Cinema

"Podia ter sido presidente dos Estados Unidos"

"Podia ter sido presidente dos Estados Unidos"

Lloyd Kaufman, o fundador da Troma e fã de Manoel de Oliveira, apresenta este domingo "Mutant Blast" no Porto.

"Mutant Blast" é o primeiro filme português produzido pela Troma, conhecida pela mistura de humor e horror nos seus filmes e um dos fundadores da companhia nova-iorquina, o lendário Lloyd Kaufman, está em Portugal para acompanhar a estreia do filme de Fernando Alle em várias salas do país. Este domingo, à noite, pelas 22h00, estará no NOS Cinema Mar Shopping, em Matosinhos.

Antes, Lloyd Kaufman falou ao JN, apontando Fernando Alle como a última descoberta da companhia. "A Troma é famosa por descobrir novos talentos", disse-nos. "O primeiro filme do Samuel L. Jackson é da Troma. Não teria havido "South Park" sem a Troma. Ninguém no mainstream compreendeu que os seus criadores eram génios. Tanta gente, como Eli Roth ou Oliver Stone. Nós sabemos reconhecer o talento."

O produtor e também realizador, hoje com 73 anos, explicou como foi possível produzir um filme português. "Fomos a uma retrospetiva da Troma em Espanha. O Fernando Alle estava lá, ainda muito novo e grande fã da Troma. Convenceu-nos a ver a curta-metragem dele, "Banana Motherfucker". Adorámos, não consegui parar de rir. Depois pagou do bolso dele o bilhete de avião para os Estados Unidos e dormiu no chão numa antiga casa mortuária para trabalhar nos efeitos especiais de dois filmes nossos. Era muito trabalhador e criativo. Tem talento e é boa pessoa".

A Troma investiu algum dinheiro no projeto de "Mutant Blast", mesmo sem ter lido o guião, e o ICA acabou por dar ao realizador o financiamento necessário para fazer o filme, o que Lloyd Kaufman classifica de "muito corajoso". E define "Mutant Blast" como "um belo filme, artístico, assustador, divertido, com uma temática ambientalista e de defesa dos animais."

Lloyd Kaufman não tem dúvidas que o filme de Fernando Alle "tem realmente o espírito da Troma, tem muito a ver com os marginalizados da sociedade". E não hesita: "No futuro o "Mutant Blast" vai estar a par do "Toxic Avenger" ou do "Tromeu and Juliet"".

Há já alguns dias que Lloyd Kaufman tem convivido com os fãs portugueses, para quem só tem elogios. "Falam um inglês perfeito e adoram a Troma. Não podia ser melhor", refere. "As pessoas têm-nos tratado muito bem, com imenso respeito. Como aconteceu na retrospetiva da Cinemateca Francesa. E perceberam que a Troma não é só mamas e rabos, há também uma sátira política e social. E os fãs têm adorado o "Mutant Blast".

O veterano e divertido nova-iorquino é aliás presença regular em Portugal e chegou a conhecer o nosso mestre. "Já estive cá uma dúzia de vezes. Tive a oportunidade de conhecer e ver os filmes do Manoel de Oliveira. Na minha opinião, Robert Bresson é o Oliveira francês, não o contrário. Faleceu com 106 anos? Deve ser do café português", ironiza.

Finalmente, Lloyd Kaufman explica o que o mantém sempre tão activo. "A Troma existe há 45 anos. Nós adoramos filmes. É isso que nos faz continuar. E os nossos fãs. Sem eles talvez estivesse a vender sapatos", explica. E termina com uma história curiosa. "Eu fiz a Universidade de Yale. Podia ser o que quisesse. Podia ter ido para a política e ser bilionário. O George W. Bush estava na minha turma em Yale. Podíamos ter trocado de posição, ele podia ter fundado a Troma e eu podia ter sido Presidente. Mas eu escolhi o cinema e as artes."

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