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Os anos da formação de Susan Sontag

Os anos da formação de Susan Sontag

Diário da juventude revela-nos uma autora à procura da sua voz e sequiosa de descoberta.

Há sempre algo de intruso na leitura de um diário alheio, como se estivéssemos a espreitar pelo buraco da fechadura acedendo a uma intimidade que de outro modo nos seria vedada. A associação faz ainda mais sentido quando a publicação póstuma desses escritos é feita sem a autorização prévia do seu autor.

É precisamente esse o caso dos diários e apontamentos de Susan Sontag, cujo primeiro volume foi agora publicado pela Quetzal. No prefácio, o filho da escritora, David Rieff, reconhece não ter recebido instruções da sua mãe sobre o que fazer às pilhas de cadernos que deixou quando morreu, em 2004. Em sua defesa, Rieff explica que a publicação seria uma questão de tempo, pelo que "ou eu os organizava e apresentava, ou outra pessoa qualquer acabaria por fazê-lo".

A ligação familiar próxima poderia indiciar que o responsável da edição iria optar por um modelo de intervenção atuante, eliminando ou suavizando os trechos mais incómodos ou íntimos. Felizmente, em nome de um conhecimento mais amplo sobre a sua figura, David Rieff evitou essa tentação, com exceção da salvaguarda de alguns nomes de que privaram com Sontag, identificados apenas pela respetiva inicial.

O que nos é transmitido ao longo das três centenas e meia de páginas que constituem este volume é, assim, o acesso sem reservas e em primeiro grau às confissões de alguém que, desde o início da adolescência, manifestou uma invulgar predisposição para o conhecimento e descoberta. Em estado cru e frequentemente desordenados, esses escritos revelam, porém, uma jovem ( tinha apenas 13 anos quando começou os diários) que impressionava pela maturidade e consistência, capaz de entabular diálogos sem temores com figuras como Thomas Mann e Anaïs Nin ou mantendo um forte espírito crítico perante autores consagrados, como James Joyce.

A avidez com que se entregava à literatura e às artes era extensiva ao plano sentimental. Quando, aos 17 anos, se casou com o académico Philip Rieff - 11 anos mais velho - já sabia que a sua verdadeira paixão eram as mulheres, mas, ainda assim, presa às convenções dominantes, manteve as aparências até quando pôde. A verdade, essa, estava cingida ao diário, no qual a certa altura escreve que "vivo a minha vida, mas não vivo nela".

Renascer
Susan Sontag
Quetzal

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