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Os 139 anos de história(s) da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras

Os 139 anos de história(s) da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras

Cento e trinta e nove anos de história são muitas histórias. No duplo volume "Eppur si muove - uma história ilustrada da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto", a investigadora Manuela Espírito Santo revela como foi o rico mas muitas vezes acidentado percurso de uma das instituições portuenses mais ilustres.

Qual é a associação cultural do Porto qual é ela que "atravessou a monarquia, assistiu à implantação da República, viveu revoltas e revoluções, duas guerras mundiais, a peste, a cólera e outras epidemias"? Se a resposta parece simples, a sua existência tem sido tudo menos isso, tantas as turbulências, mas também os acontecimentos frutuosos, que têm pautado a sua existência.

Ao mergulhar, durante mais de dois anos, nos arquivos da instituição, Manuela Espírito Santo - autora de "Eppur si muove - uma história ilustrada da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP)" - estava longe de imaginar o manancial de histórias ali escondidas. Associada desde 1988 e membro da direção há mais de uma década, a autora de "Retrato de rosto - fotobiografia de Óscar Lopes" confessa que "esperava encontrar uma associação mais politizada e ligada ao poder". Ao invés, deparou-se com "pessoas que gostavam genuinamente da associação e a viam, antes de mais, como um espaço de liberdade".

Ao longo dos tempos, muitos foram os seus dirigentes que emprestaram o seu tempo mas também os respetivos recursos para a manutenção do ideal da associação, assente no fomento da cultura, em estreita ligação com o apoio assistencial aos jornalistas e homens de letras. Foi o caso de Alfredo de Magalhães, destacado autarca portuense e ministro da República, que, no início da década de 1930, salvou a AJHLP de um fim quase certo, ao empenhar-se ativamente no pagamento da dívida de "várias centenas de contos" e recuperar deste modo a sua emblemática sede.

Três décadas depois, a AJHLP voltou a enfrentar dificuldades severas que comprometeram a sua atividade durante largos anos. A culpa deveu-se a um projeto megalómano que pretendia criar uma cidade cultural, com um centro de apoio aos intelectuais e uma casa de repouso, na Madalena, então uma freguesia sem qualquer infra-estrutura rodoviária que ajudasse a atenuar a deslocação para o centro do Porto. "O projeto tornou-se um sorvedouro de dinheiro e foi um fracasso total", recorda Manuela Espírito Santo.

A escassez de dinheiro sempre foi uma dor de cabeça para os dirigentes da associação. Mas não o único. A dada altura da sua história, as duas classes dominantes no seu seio entraram em confronto aberto, cada qual com visões distintas sobre o rumo a seguir. Os jornalistas defendiam uma via mais sindicalizante, enquanto os homens de letras se opunham à medida. O braço de ferro seria vencido pelos segundos, que, embora em menor número, conseguiram uma mobilização maior. O perfil literário da associação acentuou-se a partir de então, sem que, contudo, os jornalistas deixassem de fazer parte totalmente da estrutura.

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A biografia como um puzzle

Se uma biografia, mesmo que sobre uma instituição, é sempre feita de escolhas, necessariamente subjetivas, mais difícil se torna ainda a tarefa quando a documentação é parcial ou até, em muitos casos, inexistente.

No caso da AJHLP, os 'buracos' na história não faltam. Basta relembrar que, nos primeiros 15 anos de existência, não havia sede e a correspondência ou atas ficavam muitas vezes na morada dos associados. Muitas décadas depois, em 1972, as circunstâncias voltaram a atrapalhar a preservação do espólio: devido às obras de requalificação da sede, o espólio foi disperso por vários locais da cidade. Ora, no rescaldo do 25 de Abril, o valioso recheio que se encontrava à guarda do Lar do Comércio, composto pela biblioteca e várias obras de arte, foi alvo de pilhagens e grande parte não chegou a ser recuperado.

Devido à falta de documentação, que obrigou a consultas regulares nos arquivos do Porto e de Gaia, "compor a história da associação foi quase como fazer um puzzle", confessa a investigadora. "Uma carta, uma notícia, um bilhete, tudo me serviu para ir compondo o livro."
A reunião de elementos suficientes para a escrita dos dois volumes do livro não foi a única preocupação de Manuela Espírito Santo.

Muitos dos documentos consultados, com mais de um século de existência, estavam num estado de tal forma frágil que receava mesmo que se pudessem desintegrar durante a consulta.

Por isso, cumprido que está agora o objetivo da publicação da história ilustrada, a autora de "Eppur si muove" avança com outro sonho: a digitalização integral dos documentos, por forma a assegurar a sua preservação. As tentativas de obtenção de financiamento não resultaram até à data, mas a dirigente acredita que, devido à valia docimental, a missão acabará por ser concretizada

Nem só de dificuldades se fizeram os 139 anos da AJHLP. A ligação de notáveis (Ricardo Jorge, Júlio de Matos, Guerra Junqueiro, Pedro Homem de Melo, Agustina Bessa-Luís, entre muitos outros) foi uma constante e as suas atividades culturais ajudaram a acentuar a dinâmica portuense. O exemplo mais notório foram as célebres sessões com escritores que, entre 1959 e 1961, Óscar Lopes organizou e moderou, trazendo ao Porto os principais escritores da época, para deleite de uma multidão que acorria em massa. O fenómeno foi tão evidente que a PIDE, receosa de alguma sublevação, passou a vigiar as sessões, narrando exaustivamente tudo quanto ali se passava.

A poucos meses de completar 140 anos, aassociação continua a fervilhar em projetos. O mais imediato é a abertura do arquivo e a acomodação da riquíssima biblioteca de Óscar Lopes. Mais distante, mas nem por isso menos desejada, é a reabilitação integral dos quatro pisos do edifício-sede na Rua de Rodrigues Sampaio. Uma falha no projeto de arquitetura ditou o chumbo na quase certa aprovação da candidatura aos fundos europeus, mas não derrubou os ânimos.

"O futuro passa da associação passa por saber regenerar-se e abrir-se à cidade. É preciso atrair pessoas fora do círculo habitual e o arquivo será uma peça-chave nesse processo, até porque já costumamos receber pedidos de consulta de investigadores da Galiza, França ou Brasil", reforça Manuela Espírito Santo.

O livro "Eppur si muove - uma história ilustrada da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto" vai ser apresentado nesta quinta-feira, às 18.30 horas, na sede da AJHLP pela diretora do "Jornal de Notícias", Inês Cardoso.

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