Cultura

Pixies outonais no "Primavera Sound"

Pixies outonais no "Primavera Sound"

O sempre efusivo rock dos Pixies concentrou as atenções gerais no segundo dia do "Nos Primavera Sound Porto", no Parque da Cidade, em que também os Television e os Slowdive marcaram pontos.

Qual boneco da Michelin em versão "dark", a figura cilíndrica de Black Francis, trajando de negro da cabeça aos pés, emerge das sombras à hora combinada. Uma fugaz vénia de saudação ao público e eis que uma trovoada sonora cobre o recinto quando os inimitáveis "riffs" que celebrizaram os Pixies começam a ecoar pelo Parque da Cidade.

Descargas viscerais de energia, os temas, entre os quais "Debaser" e "Bone machine", sucedem-se a uma velocidade vertiginosa, sem que a imensa plateia quase tenha tempo para reagir.

O ritmo assaz frenético dos minutos iniciais não tarda a esbater-se. Mais do que por questão estética ou estratégia de alinhamento, percebe-se rapidamente que talvez se deva mais a uma calculada gestão de esforço. Ou não fossem já todos os três elementos originais dos Pixies respeitáveis cinquentões.

A assistência - boa parte da qual também composta por fãs da velha guarda - acusa a quebra de intensidade e revela também ela algum entorpecimento, apenas quebrado quando um acorde mais facilmente identificável prenunciava a chegada de um dos muitos temas incontornáveis do grupo.

Acresce a esta intermitência a sensação de que por poucas vezes as canções foram levadas ao limite, como se o seu poder intrínseco dispensasse qualquer esforço adicional. Uma semiverdade, já que, se o mérito das musicas permanece intocável, um maior enfoque na sua intensidade teria feito maravilhas na comunhão entre o público e a banda.

Além dos obrigatórios "Here comes your man" e "Where is my mind?", os únicos verdadeiros momentos de apoteose aconteceram quando souberam libertar as músicas da sua fórmula inicial, permitindo que elas crescessem e se reinventassem.

Acalmia "british"

A euforia controlada que rodeou a aparição dos Pixies não poderia ser mais contrastante com o efeito hipnótico que marcou a passagem dos "Slowdive" pelo festival. Afinal, o shoegaze do quinteto inglês, de regresso após um pousio de quase 20 anos, apela mais à contemplação do que à exuberância, o que não significou - longe disso - que se tenha tratado de uma atuação dormente.

Rock'n'roll vintage

Em 1977 , os Television asseguravam o seu quinhão de imortalidade com o soberbo "Marquee moon". Trinta e sete anos depois, estranhamente remetido para um palco secundário à luz do dia, o veterano quarteto provou que não foi em vão que uma multidão tão numerosa e intergeracional trocou as propostas que decorriam à mesma hora noutros palcos.

Mais do que simples revisitação histórica, o concerto que recuperou na íntegra o mítico disco foi, antes de tudo o resto, uma lição de rock'n'roll sem compêndio à mistura, em que Tom Verlaine (apenas traído por vezes nos agudos), Fred Smith, Billy Ficca e Jimmy Rippa se revelaram exímios na arte de provarem, se necessário fosse, que o reportório "vintage" não envelhece jamais.