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Para que a perda não nos subtraia o valor

Para que a perda não nos subtraia o valor

As influentes "Meditações"de Marco Aurélio foram reunidas numa nova edição, com a chancela da Ideias de Ler. Quase dois mil anos depois, os pensamentos de Marco Aurélio mantêm a sua premência.

Há quase dois mil anos, numa Europa em convulsão com a peste, a fome e as infindáveis guerras, uma voz destacava-se das demais. Não por ser a mais tonitruante ou sequer a mais imediata, mas por, no meio do caos reinante, apelar à concórdia e à razão.

Essa voz era a do líder do ainda poderoso Império Romano, Marco Aurélio, que procurava devolver alguma esperança e sensatez num Mundo mergulhado em dor.

Para combater a crise económica na pandemia da época, Marco Aurélio desdobrou-se em atos. Falou com médicos, ouviu os lamentos das suas gentes e procurou impulsionar a atividade económica, baixando impostos ou reduzindo os seus próprios gastos.

Mas, como qualquer bom líder, tratou de cuidar da alma, ao escrever um conjunto de reflexões e pensamentos que procuravam, antes de mais, apelar à capacidade resiliência dos seus súbditos.

Divididas por uma dúzia de livros breves, as suas "Meditações" atravessaram justamente os tempos, continuando a oferecer-nos, num período tristemente parecido com o original, um alento que não pode ser menorizado.

"Em breve, serás apenas cinzas, ossos secos e um nome, talvez nem isso. Um nome não passa de um som vazio e de um eco, e as coisas que tão valorizadas são na vida são vazias, mesquinhas e pútridas", escreve Marco Aurélio no Livro V.

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A brevidade existencial, a convicção de que todas as glórias são vãs e toda a vaidade desnecessária, é um dos fulcros destas máximas. Com a preocupação permanente de ter o direito e a justiça sempre a seu lado, o estoico imperador tudo fez para anular a imagem de excessos vários e hedonismo a toda a prova associados ao seu império.

Se as boas ações do imperador pertencessem apenas ao domínio da teoria, é provável que estas meditações não sobrevivessem aos séculos. Mas, durante o seu consulado de quase duas décadas marcadas por infortúnios permanentes, houve claros esforços de regeneração.

As suas prédicas sobre a valorização da modéstia, da simplicidade e da indiferença não foram a via mais imediata, ou sequer a mais simples, para cair nas graças de um povo ensinado a adorar ídolos de espessura moral frágil.

Todavia, alcançaram um reconhecimento posterior, infinitamente mais duradouro do que qualquer discurso aplaudido por multidões ululantes.

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