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Porque não devemos deixar de acreditar

Porque não devemos deixar de acreditar

As mensagens de esperança atravessam o novo livro de Manuel da Silva Ramos, "Ao colo de Virgílio", protagonizado por um intelectual humanista que se entrega à missão de cuidar dos outros.

À razão exata de um livro por ano, Manuel da Silva Ramos (1947) continua a oferecer-nos, romance após romance, autênticos "frescos" da sociedade portuguesa contemporânea, sem que isso signifique propriamente uma repetição de fórmulas ou de técnicas, já que cada um dos seus romances escolhe sempre um enfoque particular e enriquecedor.

É disso exemplo o novo "Ao colo de Virgílio", um romance que introduz curiosas variações numa obra cujas origens remontam a 1969, ano em que arrebatou o Prémio de Novelística Almeida Garrett com o ainda hoje marcante "Os três seios de Novélia".

Essas "nuances" assentam antes de mais num tom mais esperançoso da narrativa, graças em larga medida à figura do protagonista. Ele é Virgílio Quintela, um editor e literato que faz do humanismo sem concessões a sua forma suprema de estar na vida. Os reveses que vai sofrendo, como a morte prematura da mulher, não só são incapazes de lançá-lo na amargura, como conseguem até o efeito contrário.

Para lidar com a dor, entrega-se aos que o rodeiam de um modo tão abnegado que roça a comoção. Depois de ter ajudado o pai a minorar os seus últimos dias de sofrimento e de ter feito o mesmo com a esposa, cuida com máximo desvelo da mãe acamada, cobrindo-a de afetos (e de livros, já agora).

Na personagem deste querubim terreno, o autor natural da Covilhã quis sobretudo prestar o tributo (mais do que) justo aos cuidadores, essas figuras tantas vezes invisíveis cujo papel essencial na vida de muitos milhares de seres insiste em não ser considerado como tal.

O otimismo que irradia Virgílio Quintela é o oposto do que encontramos nos traços da sociedade. Com a propensão para a sátira que lhe é reconhecida, Manuel da Silva Ramos retrata, num ato que não é de todo despido de amor, a tendência tantas vezes autofágica do país.

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Numa das mais inesquecíveis passagens do livro, o autor de "Impunidade das trevas" denuncia a tragédia social que o vício das "raspadinhas" acaba por provocar, quase sempre junto das classes sociais mais desfavorecidas, apontando o dedo a quem finge legislar e preocupar-se com o problema.

Cético das massas, mas eternamente crente nas potencialidades do indivíduo, Ramos transforma esta narrativa numa mensagem luminosa de esperança num tempo tão carenciado de bons exemplos.

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