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Paredes de Coura: o amor é um tubarão aos pés

Paredes de Coura: o amor é um tubarão aos pés

Segundo dia do festival Vodafone Paredes de Coura foi um exagero de géneros estilísticos. Houve os bons, houve os maus e até houve vilões.

É oficial: os Beach House cristalizaram e parecem uma banda presa em âmbar. É público e foi notório: os Idles deram o melhor concerto do 2.º dia, foi uma coisa desmedida e brutal.

A começar pelo fim: os Viagra Boys, um sexteto de cowpunk de Estocolmo, tocaram terrivelmente tarde (no Primavera Sound Porto de 2019 tocaram terrivelmente cedo) e só acabaram depois das 3 da manhã. Pareciam um bocadinho mais bêbados do que o costume, sobretudo o vocalista Sebastian Murphy. "Wow, que bela multidão", disse ele a mirar o público que enchia o palco pequeno Vodafone FM e transbordava, enquanto cofiava a pança e caminhava de costas excessivamente direitas, como Jardel na sua fase final. "É a nossa segunda vez aqui no Porto, gostamos muito", continuou Murphy, com excesso de confiança, a espalhar-se ao comprido na geografia, "não, praticamente ainda nem bebi", explicou-se e agachou-se, a agarrar na lata da cerveja enquanto continuava a fitar-nos e a destilar deboche. E depois atacou "Troglodyte", antes tocara "I ain"t nice", e depois "Just like you", uma canção toda armadilhada de ironia em que ele dá graças por "nunca se ter extraviado, por nunca ter ido pelo caminho errado, por não ser um perdedor, ou um viciado ou algum tipo de psicopata assim como tu".

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Têm um certo élan teatral, estes desordeiros, são uma nova espécie de vilanagem, são sardónicos, satirizam tudo, do machismo ao sexismo ao cego seguidismo do capitalismo, e as suas canções combinam a paródia com a precisão. Parecem uma piada, são-no de certa forma, uma piada satírica e negra e muito bem esgalhada, mas estão em absoluto controlo do curso e da narrativa da sua comédia. E são tesos, estes vilões. E são bem-vindos sempre que quiserem voltar - mesmo que achem que estão sempre a tocar no Porto.

Coura foi Montreaux

Os Bad Bad Not Good, uma inventiva banda instrumental canadiana de renovação de jazz, entregaram o concerto mais inclassificável do 2.º dia. Eles navegam tudo isto numa amalgama: nu-jazz, alt-jazz, post-bop, psicadélica, improvisação e passam a rasar o hip hop instrumental. Atirados para o horário nobre das 21.15 horas, vieram ocupar o buraco deixado pelos King Gizzard & the Lizard Wizard, que cancelaram a cinco dias do festival, e tocaram imediatamente antes dos Idles e do seu furacão de rock maciço. Nesse contexto, pareceram eruditos - e são-no: omniscientes, doutos, enciclopedistas - e o orgulhoso público melómano como é o de Coura, não se descoseu e limpou o prato, a fazer de conta que podia estar em Montreaux.

Não é que tenha sido um concerto mau, não foi, mas também não foi exatamente bom ou não foi exatamente adequado. Àquela hora pedia-se um prato talvez mais concreto, um prato palpável, menos especulativo, seguramente menos abstrato.

E a surpresa Indigo de Souza

Indigo de Souza, compositora norte-americana da Carolina do Norte (o Souza vem do pai, guitarrista brasileiro de Bossa Nova) tem um excelente segundo álbum, "Any shape you take", de 2021. Tanto é rock sujo como pop caleidoscópica, tem alta fidelidade, e ilumina a voz muito impressiva de Indigo, uma voz táctil que tem apenas 25 anos e uma capacidade imensa de espremer tudo, cada letra, até a última gota de emoção. As suas canções, como é muito notório na "Hold U" ou na "Cry/die", onde ela diz ao seu amor "queer" "preferia morrer a ver-te chorar", são sobre os vários tipos miseráveis e vorazes de amor, amor que alerta para a própria mortalidade. São canções íntimas, parecem ansiosas, são buliçosas, lidam de frente com as deceções e os desafios das relações - tudo isto tendo por baixo um imaculado sentido de melodia.

Ao vivo - é um quarteto: um baixista de macacão, um guitarrista de calção, um baterista rútilo, e ela, muito grácil, de top e saia comprida, os cachos do cabelo a saltitar -, estreou-se em Portugal em Paredes de Coura e saiu coroada. A meio do seu concerto no palco pequeno, o público já chamava pelo nome dela, palmas compassadas, muito animadas, braços no ar, In-di-go-In-di-go-In-di-go - e ela luminosa a sorrir.

"Acho que é a primeira vez em que olho para uma plateia e não vejo só telemóveis no ar" - e o povo, todo inchado, torna a explodir. E ela continua: "É a minha primeira vez aqui. E este é o festival mais bonito onde já estive" - e o povo torna a clamar em coro, mas agora mais alto, e com pontos de exclamação: In-di-go!-In-di-go!-In-di-go!

A enfadada casa da praia

Já arrumados em texto anterior, os punks barcelenses Gator The Alligator foram aos píncaros e surfaram na multidão; no diâmetro oposto caiu a aveirense Mema e a sua folktrónica que sentou toda a gente e não ergueu ninguém - não é desprovida, mas pareceu deslocada e muito só.

Agora, um julgamento estético individual: será heresia dizer que os Beach House, trio etéreo e requintado que redefiniu em oito discos o cânone da "dream pop", são um enfado repetitivo ao vivo? Pois são, de certa forma. Não lhes falta bondade, empenho ou disposição, aquilo é bonito, é, não se negue - a blasfémia também tem limites -, mas aquilo já não surpreende, acima de tudo já não assombra, parece que perdeu ardor, e a banda é agora como uma coisa bonita que só serve para olhar, cristalizada na própria redoma ambarina de onde não parece querer sair. Os discos continuarão a ser vitais, até o novo, "Once, twice, Melody", mas ao vivo não levantam - Chico Buarque, um incrível compositor, um colossal escritor, ao vivo também parece só unidimensional -, e toda a toada parece ficar sempre só plana, a esfuziar melancolia, mas sem assaltos, sobressaltos, surpresas ou nova comoção.

Cada vez mais apegados à penumbra, Victoria Legrand (voz, teclas) e Alex Scally (guitarra) mandaram apagar as luzes não essenciais do recinto, não quiseram fotógrafos no "pit", meteram os ecrãs a preto e branco, supostamente lustroso, mas o seu insulamento era tão brumoso que parecia ser só vapor negro - e as imagens nos ecrãs nada tinham de glamour noir, em dados momentos, parecia só que estávamos a ver radiografias fosquistas e pardas.

A encosta de Coura estava cheia, alegados 20 mil espectadores, ou mais, ainda houve um momento que superou brevemente tudo o resto - a "Space song", uma antiga, em que os espectadores acenderam luzinhas no alto das mãos, foi romântico - mas a turba começou, continuou e acabou quase quieta, só se viram movimentos minimais e corpos a menear, muito, muito levemente, como pudins meditabundos um bocadinho enfastiados.

O superpoder dos Idles

O turbilhão da noite foi rápido, cru, monumental e brutal - e já se adivinhava, tantas eram as t-shirts que circulavam com o nome deles no festival: Idles, ou melhor IDLES.

Não é exatamente punk, este gang de cinco de Bristol, a terra britânica de Banksy, o icónico disruptor, nem são pós-punk, são uma coisa rock "hardcore". E são galvanizantes.

Abriram classicamente com "Colossus", uma canção de um só acorde, lento e prolongado. Aquilo acelera, medra, cresce, é progressivo, amplia-se, excede-se, copos pelo ar, pernas pelo ar, o público da frente num só frémito de "mosh", uma alegria tão viva, tão vertiginosa, descomunal. E logo a seguir vem "Car crash" e logo colada "Mr. Motivator" e a roda-punk continua a expandir, massiva, ciclónica, permanentemente em polvorosa, num auge de fragor. Lá em baixo, lá à frente, era de espantar, o público compactado movia-se às ondas na mesma direção, e depois na direção contrária, dezenas e dezenas de espectadores colados uns nos outros, comandados como um só - é um movimento assombroso só de ver, todos teleguiados ao sabor da banda e a banda parece ter esse superpoder, como a mão invisível de Deus, e nunca deixa ninguém cair ao chão.

"Este é o meu sítio favorito no mundo para tocar", disse o vocalista Joe Talbot logo na primeira vez que falou. "Obrigado pela vossa energia, pelo vosso amor e por olharem por nós". E durante o concerto todo, que durou escassos 65 minutos, ninguém parou nunca de se mexer, era um transe alucinado, houve sempre gente a querer furar, a entrar, a fuçar, a fazer carga de ombros (mas docemente e sempre com carinho), a querer chegar lá à frente, com suadouro dos exaltados, onde radiava aquele clamor.

E o set continuou aos torvelinhos, "Divide and conquer", "The beachland ballroom", que é uma balada seca, só com ossos, mas homérica, "Never fight a man with a perm", uma máquina irrefreável, a espichar feedback por todos os poros - e um dos guitarristas, o que vestia um vestido, atira-se para o púbico, caminha nele, é levado em braços a pairar. "Sentimo-nos seguros e a salvo nos vossos braços, gente bonita", torna Joe Talbot, a exsudar, "o raio do vosso país é tão bonito, vocês são mágicos".

O fim foi epopeico: "Rottweiler", uma canção toda feita de fibras musculares e células nervosas, aceleradíssima no refrão, que repete a palavra rottweiler oito vezes. É uma estranha forma de amor, esta, morde e é "hardcore", é como ter um tubarão aos pés e nunca parar de sorrir.

Depois deste tufão, aconteceram duas coisas: houve um intervalo excessivamente longo de 50 minutos, da meia-noite e dez à 1 da manhã; e depois vieram os Beach House e aconteceu aquela quebra de tensão e de temperatura geral.

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