Companhia dos Livros

Os dias claros de Adília Lopes

Os dias claros de Adília Lopes

As impressões soltas do quotidano predominam no novo e desconcertante livro da poetisa Adília Lopes, "Pardais", que prossegue parcialmente o tom da sua obra mais recente.

A invejável coerência que dá forma (e sentido) ao singular "corpus" poético de Adília Lopes não invalida que nos últimos anos tenhamos assistido a um curioso desdobramento da sua escrita. Sem que tal signifique uma descaracterização dos seus elementos nucleares, deparámo-nos em títulos como "Dias e dias" ou "Estar em casa" com uma forte vertente diarística assente na observação do quotidiano que remetia também para as cada vez mais frequentes evocações de pendor memorialístico.

PUB

"Pardais" segue uma linha idêntica - ainda que sem estar tão marcado pela experiência do confinamento dos dois títulos anteriores - e, talvez por isso mesmo, não provoque um impacto tão evidente.
Mas o apelo da poesia de Adília Lopes permanece intacto e tem o condão de manifestar-se de forma inesperada, seja através de um verso luminoso que faz refulgir uma (aparente) banal frase ou com a partilha de um episódio distante da juventude capaz de criar um vínculo estreito com o leitor.

Nestas anotações diarísticas avulsas, a autora volta a brandir o caráter desarmante da sua escrita. Quando recorda o quadro pintado pelo seu avô Raul que escolheu para a capa do livro ou entra em curiosos diálogos com versos célebres de Fernando Pessoa ou Gil Vicente, o que a move é o esforço natural de captar através da escrita a passagem de um quotidiano do qual retém sobretudo as feições mais luzidias. Uma forma de estar (e ser) oposta à dominante nos círculos poéticos, ainda muito marcados pela ideia do poeta torturado.A sua oposição às "coisas farfalhudas", de que fala num dos poemas, leva-a a optar por uma formulação despojada que é bastas vezes confundida com uma toada naïf. Como confessa numa das últimas inscrições do livro, "gostava que os meus poemas fossem pardos, modestos, pequenos, lisboetas como os pardais e que tivessem o som do piar dos pardais". Para logo de seguida, concluir, perentória: "Aprendo a escrever com os pardais".

De interesse bem mais discutível é a inclusão de um conjunto numeroso de desenhos feitos pela artista com a mão esquerda. Embora se compreenda o propósito de captar a irrepetibilidado (pseudo) artístico preenche mais páginas do que a totalidade dos poemas.e do momento, associado à ideia de que o gesto contínuo induz à repetição, é insólito verificar que esse exercício (pseudo) artístico preenche mais páginas do que a totalidade dos poemas.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG