marcha lenta dos manifestantes que se dirigia ao palácio de inverno. A matança deu origem a um período revolucionário que se prolongou ao longo de todo o ano, em vários locais da Rússia, e que seria a antecâmara da revolução de 1917.

PUB

Mas, ao contrário da época em que foram criadas as personagens de "Veraneantes", os ventos que sopram não são da revolução. Para Nuno Cardoso, estamos justamente num "tempo de refluxo de todos os progressos sociais". Um tempo em que o "medo é o estrume da merda de todos os populismos e revanchismos". Sobre a iminência de uma mudança, o encenador limitou-se a esboçar um sorriso irónico.

Nuno Cardoso considera o texto de Gorki o "lado B", ou o "lado monstruoso", das peças de Tchekov "A gaivota" e "O cerejal", escritas na mesma época mas com personagens que projetam ainda um futuro de esperança. Em Gorki, é o cinismo e a dissolução que parecem dominar. "Tchekov tinha preocupações poéticas que não estão presentes em Gorki, que é um sobretudo um escritor de acção."

Gorki: da perseguição ao realismo socialista

Tendo passado por todas as dificuldades na juventude - da miséria à perseguição política, da fase de vagabundo à tentativa de suicídio -, Maksim Gorki tornar-se-ia, a partir da revolução de 1917, a grande figura literária do regime soviético. Em 1933 publica o célebre artigo sobre o "Realismo socialista", onde define os traços do que seria o género artístico oficial da União Soviética. Em 1907 tinha já publicado "A mãe", considerado por muitos o texto fundador do movimento. De militante comunista perseguido, Gorki passou a figura da repressão, tendo contribuído, com os seus libelos contra os vanguardistas russos, para a fuga de nomes como Wassily Kandinsky, Marc Chagall ou Naum Gabo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG