Açores

"Os Filhos da madrugada" encerraram o Arquipélago de Escritores

"Os Filhos da madrugada" encerraram o Arquipélago de Escritores

Anabela Mota Ribeiro apresentou este domingo, em Angra do Heroísmo, a sua recolha de entrevistas a personalidades nascidas após o 25 de Abril. Revelou otimismo, mas deixou alertas: "A democracia é para conquistar e reconquistar." Festival literário regressa no próximo ano com ambição de se expandir a outras ilhas

"Tenho a consciência de que vivo num país tremendamente imperfeito e incomparavelmente melhor do que o que havia antes." Quando o tempo da democracia portuguesa está perto de igualar o tempo da ditadura do Estado Novo, é esta a perceção de Anabela Mota Ribeiro. Uma perceção pessoal, fundada na sua experiência, mas também uma perceção colhida nas 26 entrevistas que realizou a pessoas nascidas após o 25 de Abril de 1974. O resultado ficou plasmado em "Os filhos da madrugada", livro que a autora apresentou no Museu de Angra do Heroísmo, este domingo, no último ato do festival literário Arquipélago de Escritores.

Em conversa com o diretor do certame, Nuno Costa Santos, a jornalista nascida em 1971 partiu dos exemplos de várias personalidades que escolheu para este projeto - onde se encontram figuras da política, das artes, das ciências ou do meio empresarial, nascidas em diferentes décadas e regiões do país, com distintos credos religiosos e ideológicos - para atestar uma evolução significativa desde 1974: "Andamos duas ou três gerações para trás e o que encontramos é sobretudo pobreza, ruralidade e ignorância."

Uma evolução que parte da taxa de 24% de população analfabeta para um número crescente de indivíduos que são os primeiros a licenciar-se na sua família (ou a concluírem um mestrado, como é o caso da autora), a ocuparem cargos impensáveis para os seus pais e avós, a ascenderem de um passado indigente para lugares destacados na sociedade. Evolução também nos costumes, que permitiu às mulheres saírem da sua menoridade cívica para assumirem pastas na governação ou simplesmente para decidirem que não precisam de casar para viver com alguém.

Excluído deste mosaico, onde se incluem nomes tão diversos como Tiago Rodrigues, Gisela João, Filomena Cautela, Mariana Mortágua, Adolfo Mesquita Nunes ou Nenny (a mais jovem dos entrevistados, apenas 18 anos), estão as vozes da extrema-direita, porque "o chão para esta diversidade foi a democracia". Um bem precioso e sob ameaça, considera a autora, lembrando a emergência de figuras como Trump ou Bolsonaro ou a chegada ao parlamento português de forças populistas. "Temos de estar empenhados e mobilizados porque a democracia é uma construção permanente."

Turismo nos Açores: ponto de encruzilhada

No último dia do Arquipélago de Escritores, certame que é também um espaço de reflexão sobre a cultura açoriana, tradicional e contemporânea, foi homenageado o poeta faialense Mário Machado Fraião (1952-2010), com intervenções e leituras de Carlos Bessa, Urbano Bettencourt e o grupo de teatro A Sala.

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Mais tarde, no Clube Náutico de Angra do Heroísmo, discutiram-se possibilidades para uma estratégia turística nos Açores, num momento em que o arquipélago se encontra numa encruzilhada que obriga a traçar limites a um processo que traz evidentes benefícios mas que ameaça a identidade local e a natureza. "Não podemos sobrecarregar muito mais o ecossistema dos Açores, senão acaba-se a galinha dos ovos de ouro", alertou Maria das Mercês Pacheco, autora do livro "Viajantes nos Açores. O olhar estrangeiro sobre as ilhas desde o século XVI". Também Jorge Forjaz, genealogista e primeiro Diretor Regional para os Assuntos Culturais no arquipélago, defendeu uma estratégia de equilíbrio e um foco na cultura e criatividade. "Angra não é a mais bela cidade do Mundo, mas tem algo único e que não pode ser alterado: foi o centro da expansão europeia, não só para portugueses, mas também para espanhóis, franceses ou ingleses. Foi lugar de encontro de civilizações."

Foi também lugar de encontro de literaturas durante três dias, num cenário de verdes delirantes, clima tropical e gamos ameaçadores no Monte Brasil. O Arquipélago de Escritores regressa no próximo ano, prometendo expandir-se a novas ilhas e linguagens.

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