Companhia dos Livros

Os sonhos são o antivírus perfeito

Os sonhos são o antivírus perfeito

De regresso à publicação com "O mais belo fim do mundo"; José Eduardo Agualusa reúne crónicas e contos publicados na imprensa portuguesa e brasileira. A preocupação sobre o presente não coloca de lado a esperança e a capacidade de sonhar do autor de "A vida no céu".

Não é muito provável que a realidade filtrada pelos olhos de um escritor seja mais exata ou fidedigna do que a que nos é contada por um historiador ou um cientista, por exemplo. Mas tem, pelo menos, uma vantagem nada despicienda: é infinitamente mais interessante.

Por muito que os factos se teimem em interpor entre essa visão e o designado real, há por norma nos escritores um olhar inaugural sobre as coisas que torna as suas impressões mais estimulantes ou recomendáveis do que as da larga maioria de profissionais com créditos firmados oriundos de outra área qualquer.

Para os que duvidam dessa asserção, o novo livro de José Eduardo Agualusa, "O mais belo fim do Mundo", pode muito bem ajudá-los a transitar para o lado dos crentes (no poder da palavra, pelo menos).

Ao ver reunidos textos de forma e substância diversas que o autor de "O vendedor de passados" foi escrevendo durante os últimos três anos, qualquer leitor menos familiarizado com a sua obra seria tentado a imaginar uma longa e monótona digressão sobre os efeitos da pandemia na esperança dos povos ou a ausência de perspetivas imediatas que ponham cobro à restrição de direitos, liberdades e garantias.

Nada disso encontramos nestes curtos textos. Com a espirituosidade sempre presente e uma capacidade de assombro não menos notória, Agualusa discorre livremente sobre as mudanças por que o planeta tem passado.

E onde a maioria apenas vê obstáculos ou incertezas, o autor angolano procura ver o outro lado. Não apenas para apaziguar quem o lê, já suficientemente traumatizado pela exposição contínua a meios de comunicação que vivem em permanente estado de alerta (aliás, sobressalto), mas porque, para Agualusa, a desesperança é um território inóspito. É o que acontece quando enaltece "o triunfo da ubiquidade" que as videoconferências vieram permitir.

PUB

O tom sonhador e não raro otimista só é abandonado quando Agualusa menciona alguns líderes políticos. Jair Bolsonaro, antes de todos, logo seguido por Donald Trump. Para expor o que considera serem os seus pecados venais, o escritor não se poupa a esforços. E chega a enviar Bolsonaro para o inferno, no sentido literal, onde, até aí, se destaca dos demais e não exatamente pelos melhores motivos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG