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Figueiró dos Vinhos

Palco em Casa leva cultura a casa de idosos isolados

Palco em Casa leva cultura a casa de idosos isolados

Pouco habituada a ser o centro das atenções, Laurinda Rodrigues, 74 anos, assistiu ao primeiro concerto ao vivo, esta terça-feira de manhã, a escassos metros da Ribeira de Alge, nome da localidade onde mora, em Figueiró dos Vinhos.

A pianista, salterista e cantora Yumiko Ishizuka proporcionou uma nova experiência à idosa e aos vizinhos, que ficou registada para a posteridade numa aguarela, desenhada no momento, pela ilustradora Mariana Flores.

Ao longo de cerca de uma hora, Laurinda e os vizinhos assistiram ao espetáculo, integrado no projeto Palco em Casa, promovido pela SAMP - Sociedade Artística e Musical dos Pousos, no âmbito da candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura. A idosa confessa ao JN que ficou surpreendida quando a SAMP lhe foi bater à porta, para lhe dizer que iam atuar para si e por lhe terem dado a oportunidade de escolher os instrumentos.

Parca em palavras, Laurinda garante que gostou e que acha bem este tipo de iniciativas, apesar de ainda estranhar ter sido merecedora desta distinção e também ter tido direito a sentar-se na primeira fila. "Foi a primeira vez que estive num concerto. Uma pessoa está aqui muito isolada", justifica. Em circunstâncias normais, a idosa estaria na horta. "Até poder, não vou ficar em casa. Se não, fico com as pernas presas."

Mãe de três rapazes, um dos quais emigrado em França, e com o sexto neto a caminho, Laurinda gosta de ver notícias na televisão. "Às vezes, não sei o que estão a dizer, mas parece que estou acompanhada", explica. Para reforçar essa sensação, também costuma falar sozinha. Desde que a associação onde se reunia com os oito vizinhos de Ribeira de Alge aos fins de semana fechou, por causa da pandemia, o tempo custa mais a passar.

Dias diferentes

"Nunca houve aqui nada, a não ser agora", confirma Silvina Roda, 82 anos, satisfeita com a oportunidade de assistir ao espetáculo de piano e saltério. "Foi um bocadinho em que estivemos alegres", acrescenta a habitante mais velha de Ribeira de Alge, onde explora uma mercearia e um café, onde servia petiscos antes da pandemia. "Ainda vendo qualquer coisa e vou-me entretendo", conta.

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Adélia Almeida, 66 anos, também nasceu e sempre viveu na pequena aldeia, onde reside com o filho mais novo. Tal como as vizinhas, nunca tinha assistido a um concerto ao vivo. "É um projeto muito bonito e estava tudo muito bem organizado", salienta. "Gostei de tudo." A moradora de Ribeira de Alge só assistiu ao concerto porque está de baixa médica, pois fraturou um braço. Em circunstâncias normais, estaria a trabalhar numa fábrica de Marinha das Ondas, a uma hora e meia de distância.

No final do concerto, Laurinda recebeu uma aguarela onde Mariana Flores, 33 anos, desenhou o local onde decorreu o espetáculo, a pianista e a idosa. Quando o desenho foi mostrado à assistência, um dos vizinhos gracejou: "Arrancou as árvores? Não estão aí." Ao JN, a ilustradora de livros infantis justifica que "o tempo foi pouco para pintar todos os detalhes da paisagem num registo espontâneo". Entusiasta do projeto, onde participou pela primeira vez, considera que "é muito importante ir ter com os idosos e fazê-los sentir que são especiais."

Apesar de não ser fluente a português, Yumiko Ishizuka também estava "muito feliz", por ter atuado no Palco em Casa, tão próximo da audiência. "Consegui unir-me com a natureza", afirma. A pianista atuou numa estrutura semelhante a um pequeno palco e tinha a pauta num tablet. "Espero que as pessoas durmam bem esta noite e tenham bons sonhos."

Combater o isolamento

Aprovado pela Rede Cultura como projeto-piloto, o Palco em Casa tem ido a aldeias isoladas de Figueiró dos Vinhos e de Pedrógão Grande, no norte do distrito de Leiria, onde vivem poucas pessoas. "Os idosos que aqui estiveram hoje já assistiram aos concertos individuais dos vizinhos, pois é a quarta vez que vimos aqui", explica a coordenadora dos projetos SAMP, Raquel Gomes.

Contudo, Raquel Gomes admite que o primeiro contacto que estabelecem com os idosos, para escolherem as atuações, gera algum desconforto, pois não estão habituados a ser o centro das atenções. "Um concerto para mim? Com esta idade? Façam para os mais novos, que eu já não sirvo para nada" são algumas das respostas ouvidas. Mas garante que, depois, acabam por se entusiasmar.

Fado, poesia, dança e música são os pedidos mais comuns, mas também já tiveram de improvisar espetáculos de revista à portuguesa. "Disseram-nos que não se riam tanto há muito tempo", conta a coordenadora de projetos da SAMP, que esclarece que o Palco em Casa pretende contribuir para combater a solidão dos idosos. "Queremos que as pessoas sintam que são importantes", acrescenta.

O ciclo de atuações do projeto Palco em casa termina no dia 14 de maio. A seguir está prevista a realização de arruadas aos fins de semana, com a participação da Banda Filarmónica dos Pousos, de Leiria, e da Banda Filarmónica Pedroguense, de Pedrógão Grande, nos lugares de Ribeira de Alge e de Vale do Rio. "Também vêm as famílias, porque os filhos vêm tocar para estes idosos", adianta Raquel Gomes. A ideia é estabelecer a ligação entre uma família e um idoso, para que possam ir mantendo contacto.

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