Teatro Rivoli

Luísa Taveira: Bailarinos devem "ter presente o fim"

Luísa Taveira: Bailarinos devem "ter presente o fim"

A Companhia Nacional de Bailado estreia, esta sexta-feira, no Teatro Rivoli, Porto, o programa "Reportório". Os espetáculos até sábado estão esgotados. Ainda há bilhetes para o programa "Dança e documentário", no domingo.

Após 18 anos, a CNB faz uma estreia no Porto. O JN esteve à conversa com Luísa Taveira, diretora artística da companhia.

É bom regressar ao Porto?

Eu já não vivo no Porto desde os meus 16 anos, mas há sempre qualquer coisa que fica, tenho muita família cá.

Há o mito de que a Luísa era sempre a mais aplaudida por ser do Porto...

(Risos) É verdade que era a justificação que davam sempre.

Como acontece uma estreia da CNB no Porto após 18 anos?

A ideia original partiu de Paulo Cunha e Silva, quando soube que ele vinha para o Porto. Falámos, porque há muito tempo que não vinha ao Porto. Começámos logo por fazer parte, integrando o projeto "Mozart" de Anne Teresa de Keersmaeker. Depois, em conversa com o Tiago (Guedes), perguntei-lhe: "Tu queres que eu vá estrear ao Porto?" No fundo foi um desejo de todos.

Tinha vontade de estrear cá?

O primeiro espetáculo da Companhia Nacional de Bailado estreou em 1977, no Teatro Rivoli, no Porto. Nessa altura o teatro estava o caos, tínhamos de fazer uma pesquisa dos buracos no palco. Nessa altura e ainda bem, ainda não havia linóleos dançávamos diretamente sobre a madeira, assim era mais fácil encontrá-los.

Ainda se lembra do programa da estreia?

Claro. O programa desse dia era constituído pelo Segundo ato do "Lago dos Cisnes", "Cante de amor e de morte", Dueto do "Quebra-Nozes" e "Suite medieval". Era um repertório muito forte, a maioria dos bailarinos não era portuguesa, porque não havia escolas. Hoje em dia é tudo muito mais fácil, os alunos das escolas portuguesas são fenomenais e são revelações nos concursos internacionais.

Como era estudar dança no Porto? Havia apenas dois professores...

Eu na época só me lembro do Pirmin Treku, porque era a minha vida: do liceu para a escola dele. A escola era fabulosa e ele era uma personalidade fantástica. Uma figura pública no Porto. Uma pessoa sempre muito entusiasmada. O ensino de dança em Portugal há 40 anos não tem comparação possível com o de agora.

Em que consiste o programa que vão apresentar?

No Porto vamos apresentar dois programas. Um solo do Faustin Linyekula para o Miguel Ramalho. Ele esteve três semanas em residência artística com ele em Kinsangani. Muito interessante. Vamos também apresentar algo que eu acho que ainda não teve o destaque merecido, o documentário da Cláudia Varejão. O filme é lindíssimo. Muito bem integrado. Ela também esteve no Congo. Aliás, o filme começa com a residência do Miguel no Congo. Está filmado de uma forma muito especial, do nosso ponto de vista, dos bastidores.

E para a estreia?

O programa "Reportório" tem quatro coreógrafos indiscutíveis do século XX. Então, temos duas coreografias muito contrastantes: "Serenade" de Balanchine e "Grosse fuge". Aqui reúnem-se alguns dos coreógrafos que mais marcaram a história da dança. A belíssima e feminina "Serenade" de Balanchine, que contrasta com a energia masculina de "Grosse Fuge" de Anne Teresa De Keersmaeker. O Balanchine adorava as mulheres e tinha sempre coreografias muito femininas. Além disso, tem a música de Tchaikovsky. Em "Grosse Fuge" temos uma energia mais masculina, aliás a única rapariga que entra nesse elenco também entra de fato e gravata. E tem a música de Beethoven. Temos também a estreia de "Herman Sherman" de William Forsythe. E ainda "5 Tangos" de Hans van Manen. Vou contar também com o Quarteto de Cordas de Matosinhos e à Camerata Alma Mater foi entregue a interpretação musical. Finalmente, andava atrás deles desde 2012.

Essa escolha foi completamente livre?

Claro que tenho muitas condicionantes, tenho de olhar para a companhia que tenho e escolher um repertório para essa companhia.

Mas tem a companhia que deseja?

Eu tenho a companhia que desejo, absolutamente. Qualquer diretor artístico tem de ter a sua direção relativa aos bailarinos que tem. Há uma mobilidade que deve acontecer, uma renovação. Temos neste momento pessoas muito jovens de grande talento.

Tiveram muitas inscrições para as audições de 2016?

No dia 26 terminaram as inscrições para as audições. Recebemos em média 500. É muito difícil, temos 2/3 lugares. Segundo as necessidades, masculinas ou femininas, solicitamos para audição entre 100/ 150 pessoas. Não me parece legítimo fazer as pessoas vir a Portugal para uma falsa hipótese. Logo na inscrição eles mandam vídeos e links e aí são eliminados meramente por questões técnicas. O Fernando Duarte, mestre de dança, é quem se encarrega disso. Muitas vezes procura consenso junto dos ensaiadores.

Quanto aos bailarinos mais velhos, como tem conseguido contornar esta questão da reforma?

A companhia continua como estava há uns anos. Há vinte e não sei quantos anos que essa questão deu entrada na Assembleia da República. Não tem solução fácil, mas precisa de ter uma solução. São vidas adiadas para partir para novas vidas e atividades. Um bailarino, quando deixa de dançar, é absolutamente válido. Aos 38 anos está no auge da sua vida. São mitos como esses da Margot Fonteyn que precisam de uma resposta de século XXI. Os bailarinos não são assim tantos. Politicamente é uma questão irrelevante, mas claro a solução não vai agradar nem a um lado nem a outro. Há um meio-termo onde vamos ter de nos encontrar.

Como tem integrado os bailarinos mais velhos?

Fizemos agora a "Bela Adormecida" e claro essas pessoas entram todas e têm dádivas muito interessantes, mas num reportório muito particular. Também fizeram um espetáculo de itinerância nas escolas que tem sido um êxito e contribuem dessa maneira, em centros educativos e pavilhões gimnodesportivos. Também gostava que dessem aulas e workshops, mesmo a crianças com necessidades educativas especiais. Isto é algo que está na calha e que pode seguir em frente.

Como se lida com o fim?

Lidar com o fim depende muito dos interesses que as pessoas tenham noutras atividades. Eu fui professora durante 20 anos e contra mim falo. Nós fazemos com que as pessoas se apaixonem e não vejam mais nada. E é absolutamente fundamental fazer combinação de interesses. Agora já começo a ter bailarinos a fazer cursos superiores e mestrados. As pessoas podem pensar noutras carreiras ao mesmo tempo que são bailarinos. É essencial ter presente o fim. Claro que há alguns bailarinos que têm problemas físicos no fim da carreira, mas a maioria é absolutamente saudável.

Os espetáculos da estreia estão esgotados...

O Tiago Guedes já me disse que para a próxima temos de fazer mais espetáculos. Em julho vamos fazer outra produção para o Rivoli. No próximo ano, nos 40 anos da CNB também gostava de cá estar.

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