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Ostra feliz não faz pérola mas vale novo de Capicua

Ostra feliz não faz pérola mas vale novo de Capicua

Capicua fala como respira. Sobre rap ou sobre o Porto, a maternidade ou o Brasil - fontes de inspiração maiores do mais recente trabalho. A rapper assume, oleada, a condição de MC, para nos guiar, orgulhosa, pela nova casa: "Madrepérola", o seu terceiro disco de originais em nome próprio, chega na sexta-feira às lojas.

Depois de "Sereia Louca" (2014) e de "Medusa" (2015), "Madrepérola" vem como que fechar "uma trilogia aquática não planeada", observa Capicua (cujo nome verdadeiro é Ana Fernandes) ao JN. O trabalho começou em 2017 na ressaca de "Língua Franca", disco que gravou com Valete e os brasileiros Emicida e Rael. Vê-los em estúdio, num modo "muito easy going" de fazer música, estimulou-a. "Este disco é muito inspirado nessa forma descomprometida, mais intuitiva que os brasileiros têm de criar e de escrever em português".

Dois partos

O plano era fazer um disco mais solar, com mais temas, mais dançáveis e muitos convidados (ver caixa). O plano nunca foi abandonado, mas o nascimento teve de esperar, porque outro se meteu pelo meio. A gravidez, em 2018, mexeu com os prazos, mas também com o disco. Animou-o, desfiltrou-o, mudou-lhe a voz nas gravações: "O meu diafragma estava muito subido, estava grávida de oito meses, a minha voz estava diferente", recorda. O título que escolheu para o álbum também evoca a sua nova condição de mãe. "Madrepérola" inspira-se num livro do pensador brasileiro Rubem Alves, que deu a Capicua a "metáfora perfeita" para o seu disco. "A metáfora da ostra que faz pérola porque tem um grão de areia que a incomoda acaba por refletir tudo: o momento da minha vida, o meu ofício, o exercício criativo do disco", reflete. "Ostra feliz não faz pérola", garante Capicua na música.

Sem pedir licença

Dividiu a faixa que dá nome ao álbum com a rapper brasileira Karol Conka, numa letra povoada de referências femininas e feministas, e com a atitude que gosta de empregar nas músicas. "Acho que peguei um bocadinho nessa lógica de afirmação [do rap] e apliquei-a à minha condição de mulher. Pego nesse jeito orgulhoso de estar, como uma forma de mostrar ao Mundo que eu tenho talento, estou orgulhosa de o mostrar e não tenho de pedir licença a ninguém para o fazer".

A atitude serve-a também em "Passiflora", tema em que a rapper critica a lógica de um mercado "cada vez mais voraz a consumir a novidade", a crítica "e a sua sede por carne fresca", até o "conservadorismo da cultura hip hop". "E aproveitem este disco / porque pode ser o último", canta. É um aviso? "Estamos num momento em que fazer discos é um ato de romantismo. É uma reflexão sobre isso. E não sei se vou fazer mais discos, na verdade. Nunca pensei viver da música", afirma a socióloga de formação.

"Circunvalação

"Nascida em Cedofeita, na década de 80", a artista também desenhou "o Porto que não está nos cartões postais" na geografia do disco. Com humor, faz em "Circunvalação" um retrato de uma cidade de gente castiça e territórios díspares, hoje pressionados pela turistificação: "Sem lojas tradicionais, sem locais a habitar as casas, sem a roupa estendida à janela, deixa de ser o Porto, passa a ser um cenário, vazio e oco". v

Capicua apresenta "Madrepérola" em Braga, a 14 de fevereiro, em Aveiro, a 20 de março, e no Teatro Rivoli, no Porto, a 4 de abril. Com 13 faixas, o sucessor do aclamado "Sereia Louca" vai ser tocado na íntegra, "uma coisa que nunca tinha feito antes", explica Capicua ao JN.

Além dos habituais D-One, Virtus, Luís Montenegro e Sérgio Alves, a rapper do Porto será acompanhada por duas "vozes cantadas" que ajudarão a dar sentido a um disco com múltiplas participações: Camané, Lena d"Água, Mallu Magalhães, Emicida, Rael e Karol Conka são só exemplos.

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