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Pela viagem é que vamos até ao fim

Pela viagem é que vamos até ao fim

No livro "A Arte da Viagem", Paul Theroux partilha com os leitores meio século de experiências. São reflexões plenas de sabedoria e experiência de um eterno aventureiro.

Mais ainda do que a qualidade narrativa ou a excelência da linguagem, a verdadeira bitola para a avaliação da qualidade de determinado livro é a sua capacidade para nos fazer repensar supostas certezas. Todo o tempo despendido na leitura dessas obras é valioso, ao transmitirem-nos novas perspetivas que abalam os frágeis alicerces do nosso conhecimento.

Adotando o critério atrás indicado, o mais recente livro de Paul Theroux publicado em Portugal (apesar de originalmente lançado nos Estados Unidos da América há uma década) é, mais do que recomendável, absolutamente fundamental.

Antes de mais, porque ajuda a desfazer os motivos de eventual resistência ao género intrinsecamente livre que é a literatura de viagens, os quais passam quase sempre pela ideia pré-concebida de que pouco distingue, afinal, a cada vez mais ampla oferta editorial existente.

Se os livros de desenvolvimento pessoal tendem a prometer milagres que raras vezes se cumprem na prática, "A Arte da Viagem", pelo contrário, vai bem mais além do que o seu título parece deixar antever.
O que Theroux nos transmite, mesmo que por palavras de outros, ao longo de mais de 300 páginas não são apenas impressões de jornadas rumo a paragens distantes.

Nem por acaso, as passagens mais fascinantes do livro não dizem respeito às descrições paisagísticas, mas ao amplo conjunto de reflexões, comentários ou simples desabafos que constituem um autêntico guia filosófico através do qual somos tentados a reavaliar as tais certezas que pudéssemos ter no início da leitura acerca das limitações deste género.

Seria expectável que, num livro com estas características, a soberba e o convencimento espreitassem amiúde. Ou não tivesse o autor de obras proeminentes como "Grande Bazar Ferroviário" uma experiência de mais de meio século a cruzar o Mundo enquanto viajante insaciável em busca de novas experiências. Nada disto acontece, porém.

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A genuína vontade de partilha de experiências predomina nestas impressões, em que também encontramos um não menos raro sentido de humildade. Esta virtude manifesta-se através do destaque concedido a outros escritores de viagens, numa longa lista que inclui tanto referências absolutas do género como cultores esporádicos

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