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Plástico regressa com manifesto sobre o Teatro

Plástico regressa com manifesto sobre o Teatro

Companhia de Francisco Alves assinala duas décadas de trabalho com um livro que é também uma peça de arte. A obra "Teatro Plástico - 20 anos" é lançada este sábado no Porto.

Quase cinco anos depois de ter interrompido a sua atividade, o Teatro Plástico - uma das companhias mais marcantes e tematicamente focadas no Porto dos anos 90 - regressa à vida com um livro-objecto de 600 páginas e 1800 imagens, que é ao mesmo tempo uma obra de arte e um manifesto, e que podia chamar-se apenas anamnese, ainda que aqui o exercício não sirva para diagnosticar uma doença mas uma cura.

"O teatro salva", assegura ao JN o "enfant terrible" Francisco Alves, encenador, cenógrafo, figurinista, diretor e fundador de uma das companhias independentes que mais apostaram no teatro site-specific e na lógica outsider.

Pensado para ser um depurado bloco preto, não por acaso embrulhado num invólucro de plástico de bolhas, o livro é uma viagem pelos vinte anos (1995-2015) de percurso da estrutura. Mas é também uma radiografia ao tempo que passou - o tempo político, o tempo estético, o período de transição do analógico para o digital, até o tempo do jornalismo. E é um tratado sobre o Teatro que é, como refere Francisco Alves logo no prefácio, "a mais generosa das artes. No final tudo se desmonta e desfaz e nada fica para além da memória dele na memória de quem viu." Nesse sentido, não é uma obra que olha apenas para dentro da companhia, mesmo se percorre todos os seus espectáculos e projectos, mas também para fora dela.

"O Teatro é contrapoder"

Para quem assistiu e cresceu com as criações contemporâneas e com os autores de estimação do Plástico - de Eric-Emanuel Schmitt a Bernard-Marie Koltès, de Samuel Beckett a Edward_Bond ("O maior dramaturgo vivo e aquele que melhor fundiu o poético e o político", considera Francisco Alves), passando por "O marinheiro" de Fernando Pessoa ("O melhor texto português do século_XX.") -, esta antologia de momentos convertidos em textos e imagens e encartes especiais (sobre a ocupação do Rivoli, em 2006, com textos sobre desobediência civil, assinados por Hannah Arendt ou Gandhi; ou sobre a "parceria pioneira" entre o Plástico e a galeria de José Mário Brandão) merecerá inevitável comoção.

Porque resgata o que já não parecia resgatável, acrescentando um pensamento crítico que recentra política e esteticamente o nosso olhar sobre o mundo e sobre "um tempo, este, feito para termos medos abstratos, absurdos e pouco palpáveis".

Exemplo dessa atualização aprofundada é, por exemplo, o conjunto de ensaios inéditos sobre o Corpo (Fátima Lambert), a Imagem (Carlos França), a Palavra (Rui Carvalho Homem) e o Espaço (José Luís Tavares). Ou os textos retrospetivos assinados por Inês Nadais e Rodrigo Affreixo, dois dos jornalistas que mais assiduamente acompanharam a longa vida desta companhia, cujo diretor sempre encarou o teatro como "a mais política de todas as artes", tendo sempre aceitado "pagar o preço" que cabe ao "contrapoder".

O lançamento de "Teatro_Plástico - 20 anos", que demorou três anos a nascer (e que não termina na última página, mas prossegue com tudo o que nele não coube, num ficheiro de acesso digital), acontecerá este sábado, dia 7, no Museu Soares dos Reis, no Porto, onde a companhia apresentou, em 2010, a peça "In Situ - In Transit", um espetáculo-chave "sobre o confronto entre o Museu enquanto espaço estático e símbolo do perene e o Teatro enquanto arte do efémero e símbolo do presente imediato".

Mas o Plástico nunca se esgotou apenas nessa relação intima entre as artes plásticas e as artes do palco, foi sempre também iminentemente um teatro politico e de intervenção.

"É suposto que os artistas questionem as coisas, a nossa função não é outra", defende Francisco Alves. "O teatro não é poder, é contra-poder, é uma entidade social que tem por função fazer crítica social. Se não fizermos isso, não estamos a cumprir o nosso papel." E ainda acrescenta: "Não é por caso que o teatro é uma arte tão mal amada, representa a arte do confronto. Nesse sentido, é a arte mais pública e política que existe. Mas os portugueses nem sempre gostam disso."

O Teatro Plástico interrompeu a sua atividade em 2015, mas não é líquido que seja uma interrupção para sempre. Pelo contrário. É ficar atento.

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