Crónica

Paris sem cafés não é Paris

Paris sem cafés não é Paris

Uma estadia recente em Paris mostrou-me uma cidade que não conhecia, a Paris
da pandemia. Sem cafés, sem restaurantes, sem cinemas, sem museus. Onde está Paris?

Sem um dos seus maiores ícones, os cafés - e as esplanadas que se sucedem umas às outras e onde se pode beber um café e ler um livro -, Paris não é Paris. Não poder parar de repente para partilhar um café crème com a nossa amada é uma enorme frustração.

Parece que os franceses acordaram um bocado tarde para os riscos da pandemia. Andamos nisto há quase um ano e é seguro que muitos subestimaram os riscos de contágio. Hoje pagam-se os erros do passado. Contudo, não quero escrever sobre política mas sobre sentimentos e sobre uma das minhas cidades de sonho: Paris, a cidade-luz, vive agora numa imensa obscuridade emocional.

Infelizmente, os parisienses também não podem consumar o seu amor pelo cinema. Não há bairro que não tenha várias salas e, ao contrário do que acontece em Portugal, em Paris a tradição é a de fazer fila na rua para comprar bilhete para uma sessão. Agora as ruas estão desertas desses fervorosos cinéfilos que não se importam de aguentar frio, a chuva ou mesmo neve para ver um filme em sala.

Ainda há a Paris romântica do bilhete-postal, a Paris da Torre Eiffel, dos Campos Elísios, do cais do Sena, do Quartier Latin, mas quando começamos a afastar-nos do rio que corta a cidade é outra a cidade que aparece. Como em Belleville, o 19ème, onde sempre me instalo em Paris, um bairro onde se misturam curiosamente as comunidades chinesas e norte-africanas.

Historicamente, os portugueses instalam-se sobretudo nos arredores da cidade, onde chegam para trabalhar nas várias linhas de RER que se entroncam com uma das mais
longas e complexas redes de metro do mundo. Mas aqui, como nos grands boulevards, está quase tudo tristemente fechado.

Nesta visita à capital francesa, os museus em que entrei chamam-se Lidl ou Carrefour, e as salas de cinema que frequentei têm agora outros nomes: Monoprix ou Franprix. Felizmente, há exceções. As livrarias!

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A Shakespeare and Company, a "mais bela pequena livraria do mundo", ali mesmo em
frente de uma Notre Dame em reconstrução, depois de alertar para um possível
encerramento, teve um enorme impulso dos clientes que fizeram encomendas de todo o mundo para a salvar. Como nós, aqui, novamente em Lisboa.

Os seus proprietários estão mais otimistas, o que já é bom. E há a Gibert Joseph. Ah, a Gibert Joseph... Fundada em 1888, com lojas em várias cidades - a mais famosa de todas no parisiense bairro de St. Michel - pesando também sobre si a ameaça de se transformar num hotel (!), é um dos maiores monumentos dedicados a quem tem a paixão da leitura.

No piso da literatura francesa percebe-se que, a par dos croissants e das baguetes, a outra grande invenção da civilização francesa dá pelo nome de livre de poche (livro de bolso).

Ocupando toda a parede do fundo, com os autores dispostos por ordem alfabética,
são milhares e milhares de livros que custam entre seis e sete euros, com a possibilidade de se encontrar ainda, em occasion, livros já lidos mas em bom estado, e a metade do preço. Na secção do teatro podem mesmo encontrar-se peças clássicas a dois euros.

O pior é a área do cinema, a minha grande paixão. Pode ficar-se doente só de ver a quantidade de livros que gostaríamos de ter. Mas também podemos passar horas a folhear livros, a fazer uma lista mental de prioridades para quando o orçamento permitir, ou até, o que acontece quase sempre, perder a cabeça com alguns títulos.

Na Paris de hoje podemos não ter a possibilidade beber um café com a nossa amada, mas pelo menos podemos descortinar-lhe um brilhozinho nos olhos quando lhe
dizemos que aquele livro que ela agora tem na mão, é o nosso cadeau do dia.

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