Lisboa

Pedidos de casamento, inclusão e pastéis de nata: a noite épica de Harry Styles

Pedidos de casamento, inclusão e pastéis de nata: a noite épica de Harry Styles

Há largos meses esgotado, o concerto da Love on Tour em Portugal trouxe mais de 20 temas, numa celebração para público e cantor.

Ambiente efervescente, festivo, ensurdecedor o tempo todo. São muitos os adjetivos possíveis para descrever o que aconteceu na Altice Arena em Lisboa, este domingo, na estreia a solo de Harry Styles em Portugal, mas poucos resumirão o que verdadeiramente se passou. Era um dos concertos mais antecipados dos últimos anos em Portugal, e o ex-One Direction, agora a viver uma fulgurante carreira a solo, fez justiça aos seus créditos.

A antecipação em torno do evento era, importa lembrar, monumental. Esgotado há largos meses, por duas vezes adiado, o espetáculo da Love on Tour criou um movimento de procura de bilhetes quase sem precedentes. Motivados por filhos e filhas adolescentes, pais desesperados passaram as últimas semanas a tentar descobrir as derradeiras entradas - os que não conseguiram ainda se amontoavam à porta da Altice Arena no domingo, à espera de possíveis desistências ou reembolsos mas poucas dezenas terão tido sorte, contava ao JN um segurança no local. Fãs pagaram quase 200 euros por lugares especiais, outros deslocaram-se ao pavilhão desde muito cedo, debaixo de um sol abrasador. Havia bandeiras, cachecóis coloridos, t-shirts, cartazes, declarações.

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Não é porém, notou-se em Lisboa, só de adolescentes que se faz o cada vez maior e mais fiel séquito de Styles. Havia muitos jovens no público, sim, fãs dos One Direction, certo - a absoluta histeria com que foi recebido um dos temas do grupo passado nas colunas antes do concerto o mostrou, se duvidas houvesse. Mas havia muito mais. É todo um fenómeno, que inclui pais rendidos, fãs de vários géneros - depois dos One Direction, nas colunas do intervalo, os Kings of Leon foram recebidos com quase igual histeria, tal como "Bohemian Rhapsody", incrivelmente cantado de uma ponta à outra pela sala lotada, crianças e adolescentes incluídos. A Altice era um mar feito de gente de todas as idades, de casais, de famílias inteiras, de grávidas; de grupos de amigos, novos e recém-criados, de estrangeiros.

Styles, 28 anos de vida, dezenas de recordes e prémios acumulados, entrou 12 minutos atrasado e logo em força; começou com "Music for a Sushi Restaurant", acompanhado por uma banda de cinco elementos, dois dos quais mulheres - uma impressionante baterista e uma baixista/teclista. Todos vestidos de igual, todos de rosa como o cantor. Logo ali, se começou a perceber o fenómeno e a reputação do britânico ao vivo: ao primeiro tema, já parecia valer de alguma forma a ida, tal era a energia, a dança, os cumprimentos, a interação, os beijos e piscares de olho ao público, as corridas, a garra. "Como estão, Lisboa?" perguntava ao segundo "Golden", já a tocar guitarra, num ponto em que se tornava quase difícil ouvir o concerto tal era o volume do público a gritar as letras. "Boa noite Lisboa, o meu nome é Harry e bem vindos ao último concerto da digressão" voltava a dizer depois. "Quero que se divirtam, que dancem. Sintam-se livres para serem aquilo que sempre quiseram ser", frisou, pedindo depois ao público para dar a mão à pessoa ao seu lado; e ainda para dizer "amo-te" às pessoa ao seu lado, instruções ainda que insólitas, prontamente cumpridas.

A sala fazia-se de lugares marcados, mas não sentados: isto porque havia cadeiras para todos, mas poucos as terão usado. Em cada uma, um coração de papel esperava os fãs à chegada, dando o mote da noite e do próximo tema: "Adore You". A interação com o público era permanente e mesmo durante as músicas havia constantes beijos, vénias, agradecimentos, corridas às pontas do palco. Depois de "Daylight" e "Cinema", "Keep Driving", tema do novo "Harry's House" que puxa o lado mais alternativo do músico, antecedeu um momento acústico com "Matilda". Agradecendo novamente aos fãs, cantou-o no corredor central do palco com as duas mulheres da banda, e aproveitando o embalo, no mesmo registo e ainda do novo disco, seguiu com "Boyfriends".

Em "Lights Up", Harry aceita do público e usa um cachecol e bandeira com as cores do arco íris, símbolo LGBTQIA+. Depois, como é seu hábito, dando espaço às manifestações do público, lê os muitos cartazes com pedidos e escolhe um que dizia "Help me Propose"; passa o microfone a um casal português, concretizando-se o pedido de casamento no público, em pleno concerto. Harry brinca e diz que depois de "celebrar uma coisa maravilhosa, este noivado", quer celebrar a sua "segunda coisa favorita em Portugal": com direito a 'drum roll" revela um pastel de nata e diz com acentuado sotaque britânico, a puxar ao humor típico do país, que "estas coisas são incríveis".

Depois do amor, outras das suas causas e apanágios - a tolerância e a bondade - estão no próximo tema que é também um lema de Styles e dos seus seguidores: "Treat People With Kindness". Após uma passagem pelos One Direction com "What Makes You Beautiful" e ainda "Late Night Talking", o artista volta a defender como o público português é incrível, seguindo com "Love of My Life". Atira então um "obrigado Lisboa" como se fosse embora mas não chega a sair de palco e pega na guitarra para um raro "Fine Line", já com algumas fãs a chorar copiosamente - talvez pelo tema em si, a surpresa, a catarse do concerto ou o seu iminente final.

No encore, chega "Sign of the Times", uma música crucial na carreira de Styles: depois do final dos One Direction, a estreia a solo com este single foi uma surpresa para muitos, ao não ser um tema de pop fácil e jovial mas com o seu tempo, mais densa, quase um filho entre a pop, o indie e os anos 70 - como o próprio Styles. A música atraiu a atenção de novos públicos para o despontar da sua carreira a solo e o risco viria a compensar, estando quase a atingir os mil milhões de visualizações no YouTube. Ao vivo, foi um novo momento impressionante, feito de coros ensurdecedores e milhares de luzes.

Ainda no encore, do segundo disco "Fine Line", "Watermelon Sugar" é um dos outros grandes hits recordistas do cantor, em Lisboa recebido em histeria. Seguiu-se um inesperado momento mais calmo, quando Styles chama Ellie Rowsell dos Wolf Alice, banda da primeira parte dos concertos da digressão que terminou em Lisboa e que não se cansara de agradecer e elogiar durante a noite - um grupo indie e com um culto também crescente em Portugal. Com Ellie, interpreta "No Hard Feelings", antes da festa final em modo camaleónico, primeiro com o pop contagiante de "As it Was" e depois novamente com o rock a parecer saído dos anos 70, trejeitos e dança que o levaram já a ser muitas vezes comparado a Mick Jagger (pontapés no ar incluídos), em "Kiwi".

"Ninguém como eu sabe que isto não vale de nada, se vocês não vierem. Vocês mudaram a minha vida e mudam a minha vida constantemente", diz novamente ao público no final, acrescentando: "isto não é suposto acontecer a pessoas como eu, e é só por vossa causa". Na última noite de julho, fora da Altice Arena viveu-se uma noite tropical e pesada, pelo cheiro a fumo de incêndios próximos da capital. Dentro da sala, num calor também abrasivo, mais de 15 mil pessoas de todas as idades, estilos, expressões, gostos, celebraram durante quase duas horas a música, a bondade e a liberdade, mensagens de um artista camaleónico e completo onde a energia, a gratidão e a entrega são inegáveis; e onde todo o tempo de antena e a atenção de milhares de fãs é canalizado para promover o amor e a inclusão. Tudo em Styles é paz, tolerância e gratidão e parece genuíno, começando a perceber-se porque o fenómeno será mesmo alvo de uma cadeira de estudo numa universidade dos EUA. "Foi o melhor verão da minha vida", dizia o cantor a dado ponto, sobre a digressão que terminou no domingo em Lisboa. Foi a melhor noite da vida de muitos dos jovens presentes na sala, garantidamente.

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