1970-2021

Pedro Gonçalves fazia música com um semissorriso

Pedro Gonçalves fazia música com um semissorriso

Multi-instrumentista que se destacou a bordo dos Dead Combo morreu este sábado em casa em Lisboa aos 51 anos, vítima de cancro.

Pedro Gonçalves era sobretudo conhecido pelo trabalho ao lado de Tó Trips nos Dead Combo, banda formada em 2003.

Os Dead Combo tinham cancelado os 15 concertos previstos para novembro e dezembro, que encerrariam a digressão de despedida dos palcos, precisamente devido ao estado de saúde de Pedro Gonçalves.

Contactado pelo JN, José Morais, agente dos Dead Combo, referiu que "por desejo do Pedro e da família não haverá velório".

Início no jazz

Nascido em Lisboa a 14 de setembro de 1970, Pedro Gonçalves é reconhecido sobretudo como um dos fundadores e metade dos Dead Combo, grupo que partilhou com o guitarrista Tó Trips a partir de 2003. O seu caminho na música, todavia, começou muito antes, no jazz, produto da formação do Hot Clube de Portugal, onde se destacou no contrabaixo, instrumento que nunca abandonou, embora lhe tenha juntado o baixo elétrico, a guitarra, o piano.

As suas primeiras aparições discográficas localizam-se na segunda metade dos anos 1990. E embora deixe rasto regular no jazz (onde se destaca, já em 2002, o álbum "Live_LxMeskla", dos Lisbon Improvisation Players, ao lado de músicos como Rodrigo Amado e Marco Franco, e editado pela Clean Feed), cedo marca presença em discos de nomes cimeiros de outros idiomas.

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Gangster e cangalheiro

A passagem por "Domingo no mundo" de Sérgio Godinho, em 1997, marca o início de encontros regulares, em estúdio e em palco, com o autor de "Lisboa que amanhece". Nas redes sociais, Sérgio Godinho evocou ontem "um excelente músico, ousado e original", que "levou a vida, mesmo na doença, com uma espécie de semi-sorriso, aberto ao presente e ao futuro possível".

No vasto currículo de Pedro Gonçalves como instrumentista, compositor, arranjador e produtor também se destaca o trabalho com os GNR (ver caixa), Xutos & Pontapés, Rita Redshoes, Mazgani, Margarida Pinto, Tiago Bettencourt, The Legendary Tiger Man e Aldina Duarte.

No entanto, a sua viagem pela música fica marcada sobretudo pela criação dos Dead Combo em 2003, em parceria com o guitarrista Tó Trips. Juntos, criaram um mundo sonoro e visual idiossincrático, complementado por uma dimensão visual sombria mas lúdica, em que a dupla assumia as personae de gangster e cangalheiro. Uma parceria que rendeu uma dezena de álbuns, sempre num crescendo de sucesso e reconhecimento.

Uma aliança com os GNR selada com "Saliva"

Pedro Gonçalves cruzou-se com os GNR em 1998, nas gravações de "Saliva", canção que destacava no álbum "Mosquito". "Sabia que ele estava mal", refere Toli César Machado ao JN. "Toda a gente sabe que ele é um músico de uma importância enorme no panorama musical português, um excelente músico." Rui Reininho lembrou "um tipo maravilhoso. Era um dos bons. O Pedro viveu sempre discreto. Vi-o nuns Globos de Ouro em que ele foi agradecer porque os Dead Combo tinham ganho um troféu e ele diz: 'Muito obrigado. A partir daqui é sempre a descer'. Não é, Pedro. Para ti é sempre a subir".

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