Cinema

Pedro Costa: "A sala de montagem era a cozinha de Straub e Huillet"

Pedro Costa: "A sala de montagem era a cozinha de Straub e Huillet"

Realizador português apresentou filmes no Festival Lumière, em Lyon.

Pedro Costa foi o representante português na 13.ª edição do Festival Lumière, que terminou este domingo em Lyon. Em duas sessões de sala cheia, o realizador de "Vitalina Varela" apresentou um programa duplo, composto pela cópia nova de "Sicilia!", que Jean-Marie Straub e Danièle Huillet realizaram em 1999 e que Costa restaurou pessoalmente, numa colaboração com a Cinemateca Portuguesa, e pelo seu documentário "Onde jaz o teu sorriso", onde acompanhou precisamente o casal na fase de montagem desse seu filme e cujo título evoca uma das sequências a cuja montagem assistimos.

"O primeiro filme é uma obra-prima. O outro é o meu. É um filme de uma hora que o Jean-Marie Straub e a Danièlle Huillet fizeram na Sicília", começou por dizer Pedro Costa, explicando depois como surgiu a possibilidade de os filmar durante o trabalho: "São dois realizadores que adoro, desde que adoro o cinema.. Há essa série sobre o cinema, "Cineastas do nosso tempo", que existe desde os anos 60. O princípio é o de um realizador mais jovem fazer um filme sobre um cineasta que admira. A produtora dessa emissão, a Janine Bazin, convidou-me, porque sabia da minha admiração pelo Jean-Marie e pela Danièlle".

A abordagem de Costa não podia ser no entanto a tradicional neste género de documentários, como o próprio explica. "Eu disse que sim um pouco sem saber o que fazer, porque os filmes sobre cineastas são mais ou menos todos a mesma coisa: o cineasta no café a falar, depois há um excerto de um filme, depois ele fala a andar numa floresta. Alguns são bons, mas são assim e eu não queria fazer o mesmo. E sabia que o Jean-Marie e a Danièlle nunca, mas mesmo nunca, aceitariam fazer um filme assim."

Straub e Huillet conheceram-se e viveram juntos desde 1954 até à morte de Danièlle em 2007, aos 70 anos. Jean-Marie tem hoje 88 anos e ainda trabalha, mas os filmes que fizeram juntos constituem um corpo único, de um cinema intransigente, rigoroso e muito pessoal, e que nos ofereceu obras de uma radicalidade que garantem a sua modernidade, como "A pequena crónica de Anna Magdalena Bach", "Da nuvem à resistência" ou "América, relações de classes", além do já mencionado "Sicilia!".

Desconfiados, Straub e Huillet hesitaram em serem filmados. "Sobretudo a Danièlle, porque é muito reservada", recorda Pedro Costa. "Diz mesmo que não quer deixar traços dela. Eles até afirmam que gostariam que queimassem todos os seus filmes. Espero que não."

Pedro Costa detalha então qual o dispositivo que adotou. "Nessa altura estavam a montar este filme, o 'Sicilia!'. Conhecendo-os aos dois um pouco, pensei que essa sala de montagem era como a cozinha deles. E foi isso que lhes propus." E prossegue: "Era um pouco perigoso e irracional, filmar uma montagem. Durante a rodagem não me parece interessante, apesar de haver todo um espetáculo. Mas na montagem não há nada. Cortam e colam. E há duas pessoas que pensam, que encontram, que falham, podia ser mesmo muito aborrecido. Mas preferi fazer isso e reduzi a equipa a mim mesmo e a uma pessoa no som. Disse à Janine que queria estar lá o tempo todo, o mês e meio em que eles iam montar o filme. E foi isso que fiz".

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A sessão dupla, composta por um filme que Costa classifica como "sublime, sublime, não há palavras", e o documentário, que o realizador admite ser "uma modesta tentativa de mostrar como é que se faz um trabalho assim", é uma experiência única, uma aula viva de cinema que se espera possa ser repetida entre nós.

Relativamente ao trabalho de Straub e Huillet durante a montagem, ele geralmente de pé, a pensar alto, ela com a mão na matéria, Costa diz ser "quase como se fosse ficção científica. Hoje em dia toda a gente trabalha com computadores. O que vão ver é uma mesa de montagem, uma moviola, um pequeno ecrã e umas manivelas".

O som é um dos exemplos da forma quase artesanal como Straub e Huillet trabalhavam, eles que quase sempre produziam também os seus próprios filmes. Pedro Costa descreve o método utilizado pelo casal de cineastas. "Hoje em dia, o som nos filmes, o que ouvimos, é feito de 300 pistas, umas sobre as outras. Os pássaros, as vozes, os aviões, depois mistura-se tudo. Fica bonito e é divertido. Mas eles trabalham com uma única banda de imagem, filmada por uma única câmara, e uma única banda de som. O que vão ver é algo que mais ninguém faz hoje."

Costa termina citando um outro cineasta que admira. "O Jean-Marie ainda está vivo, tem 88 anos, a Danièlle faleceu há uma dezena de anos. Ele ainda trabalha, sozinho, mas como vão ver, era um casal incrível. Acho que foram eles que deram essa ideia a Jean-Luc Godard, que era um amigo próximo, que o trabalho é amor e o amor é trabalho. Foi a partir deste casal que ele desenvolveu esta ideia."

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