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Para grandes males grandes contos

Para grandes males grandes contos

A estreia de Chico Buarque na narrativa curta é um retrato cru do Brasil atual. "Anos de chumbo e outros contos" marca o reencontro com o melhor da produção buarquiana, depois do desapontante romance Essa gente".

Quando Chico Buarque, logo após ter vencido o Prémio Camões, publicou o equívoco "Essa gente", romance falho de inspiração e até de sentido, pensou-se de imediato que o lendário músico e compositor brasileiro seria a mais recente vítima dessa espécie de maldição que se abate sobre os escritores que perdem a mão (apenas no sentido metafórico, felizmente) assim que conquistam o firmamento literário.

Ao lermos a sua mais recente safra, respiramos de alívio: não só Buarque "não perdeu o jeito", como revela até uma improvável ousadia, feito não despiciendo quando se responde por uma carreira tão marcante e a caminho acelerado das seis décadas.

Com "Anos de chumbo", o autor estende aos contos uma criação literária que já recebera a aclamação devida pelas letras, musicais ou romances. E o mínimo que se poderá dizer é que, não obstante tratar-se de uma estreia, há nestas narrativas curtas um evidente domínio das suas especificidades, seja a tensão exata ou a parcimónia devida na descrição da ação ou das suas personagens.

Mas o pormenor mais revelador do talento contístico de Chico Buarque é a sua capacidade de assumir diferentes vozes com um grau de verosimilhança assinalável. Seja a adolescente materialista que se prostitui com o tio sem escrúpulos, o estudante universitário cuja admiração por Clarice Lispector chega a roçar a obsessão ou o jovem que cresce cercado de violência e, em nome da sobrevivência, é forçado a recalcar os traumas provocados pela fuga precoce do pai ou o assassinato do primo às mãos das forças policiais.

Num dos poucos contos do volume em que encontramos elementos humorísticos, intitulado "O passaporte", o autor de "Benjamim" conta as aventuras de uma estrela musical que vê o seu passaporte desaparecer a poucos instantes do embarque e, por via disso, engendra uma vingança mesquinha contra o suposto responsável do ato.

Em todas essas histórias, ainda que sob diferentes formas, subjaz um mal estar indizível, uma doença social e política que alastra, viscosa, e ameaça os próprios fundamentos em que qualquer comunidade ou civilização devia estar erigida.

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Seja ou não um retrato decalcado a partir da era Bolsonaro, o diagnóstico não poderia ser mais perturbador.

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