Teatro S. João

Os 100 anos do esplendor inconformado de um monumento vivo

Os 100 anos do esplendor inconformado de um monumento vivo

Centenário do Teatro S. João é assinalado este sábado com atividades e espetáculos ao longo do dia. Celebra-se a excelência do Nacional do Porto.

Referindo-se a Viena, antiga capital do Império Austro-Húngaro, o falecido cronista Vasco Pulido Valente descreveu-a, num dos seus artigos, como tendo o "esplendor resignado de monumento morto". Exatamente o contrário do que se poderá dizer sobre o edifício portuense que hoje celebra 100 anos, esse volume ornamentado que se alojou na parte sul da Praça da Batalha, a 7 de março de 1920, com desenho de Marques da Silva, e que contribui como poucos para o amor-próprio da cidade - justamente porque tem o esplendor inconformado de monumento vivo.

Uma vida que teve os seus altos e baixos e que quase desapareceu, apodrecida, nos anos de estertor do São João Cine, mas que voltou a renascer, desta vez não das cinzas do anterior edifício de Vicenzo Mazzoneschi, inaugurado em 1798, mas do abandono e da falta de destino. A aquisição pelo Estado, em 1992, que o transformou em Teatro Nacional São João (TNSJ), tem uma importância sensível para todos os que transpuseram desde então as quatro colunas jónicas da frontaria, mas para quem tem a memória das paredes gretadas, do aspeto sombrio da fachada, das cadeiras cambas e do odor fétido dos corredores, a reanimação daquele órgão vital da cidade foi quase um milagre.

Um milagre que não se esgotaria na devolução do teatro aos portuenses e agora também ao país, mas que prosseguiu até afirma a casa como espaço de referência das artes cénicas nacionais, e que a partir de 2003, de forma institucionalizada, com a integração na União de Teatros da Europa, se alcandorou também a luz brilhante no mapa internacional da criação.

Constante reinvenção

Várias "criaturas teatrais" contribuíram para a excelência do Teatro Nacional do Porto, que viria a estender a sua influência a mais espaços nobres da cidade: o Teatro Carlos Alberto, em 2003; e o Mosteiro de São Bento da Vitória, em 2007, ano em que o São João se torna Entidade Pública Empresarial. Uma dessas "criaturas", cuja vida e crescimento artístico se entrelaçam com a história do Nacional, é o atual diretor da instituição, Nuno Cardoso, que defende o carácter de "originalidade" do projeto.

O encenador recusa mesmo o paralelo com exemplos canónicos do passado, desde a Comédie-Française e os teatros nacionais alemães do século XVIII até Almeida Garrett, afirmando que o TNSJ é "uma criação do Porto, com identidade própria - um teatro da cidade, do país e da lusofonia". Um edifício cuja grande qualidade é a "constância com que se reinventa" e com que prossegue a sua missão de serviço público.

Mesmo nas épocas de maior recessão, lembra Nuno Cardoso, em que a cultura definhava e o Porto estava amputado do seu Teatro Municipal, foi o São João a fornecer oxigénio ao "tecido de criação independente da cidade".

Mas a "criatura" central desta história é Ricardo Pais, que lançou as traves mestras para o sucesso do TNSJ. Foi o encenador, que conduziu os destinos do teatro entre 1996 e 2000, e novamente entre 2002 e 2009, quem concebeu essa máquina de onde saíram espetáculos notáveis, de criadores portugueses e internacionais, que se debruçaram sobre obras clássicas e contemporâneas. Ricardo Pais estabeleceu a filosofia, os princípios e a "sintaxe", como lembrou Pedro Sobrado, presidente do Conselho de Administração do teatro, no seu discurso de tomada de posse.

Mas o agradecimento da cidade, e do país, deverá estender-se aos outros diretores. Eduardo Paz Barroso, o primeiro a assumir o cargo, logo em 1992, disse ao JN que mais do que "descentralizar", o TNSJ criou uma "nova centralidade no Porto". José Wallenstein, cujo mandato coincidiu com o Porto 2001, considera ainda o São João como "o teatro nacional de referência no país". E Nuno Carinhas, antecessor de Nuno Cardoso, pediu também atenção, neste centenário, para o próprio edifício e a sua "escala e harmonia perfeitas".

Obras de renovação

Para garantir um lustro renovado, o teatro encerrará no próximo ano, entre abril e setembro, para diversas intervenções. A obra está integrada numa candidatura global a verbas do programa Norte 2020 no valor total de cerca de 2,3 milhões de euros, 85% dos quais financiados por fundos comunitários.

Emissão especial do Jornal 2 em direto do teatro

João Fernando Ramos e Sandra Sousa vão estar em direto do Teatro Nacional de São João para uma emissão especial do Jornal 2, com entrevistas ao presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, ao primeiro-ministro António Costa e ao Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. Começa às 21.30 horas.

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