Literatura

Olga Tokarczuk e a estranheza que emana do normal

Olga Tokarczuk e a estranheza que emana do normal

"Histórias bizarras", um absorvente volume de contos escrito originalmente por Olga Tokarczuk em 2008, ganhou por fim uma edição portuguesa.

Não têm sido muitos os exemplos de escritores mal conhecidos entre nós que, à boleia da visibilidade extraordinária conferida pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura, se impõem junto dos leitores portugueses. A polaca Olga Tokarczuk é um desses raríssimos casos, mercê de uma força narrativa contagiante e de uma imaginação não menos que prodigiosa.

Esses atributos estão bem explícitos na sua mais recente obra publicada em Portugal, "Histórias bizarras". Sem a aura de prestígio que rodeia outros títulos de Tokarczuk, como "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos", o livro só agora conhece uma tradução no nosso país, pese embora tenha sido originalmente publicado na Polónia no já distante ano de 2008.

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Para leitores fiéis ou recém chegados à sua obra, a espera foi frutuosa. O que lemos na dúzia de curtas narrativas - embora de dimensões desiguais - são os diferentes níveis de desdobramento que a realidade pode ocultar, revelando-nos um conjunto de dimensões que, oscilando entre o sobrenatural, o fantástico ou o fantasmagórico, converge para uma observação do quotidiano invulgarmente rica, que cativa antes de mais pela abundância de detalhes e por uma imagética colorida.

Essa atração pelo bizarro não significa que a autora de "Casa de dia, casa de noite" convoque para as suas incursões de índole mais sombria o chorrilho de lugares comuns que nos habituámos a associar aos livros ou filmes que exploram esse imaginário tão particular.

A característica que mais impressiona neste registo é mesmo a verosimilhança, ou seja, a contenção narrativa de que se serve com mestria e se revela plenamente capaz de causar perplexidade e assombro no leitor, sem necessidade de fazer alarde das tais figuras batidas (sobre)representadas em histórias do género.

Ponto alto do livro, o conto "As crianças verdes" transporta-nos para a corte do rei polaco Jan Kasimierz, em meados do século XVII, e confronta-nos com uma ´época de desolação e horror, em que a morte estava sempre à espreita e o significado da vida era pouco mais do que nulo. Acompanhamos o relato feito pelo médico do monarca com um incontido desconforto que só desaparece quando, no final do texto, constatamos que nunca chegámos a sair do mesmo sítio.

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