Entrevista

Pedro Eiras: "A humildade pode ser um terrível caminho para o Inferno"

Pedro Eiras: "A humildade pode ser um terrível caminho para o Inferno"

"Inferno", estreia na poesia de Pedro Eiras, é um lugar de repercussão do poema maior de Dante que reverbera agora.

A idade não é um número. Pedro Eiras tem 45 anos, mais de duas dezenas de livros publicados, deambulações delirantes entre géneros executadas com a mestria de um malabarista, e acaba de aterrar na poesia - quatro décadas antes da data prevista. "Inferno" é um tiro no porta-aviões. "Quem iria meter-se com Dante?!", pergunta o autor, entrevistado pelo JN. "Eu!" Ele, professor, investigador, ensaísta, dramaturgo, leitor compulsivo, poeta. Pedro Eiras é autor do Porto, superlativo e sem gavetas nem medo de falhar. "Temos alternativa?", insiste nas perguntas. "Então, falhemos o menos mal possível!"

Começou a publicar em 2001, tinha vinte e poucos anos. "Antes dos Lagartos" é uma peça de teatro. Em quase 20 anos, escreveu mais de vinte livros em todos os géneros e noutros que inventou. Tinha então já a noção de que podia ser quem quisesse, de que saberia fazer o que quisesse com as palavras?

Sim, de certa maneira, acreditava nisso. E para ser honesto, aquilo que eu queria ser, eu sou. Sou muito afortunado porque posso dizer isto: Sou aquilo que desejei ser. Agora, o que é que estes 20 anos me trazem, ainda assim, de surpreendente? Trazem alguma consciência do mistério das coisas. Se hoje tenho mais domínios técnicos - sei como fazer algumas coisas, às vezes até tenho medo de saber demasiado -, por outro lado, sou mais humilde perante a complexidade das coisas. Fui descobrindo que o mundo é mais plural e encriptado.

Em todo o caso, é um desafio intenso olhar-me ao espelho e ver-me com menos vinte anos. Estou a lembrar-me de uma ou duas fotografias dessa altura e a tentar olhar-me nos olhos. Há muitas coisas que eu não sabia naquele momento. E os textos que escrevi nessa altura - alguns parecem muito envelhecidos, outros nem tanto - são textos que partem de algumas certezas. Essas certezas caíram, em grande parte, e isso é bom. E agora tenho 45 anos. Aos 55 anos e aos 65, espero que caiam ainda mais. Até porque não estou muito interessado nesse monumento das certezas. É muito aborrecido.

"Enfim, a humildade também embriaga", escreve neste "Inferno" com que se estreia na poesia. É uma contradição?

Sem dúvida. Este é um livro para me contradizer. Pode haver a volúpia da humildade e a embriaguez da humildade. Digamos que é um aviso à navegação, sou eu a avisar-me: "Pedro, cuidado, não caias no inferno." E o inferno tem muitos caminhos. A humildade pode ser um terrível caminho para o inferno. Este livro diz isso continuamente. Estou sempre a avisar-me, a lançar-me apelos e avisos e ressalvas.

Há muitos espelhos neste livro, o tempo todo. Falo de espelhos, não são sempre o mesmo espelho. Mas, para todos os efeitos, sou eu ao espelho. Se fosse um texto com 100 personagens, romance-rio, romance-oceano, peça com mil personagens, eu seria as mil. Este livro é sobre mim. Quem está no inferno sou eu. Aquela mulher de que falo, sou eu; aquele idoso, aquela criança, sou eu, também. Estas personagens exteriores são modos também de espelhamento.

Volta recorrentemente aos seus textos. É uma espécie de monitorização?

Volto, mas não para alterar o essencial, à partida. São correções, razões estilísticas. Normalmente, vou cortar mais, tornar tudo mais enxuto.

Mas, depois de publicado, já não pode cortar. Vai validar-se? Chicotear-se?

Vou observar de fora, tentar ver como espectador. Um espectador um bocadinho suspeito, um espetador que sabe algumas coisas manhosas. Vou espreitar para ver o que acontece agora e, muito importante, vou descobrir coisas que estão lá e eu não sabia. Está sempre a acontecer.

Vou contar uma coisa. Não tem nada a ver com o "Inferno" nem com os "Lagartos", mas é das maiores surpresas que já tive perante um texto meu. Aconteceu no "Forte cheiro a maçã" (2003), já lá vai bastante tempo.

O livro tem 13 personagens, todas com nomes bíblicos. 13 já é uma referência à Última Ceia. Seja como for, os nomes são todos bíblicos, mas estão todos mal. Não são Jesus mais os doze. Todos os nomes estão trocados, errados. Ao escolher esses nomes, eu sabia por que razão eram aqueles, por que razão estavam certos estando errados e vice-versa.

Uma das 13 personagens chama-se Verónica. E eu sabia por que razão se chamava Verónica. O tempo passou, o texto foi publicado, traduzido, apresentado. Enfim, aconteceram montes de coisas bonitas. E continuam a acontecer, ainda recentemente. E um dia volto a ler o texto, depois de já o ter lido e visto e ouvido e lido noutras línguas, etc. Volto a ler o texto e olho para Verónica. Ela é, por excelência, a personagem erótica da peça. Há ali conflitos eróticos por todo o lado. Aquela é uma personagem eroticamente muito forte, muito marcante.

E olho para o nome dela e reparo nisto: VERONICA. Vogais: EOIA. Ou seja, erótica. Das duas, uma: ou tenho uma enorme imaginação, desenfreada, sou teórico da conspiração (risos); ou, segunda hipótese, o que é que eu me estou a dizer a mim próprio, cripticamente, quando escolho um nome?

Essa busca, essa sua análise incessante, também existe durante o seu processo de escrita...

Sim, andar à procura de certas vogais por causa de um som ou de uma cor. Sim, faço isso o tempo todo. É uma danação! O número de sílabas, o número de consoantes, eu sei lá, as cores associadas às letras, trabalho isso tudo. É absurdo! Ninguém no mundo vai reparar. Nada disto faz sentido ou comunica um sentido, mas não posso escapar. Estou sempre a fazer estes trabalhos loucos de procura. A partir daí, tudo pode acontecer. É um trabalho insano, quase de relojoaria, mas que me diverte. Género auto-tortura. De repente, um dia, leio o livro e não era nada daquilo. Está lá outra coisa.

Mais tortura ou mais prazer?

Está misturado, há uma tortura do prazer e um prazer da tortura. Vou assumir aqui um masoquismo muito bizarro: sim, dá-me prazer torturar-me com este género de exigências loucas, delirantes.

Dou outro exemplo, outro texto meu, um romance, "A Cura" (2013). É um livro muito divertido, um bocado malvado. Tem um prólogo, um epílogo e 13 capítulos - outra vez o 13, há razões para isso. Os 13 capítulos do meio, que são a grande parte do livro, são 13 consultas de psicanálise - não só mas também.

Cada um desses capítulos abre com uma epígrafe de Freud e mais uma que não é de Freud. Essas epígrafes todas acompanham a obra de Freud de forma cronológica, uma de cada livro. E cada epígrafe tem inteiramente a ver com o conteúdo do capítulo. E, de repente, eu tinha a regra do número (13+1+1, donde 15); tinha a regra da cronologia de Freud (não podia trocar a ordem dos livros); tinha a regra de cada epígrafe ter a ver com o conteúdo do capítulo e vice-versa. E, de repente, já não sei se é Freud que me está a obrigar a ler o capítulo, ou se é o capítulo que foi encontrar o Freud correspondente. E isto é a ponta do iceberg. Porque, a partir daqui, que é só uma espécie de exoesqueleto, há as dinâmicas internas e leis loucas de provocação interna, o motor dos capítulos e das personagens e dos temas e dos leitmotov que vão voltando...

Cada livro tem um exoesqueleto?

Não. Mas esse tem, sim. Inevitavelmente. E é barroco. Tenho isso algures, não faço a mais pequena ideia onde. Tenho as várias folhas com toda a relojoaria aparente e latente e escondida e secreta.

Além do prazer da tortura, tem também o prazer recorrente de começar do zero. Agora, na poesia.

Sim, é um bom sítio. Partir do zero é um bom lugar. Posso descobrir uma fórmula e passar o resto da vida a fazer igual, e ter sempre o mesmo público a gostar sempre da mesma coisa, da mesma maneira e sempre pela mesma razão. Não! Prefiro falhar o público, prefiro desiludir o público. É muito melhor desiludir o público de uma nova maneira do que conquistar o público que já estava conquistado da mesma maneira. É muito fácil ter sucesso, como nós todos sabemos. É possível fazer filmes a metro. Hollywood sabe muito bem. Detesto a facilidade. Chateia-me.

Detesta a facilidade e adora falhar. Também faz parte do prazer da tortura?

Falhar é um verbo fundamental, para mim. Faz parte da minha liberdade e da minha responsabilidade. Se eu não falhar, não farei nada. É muito fácil não falhar, é não fazer nada. Mesmo assim, é falhar. Por isso, se vamos falhar, se estamos condenados a isso, então tentemos falhar o melhor possível. Beckett: Falhar, falhar outra vez, falhar melhor. Se nós vamos falhar, tentemos falhar o menos mal possível. Falhar melhor, já seria muito otimista. (Risos) Dizer que o Beckett é otimista soa mesmo estranho (risos), mas nem consigo dizer falhar melhor. Isso é pôr a fasquia muito alta. Falhar o menos mal possível. Escrevi um livro sobre Bach. Como é que se escreve sobre Bach? Não escreve.

Ainda por cima, adora Bach.

Incondicionalmente. Ando a ler Emil Cioran, por causa de uma coisa que estou a escrever. Cioran não é de todo um dos meus autores, nem um pouco. Mas, por razões estratégicas, estou a precisar dele. E o Cioran é aquele pessimista desgraçado, há ali muita coisa para debater, mas ele tem isto: no meio daquele ataque a tudo, ao ser e ao não ser, ele fala de Bach. E Bach, para ele, é a única excepção. É a única coisa que resgata a humanidade. É a única razão para estar vivo. Não sei se quero ir tão longe e dizer que é a única, é muito radical, mas se não é a única é das poucos.

A música de Bach é algo de muito excepcional neste universo. E estou a pesar as minhas palavras. Há um filmeco, que não presta - não vou falar de Tarkovsky, nem de Bergman, nem de Buñuel - que se chama "O Dia em que a Terra parou". É um filme dos anos 50, tem um remake nos anos 2000, com o Keanu Reeves como extraterrestre. História: Os extraterrestres vão destruir o planeta Terra e enviam o Keanu Reeves, que é um ET, para para preparar a destruição.

No meio de uma quantidade de cenas de ação, ele acaba por visitar um amigo da protagonista, que é um velho professor de Matemática. Há um quadro de giz com uma equação e ele simpaticamente acrescenta um número que resolve o teorema inexplicável para a humanidade. Mas, antes disso, há um CD a tocar Bach, as Variações Goldberg. E aquele ET, que vem de uma civilização mais avançada, fica perturbado e pergunta: "o que é isto que estamos a ouvir?" E a protagonista responde: Bach. E ele diz, de forma contida: "Belo".

Naquele momento, nós percebemos que a razão para a humanidade existir pode ser as Variações Goldberg. A comparar com isso e com o Bach todo, quem sou eu? E o que fazer com isso, e com palavras em torno disso? Volto atrás, falhar. Falhar Bach, falhar a escrita, falhar o pensamento, falhar tudo. Mas será que tenho alguma alternativa? Posso não falhar? O que é que eu vou fazer da minha vida se não for falhar?

Este "Inferno" remete logo para Dante. Ao mesmo tempo, tudo aquilo faz sentido agora, parece estar a acontecer agora. Mas sabemos que acompanha "A divina comédia", e isso atira-nos para Itália do século XIV. O livro só pode ser lido à luz da trilogia?

É muito curioso dizer isso. É a primeira vez que me dizem isso. Este livro ainda é bastante recente também, ainda estou a receber feedback, muito simpático aliás, mas é um livro que ainda estou a aprender a conhecer através de quem o lê. E isso é novo para mim.

Dante é um desbloqueador e o é o grande obstáculo. Quem é que se vai meter com Dante? Não se faz! Eu! (Risos) Então, é quando não se faz que se deve fazer. Porque para se fazer o que se pode fazer, já chega. Há livros a mais no mundo. Tem muito mais graça fazer o proibido. Portar-me mal. Portar-me mal por escrito. A partir daí, Dante abre-me portas mas depois eu fecho outra vez a divina comédia. Tento aproveitar o melhor dos dois mundos: o mundo de Dante até um ponto, e o mundo sem Dante a partir daí. E trair Dante e esquecer Dante.

A minha tese doutoramento, quando a publiquei, tinha um título tremendamente académico, mas quando a publiquei chamou-se "Esquecer Fausto" (2006). Gosto desta ideia de esquecer Fausto, esquecer Dante, esquecer Shakespeare e Homero e Kafka. É um esquecer terrível, porque é um esquecer que continuamente os convoca, claro! O tempo todo! É uma obsessão. Para esquecer bem, temos de estar obcecados por. E para estarmos obcecados temos de saber esquecer e lutar contra.

Então, é isso, pisar no caminho aberto por Dante, por Dante-trilogia, por Dante-Inferno, Purgatório, Paraíso, e outras relações. E depois, ao mesmo tempo, ser malcriado. Ser malcriado com Freud, ser mal criado com Dante, usar e roubar e abusar despudoradamente de todos eles, com maldade e com barbárie. E depois encontrar essa solução estranhíssima, em que já não é deles, já não é meu.

De novo, daqui a um ano ou dois, lerei o texto e vou encontrar gente que está aí e eu não sei. Há muitos roubos. Na verdade, se calhar, há autores que estão mais roubados do que o próprio Dante. Lá vou eu para o exoesqueleto: por dentro, há tantos roubos e vozes, gente a falar aí dentro.

É outra coisa que adoro fazer, sabe? Outro livro meu, "Bach" (2014). Em "Bach" há capítulos inteiros em que dezenas de frases são de outra pessoa. Exemplo: monólogo de Etty Hillesum a caminho de Auschwitz, no vagão. Quantas daquelas frases são das cartas ou dos diários dela? Roubado, não tem aspas, não tem nota de rodapé. Mau era! Em pleno romance, se é que aquilo é um romance, mau era se eu desatasse a fazer notas de rodapé académicas. No fim, faço uma lista de livros.

Depois, o leitor que faça o que quiser com aquilo. Pode ler, pode ignorar, não importa. O único lugar em que remeto para as fontes - e mesmo aí não está completo, porque seria esmagador -, fontes fundamentais que roubei tantas vezes, está ali. E será que devia ter remorso disto? Acho que não. Acho muito bonita esta ideia de um escrito ser um lugar de repercussão.

Talvez possamos substituir o verbo roubar...

É um verbo perigoso. Penso um bocadinho em T.S. Eliot, que diz que os bons poetas, passe a presunção, roubam. Ele sabe que é um verbo agressivo. Logo quem, não é?, um homem lúcido como Eliot. Porquê escolher um verbo errado? E porquê tornar certo o errado? Então, escolho o verbo errado também.

E como é bonito isto de vozes mortas voltarem a falar! É preciso atrevimento para decidirmos colocar as palavras dos outros na nossa própria boca, claro! Ao mesmo tempo, é o único resgate possível. Etty Hillesum morreu a seguir. Aquelas páginas, são as páginas que ela escreveu nos últimos dois ou três anos da vida dela. Não era para publicar. São cartas privadas, é um diário íntimo, não é uma obra "literária". Ela escreve aquilo porque tem que ser. Porque precisa. E depois entra num vagão (obviamente, ela não escreve nada no vagão, sou eu que desloco os textos da véspera para o transporte), sai do vagão, em Auschwitz, e é morta.

Estamos a entrar numa zona muito densa, que revisito vezes sem conta, e que vou revisitar o resto da vida. Claro que é um abuso da minha parte pegar em palavras dela - Logo ela! Logo aquelas palavras! - e torná-las minhas, dentro de um texto que é meu, correndo riscos de toda a ordem - desrespeito, inexatidão, estar a dizer o que ela não quereria que dissesse, sei eu lá. Mas não podemos não fazer isto. Temos a obrigação e a urgência de fazer isto.

Voltemos ao "Inferno" e a um livro de 2007. Em "A lenta volúpia de cair" diz que se exige demasiado da poesia. Se assim é, de onde vem esse terror de a publicar antes dos 80 anos?

Esse texto, tão antigo, é o texto de um leitor, de um professor, de um investigador, de um académico, de um ensaísta, não de um poeta. Porque eu não era um poeta. Ainda não sei se sou, também não sei se gosto de verbo ser, não sei nada.

Mas, de um ponto de vista teórico, eu podia defender ali determinadas intuições - não sei até que ponto são realmente certezas mas são intuições defendidas com uma certa vontade, um certo afinco. Agora, podemos estar mais ou menos à vontade a teorizar sobre poesia e ter terror de escrever poesia, porque são pessoas diferentes dentro da mesma pessoa. E eu tinha um terror - e ainda tenho mas descobri uma maneira de lidar com ele -, um terror em relação a escrever poesia, que não era um terror em relação a dar aulas sobre poesia, a escrever sobre poetas ou até interrogar o que é a poesia, o que é ser a poesia, e por que razão dizemos ser. Portanto, podia estar à vontade num campo e apavorado noutro. Nesse livro disse uma coisa que continuo a dizer: não há singular. Não é "a" poesia,. Porque quando dizemos "a" poesia, estamos a dizer: isto é poesia mas isto e isto não é.

E o Pedro é contra as fronteiras.

Sou contra esses singulares. É o tal "eu" que na verdade é "nós". Se eu próprio não sou apenas um mas muitos, cada um de nós é nós, é muitos. Então, não acredito no singular nem na fronteira fechada. A poesia também é porosa. Muitas vezes, os debates violentos, alguns bem tristonhos, que há sobre poesia, têm a ver com isto: pessoas que dizem: a poesia é X; chega alguém e diz: é Y. Pode ser isso tudo, não tem de ser apenas um desses caminhos. Quando escrevo o "Inferno" não quer dizer que descobri a poesia, se calhar descobri uma poesia. Se calhar, nem isso. Se calhar, apenas descobri poemas.

Em certo sentido, o "Inferno" aconteceu-lhe, não foi uma decisão.


Não. Era uma vontade. Em adolescente, escrevi uma data de textos poéticos horríveis, muito, muito maus. Felizmente, parei, tentei de novo, falhei. Nunca me reconheci naquilo que estava a fazer. Ainda tenho todas as dúvidas do mundo em relação a este livro. Como sempre, como perante os meus livros todos. Mas, neste momento, senti confiança que chegasse para publicar estes poemas. Neste momento, sinto-me muito contente com o que aconteceu. Sinto-me surpreendido. E se foi algo que me aconteceu, não é no sentido indesejado. Aconteceu-me, querendo eu. Espero que o meu querer tenha ajudado a propiciar o acontecer.

O "Inferno" faz sentido de forma autónoma, ou seja, lê-lo sem saber quem é Dante ou a Divina Comédia?

Perde sempre, como qualquer livro perde quando tem pequenas pistas, mais escondidas ou menos, e calha nós não as reconhecermos. Mas isso é a lei da literatura. O início da Eneida só faz sentido se lermos as epopeias homéricas; o início Lusíadas só fazem sentido pleno se lermos o início da Eneida; a Mensagem do Pessoa, que é um livro de que não gosto, só faz realmente sentido se nós soubermos que Camões está a ser esquecido ali. Herberto Helder só faz sentido se percebermos que ele está em luta contra Fernando Pessoa. O Som e a Fúria, do Faulkner, só faz sentido se soubermos que é uma citação de Shakespeare. Isto sem sair de títulos.

E aqui também, este título não é meu. "Inferno" é um título de Dante. Não há aí nenhuma página que não tenha um piscar de olho a alguém, a um texto algures, o tempo todo, são vozes que falam o tempo todo, e eu não sei fazer de outra maneira, e também não quero. O tal roubo. Muitas e muitas aspas e itálicos e notas de rodapé. Estou sempre a repercutir o que li. Outro livro meu: Aquele ensaio grande que se chama [...] sinal de supressão, subtítulo: "Ensaio sobre os mestres". Na verdade, o título não é ensaio sobre os mestres, o título é ilegível. São 500 páginas de citações, somente. As citações estão costuradas de tal maneira que é como se aquele livro fosse uma única longa frase que vai contando uma história. Sou eu a escrever sem usar palavras minhas. Levou 12 anos a fazer, deu muito trabalho.

Doze anos podem não ser muito para quem acha que "esperar não é uma extravagância".

Nada, de todo. Às tantas, esperar a vida toda. Não sou um estoico ou insensível, tenho momento de impaciência, de vontade de precipitar as coisas, o que às vezes pode estragar os projetos. É preciso ter as coisas no tempo certo, e nunca sabemos se o tempo é certo a não ser quando fazemos - e depois logo se vê.

[...] é sobre quê?

Tem a ver com os mestres, o que é ser mestre, o que é ser discípulo, como é que se encontra um mestre, como é que se fica fascinado pelo mestre, como é que se trai o mestre, como é que o mestre morre, o que é sobreviver ao mestre. Isto faz um enorme arco de 500 páginas, 2500 citações. É um tijolo, um recreio trabalhoso, um recreio dentro da biblioteca, uma biblioteca dentro do recreio. 500 páginas que costuram uma espécie de pensamento, elo a elo, o tempo todo, com contradições, com conflitos, às vezes com confirmações, às vezes com saltos um pouco mais exóticos, mas, para mim, aquilo faz um grande sentido.

Tenho recebido respostas de leitores que confirmam isso. Isso é a prova dos nove. Se alguém fora de mim consegue olhar para lá e ler uma lógica, isso é bom. Isso aconteceu e estou muito contente com isso.

Já o "Inferno" é um catálogo de condenações. Fale-me delas.

Falo do gesto de condenar. Catálogo significa que alguém catalogou. Sou eu. Sou eu que estou a catalogar. Sou eu que tomo a iniciativa, sou eu que digo: "tu estás condenado". Isto é violento. Mas lá está, não é a a primeira vez. Deus amaldiçoou os filhos dos filhos destes homens. Isto é violento, também. Aqui sou eu que estou um bocadinho como guarda livros à porta do inferno a dizer: "Olha, entra." É um gesto muito estranho. Estranho para mim. Estou genuinamente espantado com isto.

Mas quem é que me autorizou a ter este papel de guardião das portas do inferno? Como é que ouso ter este catálogo de retratos morais? E, de resto, o que é isto de moralizar? O que é isto de julgar? Porque eu sou um juiz do inferno. Eu estou a ajudar os outros e a mim próprio. E se há espelho, então eu sou o juiz de mim mesmo, e o réu e o advogado de acusação e de defesa e a testemunha. E a pessoa que estava só a passar. E Deus e o diabo. E a ausência de deus e a ausência do diabo. Tudo! Então é um catálogo que me engole a mim também, que me suga. Seja como for, fui eu, está aí o livro assinado por mim.

Isso significa que olha para a literatura como um território em que tudo é possível, recreio, experimentação, terra de ninguém, ajuste de contas com verdades perpetuadas...

São várias possibilidades, está a abrir um leque amplo. Mas começo, instintivamente, por resistir à ideia de recreio. Porque pode parecer uma palavra menor.

Outro exemplo, outro texto meu, "Um punhado de Terra" (2009). Teatro, é um monólogo, uma personagem. Um homem, negro, século incerto. É um escravo. Ele conta a sua história. E explica como vivia num lugar que não tem nome, não precisa de ter nome, com a sua família. Chegaram uns homens doentiamente brancos, mataram a mulher e alguns dos filhos e raptaram-no a ele e a um filho, meteram-nos dentro de uma grande besta de madeira que anda por cima das águas, eles estiveram dentro da barriga dessa besta de madeira durante semanas ou meses. Desembaraçaram num lugar que nunca tinham visto. De repente, ele ouve como se chama esse lugar. Chama-se Lagos. E pertence a um sítio chamado Portugal.

E aí ele é vendido e o seu filho também. Ele nunca mais verá o seu filho. E depois ele trabalha e é torturado. Quando tenta fugir, cortam-lhe um tendão do calcanhar, para não poder fugir mais. A partir daí, ele coxeará o resto da vida. E, finalmente, ele termina este monólogo com dois últimos momentos: um, ele afirma ao seu deus, a quem ele se dirige desde o início, que se vai matar, comendo terra. Vai comer terra até morrer. E ele diz que é muito triste morrer a comer terra que não é a nossa terra. Isto é o que ele diz ao Deus.

E o que ele pede ao Deus é que ele amaldiçoe aqueles homens brancos, e os filhos daqueles homens brancos, e os filhos dos filhos dos filhos desses homens brancos. Que eles sejam, malditos. Pedida esta maldição ao Deus, o homem baixa-se e começa a comer terra, e a luz baixa e a peça termina.

Estás a ver por que razão de repente recreio me parece tão distante, não é?

Olho para este livro, a peça estreou em Cabo Verde, pela Teatro Art"Imagem - e que lugar espantoso para esta peça estrear! O texto circulou muito, foi muito bonito vê-lo a respirar durante tantos anos. Quando estreou no Porto, e o Flávio Hamilton, ator, negro, na boca de cena do palco, virado de frente para a plateia, dirigindo-se a um deus dele, mas olhando para nós, público, público branco, 100% branco, pede que todos nós sejamos amaldiçoados, porque somos nós os filhos dos filhos dos filhos dos escravocratas, senti que está cumprido. Eu precisava de fazer isto, eu precisava de dirigir esta maldição. E está amaldiçoado.

O poder das palavras...

Sim, eu vivo com as palavras, já se percebeu, Vivo com palavras entre palavras, obcecado por palavras o tempo todo, dou aulas sobre palavras, é contínuo. Então, tenho muito a consciência do que é isto de dar a bênção - esse gesto mágico, hoje em dia isto não significa nada, soa anacrónico, mas é fortíssimo. Dar a bênção. E também dar a maldição. Amaldiçoar.

Nós vivemos num mundo que passa a vida a dizer que "letras são tretas". Frase horrorosa. Nem rima direito. Não são nada! Isso é que é uma treta. E achamos que só nos magoamos quando alguém nos dispara uma bala ou nos espeta uma faca. Tretas! Magoamo-nos de outras maneiras terríveis, o tempo todo. As palavras magoam tanto como uma faca, uma lâmina.

Mas por mais que eu queira defender aqui o poder das palavras, também assumo imediatamente que nenhuma palavra vai ressuscitar um escravo que foi torturado até à morte. Nenhum capítulo de um livro meu vai salvar a Etty Hillesum, nenhum livro vai abrir as portas do vagão que vai para Auschwitz. Não mesmo.

Mas...

Mas há outros Auschwitz hoje, primeiro. Não podemos impedir o Auschwitz do passado, mas podemos travar os Auschwitz do presente. Isto não tem nada a ver com livros, nem obrigatoriamente com palavras. Pode-se agir. Com livros, sem livros. Por outro lado, não podendo mudar o Auschwitz do passado, o livro pode descrever hoje o Auschwitz de ontem. Isto é uma ideia muito benjaminiana. Benjamin diz uma frase incrível, que me vai perseguir até ao último dia, que é: com a vitória dos fascistas, com a vitória dos nazis, nem os mortos estão em segurança.

Tal como eu leio a frase, ela significa que o morto teoricamente já terminou, ele está catalogado no passado na História, a sua narrativa está fechada. Errado. Segundo Benjamin, nós continuamos a descrever os mortos. E se um historiador nazi descrever os mortos, está a matá-los pela segunda vez. Então, o trabalho da escrita hoje não é ressuscitar o morto, não podemos, mas é escrevê-lo. E não é pouco. É um dever e é uma urgência. É uma enorme responsabilidade voltar a olhar para a História.

Posso dar este exemplo muito concreto, estamos a falar muitíssimo de colonialismo e pós-colonialismo. De todas as maneiras, e eu não subscrevo todas. Mas fundamentalmente considero que é preciso voltar a olhar para a história dos chamados Descobrimentos. Estamos a redescrever os mortos sim, os colonos e os colonizados. E estamos a fazer isso com palavras nossas, de agora, de hoje. Podemos reler a Odisseia e a Ilíada três mil anos depois, conta redonda, e voltar a olhar para aquele Ulisses que em rigor pilha e viola e mata e rouba. Ele é descrito por Homero como "Ulisses, o saqueador de cidades". Isto é um elogio, até ver.

Acho muito importante olhar para trás e ver os saqueadores de cidades, que se chamem Ulisses, ou Colombo, ou Pedro Álvares Cabral, etc. É preciso voltar a olhar para estes mortos. Bom, na verdade, é preciso voltar a olhar para os que foram assassinados, torturados, escravizados, violados. Esses, muitos deles, não escreviam. O que disseram, perdeu-se. O que não escreveram, não escreveram. Só nós podemos fazer alguma coisa com isso. Mais ninguém.

Regressemos ao "Inferno". Como é que consegue mostrar toda aquela floresta e noite escura de Dante num livro tão pequeno?

Não estou a escrever uma tese sobre Dante. É suposto, num doutoramento, uma pessoa dar conta sobre o estado da arte, correr toda a bibliografia passiva, estar a par de todas as teses, teorias, etc. E, em teoria, saber tudo sobre a divina comédia e ainda acrescentar qualquer coisa sobre o assunto que ninguém sabia. Não é uma tese, de todo. Faço o que quero. Entro na Divina Comédia, saio, esqueço a qualquer momento, escrevo mil páginas, escrever cinco páginas, escrevo 20 volumes, escrevo três linhas. É um texto muito grande e muito pequeno ao mesmo tempo.

Para lutar contra o gigante Dante, precisávamos de mil páginas, cinco mil páginas, e eu escrevi apenas 115. Por outro lado, romances com com cento e poucas páginas são considerados romances pequenos, mas um livro de poesia com este número de páginas é considerado grande. O "Inferno" contra Dante, é pequeno. Como tese, seria minúsculo. Como primeiro livro, é um escândalo. Digamos que foi o tamanho que me pareceu certo e justo. Não é um livro pequeno, não é um livro esmagador. É uma travessia, é uma poesia possível. Não é a poesia.

Sempre olhei para o Pedro como ensaísta, apesar de o ter conhecido pelo teatro. Hoje olho para si como uma espécie de caleidoscópio. Não estou errada, por não?

Não. Há aqui um ensaísta, mas há um dramaturgo nos poemas, há um ensaísta no teatro. Tenho uma peça de que gosto muito, daqueles textos que resistem bem. É um texto que teve muita circulação lá fora. Chama-se "Uma Carta a Cassandra", dois monólogos. No primeiro, temos um jovem soldado que fala do seu processo de degenerescência e enlouquecimento. Ele vai a caminho da loucura, e percebemos que há alguma coisa que ele não quer dizer. Segundo monólogo, do mesmo tamanho: a namorada, que ficou em casa, recebe uma carta que ele lhe enviou. Ela lê a carta e, a partir daí, limita-se a analisar a carta. Durante longos minutos, palavra a palavra, letra a letra, ela começa a ler o que está, mas também o que não está lá e ninguém sabia que estava lá. Ela começa a encontrar aquilo que ele disse não dizendo. Isto é muito espantoso. É muito assustador, é terrível, e é ensaísmo de certa maneira.

As minhas aulas, quando correm bem, podem ser uma peça de teatro. As aulas que dou sobre Camilo Pessanha, por exemplo. Ou sobre Mário de Sá-Carneiro. Tem algo de encenação teatral. Às vezes, sei exatamente o que vai acontecer dali a cinco minutos.

Tipo, se vai perder os alunos?

Ou se lhes vou puxar o tapete. Exatamente como o ator no palco, perante um público bom. A última aula que dou todos os anos sobre Mário de Sá-Carneiro, sobre a Confissão de Lúcio, é exatamente assim. Sei o que vai acontecer. Porque, de repente, veem coisas que estão lá e que eles não tinham visto.

O que faz um ator? Um ensaísta? Para mim, o ensaísta é também um mágico. Passo a vida a ficar fascinado com os ensaios do Luís Mourão, que foi um grande amigo que morreu há um ano, um dos maiores ensaístas portugueses. O que é que ele faz? Parece que está a brincar connosco. Diz uma coisa, diz outra, depois volta a primeira, será mesmo assim? É puro pensamento. Um grande leitor, um gigantesco leitor. A personagem do meu monólogo, essa Vera, está a tentar ler aquela carta como Luís Mourão lia um ensaio, como eu tento ler um poema de Sá-Carneiro. É grande, é abissal.

Não é quantas metáforas existem neste poema, qual é o esquema rimático Dá-me um enjoo insanável a ideia de andar para aí a catar esquemas rimáticos! Não tenho nada contra as rimas, eu brinco com as rimas à minha maneira, rimas calculadamente imperfeitas Mas não é rimar por rimar, rimar porque é bonito. Uma rima tem que revelar o segredo das coisas, menos do que isso não vale a pena. Eu sei que isto soa muito ambicioso, mas é mesmo assim, isto é mesmo ambicioso.

Os livros são experiências radicais. Não sei quem uma vez foi entrevistado, uma questionário pré-feito, e respondeu: "não vou ler nada, porque prefiro ir viver. Se posso ir viver as coisas porque é que hei de ficar a ler sobre elas?" Isto, para mim, é absolutamente escandaloso. Como é óbvio, não vou dizer nada contra o viver as coisas, acho excelente. Mas ler e escrever e pensar é tão forte, se calhar mais do que qualquer vivência. Aliás, ler é uma vivência. Escrever é uma vivência. Como assim em vez de ler vou viver? Ler é viver intensamente, é carrossel, é montanha russa! Há livros que são como cair de paraquedas. Ler Kafka é atirar-me de um penhasco em bungee jumping e não saber se a corda está a funcionar.

Então, quando, no "Inferno", alguém pergunta: "Uma boa vida ou um bom verso?", não saberia responder.

O eu do poema hesita, o eu do poema não sabe. Essa voz hesitante, essa voz danada, não sabe.

O purgatório e o paraíso desta trilogia poética já estão prontos?

Os autores, pelo menos eu, somos uns impacientes desgraçados. Claro que que há uma vontade de ter a trilogia completa. É um bocadinho aquele efeito de quem quer ver a temporadas todas de uma série. Há essa impaciência, esse apetite, essa gula. Mas há também a aprendizagem da lentidão, da paciência, de ter passado 20 anos a tentar escrever o "Bach" e depois ter compreendido que 20 anos não foi muito tempo de espera.

Ao contrário, este livro de poesia surge 40 anos antes da data prevista. Deu um salto mental?

Dei. Ultrapassei, fui por um atalho, não sei explicar. A metáfora do Dante é muito frutífera. O que nós sabemos é que um certo sujeito um dia perde-se numa floresta e, não sabe muito bem como, eis que está de braço dado com nem mais nem menos que Virgílio, nem mais nem menos do que no Além. Isto é notável.

Vamos imaginar que alguém quer fazer essa viagem. Onde é essa floresta? Essa floresta tenebrosa? Onde está no mapa? Não há mapa. Como se chama por Virgílio? Não sabemos, não há fórmula, Então, Dante não tem propriamente mérito nem culpa perante essa revelação. Ele é arrebatado espiritualmente. Ele não pediu, também não impediu. Não provocou, nenhum de nós saberia provocar, ninguém diz: "Olá, quero ser arrebatado em espírito, se faz favor". Não resulta. Não se decide.

E a nossa vida está cheia disto. Quantas coisas fundamentais realmente decidimos? Não tantas assim. Nós fomos arrebatados na nossa vida para determinados gestos e decisões. Chamamos a isso destino ou sorte ou os deuses ou as fadas ou o mistério. Não passo a vida a atribuir a minha vida às fadas, mas é uma boa descrição daquilo que é incontrolável em nós. E a fábula da Divina Comédia começa por aí. Ele não escolheu, limita-se a ter a sorte ou azar, sabemos lá, de ser levado ao Além. Eu afirmo que, mesmo no Aquém, isso também acontece. Somos arrebatados para aqui ou para ali. Não quero dizer que fui arrebatado para a poesia, mas quando digo que este livro aconteceu-me é um pouco isso.

Outras Notícias