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Polémica "The Crown": ministro inglês quer que série avise que é uma ficção, mas Netflix recusa

Polémica "The Crown": ministro inglês quer que série avise que é uma ficção, mas Netflix recusa

I​ngleses discutem necessidade de policiar programas "baseados em factos reais" e há quem diga que a série sobre a monarquia é "vil e sórdida".

Alex von Tunzelmann, historiador que assina a coluna de opinião "Reel History" ("História das Bobinas") no diário inglês "The Guardian", sublinhou recentemente uma evidência: "A Netflix já diz às pessoas que a série "The Crown" é uma ficção. É considerado um drama. As pessoas que a interpretam são atores. Eu sei! É espantoso!".

O sarcástico comentário é um exemplo típico de humor britânico - seco, incisivo, desconcertante e tantas vezes fiel à realidade dos factos que quer comentar - e ganhou popularidade numa polémica recente sobre a série dramática estreada em 2016, e que já vai na 4.ª temporada televisiva na Netflix, que retrata com especial acutilância a vida na corte da monarquia inglesa.

A polémica é esta: o ministro inglês da cultura, Oliver Dowden, solicitou que antes de cada novo episódio de "The Crown" fosse emitido um "aviso sanitário" para que os telespectadores ficassem cientes de que o drama histórico de TV é uma obra de ficção. Dowden disse mesmo, em declarações ao jornal "Mail on Sunday", que, sem essa advertência, os espectadores mais jovens que não viveram os acontecimentos ali retratados podem "confundir ficção com facto". E mais: "Trata-se de uma obra de ficção lindamente produzida, como muitas outras produções de TV. Mas a Netflix deveria ser muito clara quanto ao género de produção que está a emitir".

Os espectadores sabem, diz a Netflix

Em Portugal, onde "The Crown" está há várias semanas entre os cinco programas mais vistos, a série surge com as etiquetas de género "British", "Séries políticas" e "Dramas de TV", onde se agrupam outras séries, também claramente faccionais, como "The end of the fucking world", "Colateral" ou "Black Mirror". E globalmente, os espectadores do drama monárquico são avisados previamente de que o programa "contém referências a nudez, sexo, violência e suicídio, e que é adequado para espectadores com 15 anos ou mais".

Em resposta às declarações virais do ministro britânico da cultura, a Netflix, que é uma empresa norte-americana, já fez saber que não tem quaisquer planos para adicionar um aviso extra de "obra de ficção" à sua série de sucesso.

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Num comunicado divulgado no último fim de semana, a Netflix disse taxativamente: "Apresentamos sempre "The Crown" como um drama. Temos toda a confiança de que os nossos membros percebem que se trata de uma obra de ficção amplamente baseada em acontecimentos históricos. Logo, não temos planos, nem vemos qualquer necessidade disso, para adicionar à série um aviso extra".

Peter Morgan, o criador da série, também já comentou a polémica e admitiu: "Às vezes é preciso abandonar a precisão, mas nunca se deve abandonar a verdade", disse, defendendo que o programa tem ao seu serviço um batalhão de consultores de História.

Há razão para criticar?

Simon Jenkins, autor de livros de política e de história inglesa, que escreve uma coluna de opinião no "The Guardian", contribuiu recentemente para avivar a fogueira da polémica. No dia 16 de novembro escreveu um texto intitulado "A história falsa de 'The Crown' é tão corrosiva quanto as notícias falsas", sustentando que, na série, "a realidade está sequestrada como propaganda e é um abuso cobarde da licença artística".

E dá vários exemplos para reforçar a sua opinião, a maioria deles centrados nos novos episódios da 4.ª temporada, que retrata factos e personagens com maior peso histórico recente, como a chegada ao poder da primeira-ministra Margareth Tatcher (interpretada pela atriz de "X-Files" Gillian Anderson), a sua relação tensa com a rainha, ou o retumbante aparecimento na monarquia de Diana (atriz Elizabeth Debicki), a "princesa do povo" que casaria com o príncipe Carlos e que espoletaria depois o "divórcio do século" e a violenta morte de Diana em Paris quando fugia de um grupo de paparazzi.

Eis alguns dos "exemplos abusivos e falsos" a que se refere Simon Jenkins: "A família real colocou armadilhas protocolares para humilhar Margaret Thatcher durante uma visita a Balmoral na década de 1980"; "A princesa Margaret ridicularizou a princesa Diana por não saber fazer uma reverência"; "O príncipe Charles telefonou a Camilla Parker Bowles [sua amante] todos os dias nos primeiros anos do casamento com Diana"; "A princesa Diana teve um ataque de raiva durante uma visita à Austrália e forçou uma mudança radical nos planos oficiais"; ou ainda "A princesa Margaret visitou dois primos da rainha, que foram colocados num 'asilo estatal para lunáticos' de modo a evitar embaraçar a monarquia".

Há fãs dos dois lados

Esse texto de opinião possui já mais de 300 comentário na edição digital do "The Guardian" e são tantos os leitores que subscrevem a opinião radical de Jenkins como os que atacam o seu eventual exagero.

"Mas como é que se faria o policiamento da série?", pergunta Daniel Frisbee, leitor do jornal. "Eu vi 'Gladiador', acho que é um ótimo filme, mas eu não o vi para aprender factos sobre a Roma antiga". E continua: "Acho que seria preciso o governo nomear um painel independente de historiadores que tivesse o poder de censurar filmes e programas de TV que fossem muito liberais com a história estabelecida. Seria uma completa perda de tempo e, suspeito, não se conseguiria nada de bom".

Outro leitor, identificado como Durbs75, diz: "Isto é um drama de televisão, não é um documentário. Acalme-se, Simon!".

Do outro lado da barricada, o utilizador Mintaka defende a visão do colunista Simon Jenkins: "Não concordo sempre com o Simon, mas neste caso estou de acordo. Não sou fã da realeza, mas acho que notícias falsas e história falsa são grandes perigos. Inventar uma versão diferente dos eventos e ficar escondido atrás da frase falsa "baseado em acontecimentos reais", é sórdido e vil".

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