Música

Concerto de Madonna por Valter Hugo Mãe

Concerto de Madonna por Valter Hugo Mãe

Assistir a um concerto de Madonna numa sala como é a do Coliseu dos Recreios traz-nos a impressão de uma inaudita intimidade. O espaço é pequeno para uma das mulheres mais famosas do Mundo. Paira o ar de havermos sido escolhidos, como se fôssemos a convite ao encontro da cantora.

Reparamos uns nos outros obrigatoriamente. Madonna decidiu que estes seriam concertos livres de telemóveis. À entrada, os aparelhos são metidos em pequenas sacolas opacas e invioláveis. O público é uma multidão sem luz própria.

Eram 21.55 horas quando a cortina se abriu para a narrativa brava, política, que marca a construção da personagem de Madame X, alter ego da cantora que se desdobra, como diz, entre ser uma espiã, mãe, cantora, bailarina, freira ou prostituta. Madonna está mais frontal do que nunca, e nos vários diálogos que estabelece com o público deixa claro que a popularidade não é impune e que urge defender a liberdade. Lembra que os portugueses tiveram um ditador por "quarenta anos", sabemos bem que a liberdade é uma luta constante que vai parar nunca. Diz que o artista existe para perturbar. No anedotário, mais adiante, perguntará que nome tem um homem de pénis pequeno. Gritadas várias hipóteses pela plateia, ela responde: "Trump".

O novo disco é o corpo essencial do concerto. São poucos os clássicos que recupera (onde se incluíram "Vogue", "American Life", "La Isla Bonita" ou "Like a Prayer"). Se a receita para uma boa parte das canções é mais ou menos a esperada (bailarinos, muita luz, ela dando tudo mesmo com uma lesão no pé), é quando passa pela experiência da vida em Lisboa que a noite se torna especial.

"Sodade" com Dino

A presença da Orquestra Batukadeiras, um comovente coletivo feminino de Cabo Verde, acontece no tema "Batuka" e abre um espaço de música do mundo muito incomum, mas particularmente feliz, no trabalho de Madonna. Mais tarde, fará com Dino D"Santiago uma versão sincera do tema "Sodade" popularizado por Cesária Évora. É muito incrível a voz de Dino a cantar a morna.

Madonna fala do fascínio pela música nacional portuguesa, que afirma ser "a mais bela do Mundo". Convida Gaspar Varela, bisneto de Celeste Rodrigues, guitarrista, e arrisca em fado, assim mesmo em português. Fá-lo com graça, com simpatia. O cenário transforma-se em certa casa de fado, onde se dá a mestiçagem de várias sonoridades latinas.

Depois, há uma passagem algo espiritual pelo tema "Frozen", em que Madonna se diminui atrás de um telão e o corpo de uma bailarina alude ao vídeo original da canção. Sensual, a bailarina é Maria de Lourdes, a filha mais velha da cantora. A plateia reage comovida e em respeito.

Estavam na sala todos os seus filhos. Esther, Stella e Mercy James dançaram mesmo no palco, David Banda também, acompanhando a mãe numa descida ao meio da multidão.

No fim, Madonna saiu cantando e agradecendo por entre o público, passando a entrada 4 do Coliseu. Ao sairmos, ainda vimos como já tinha os filhos no carro discreto, acenando brevemente da janela a todos quantos estávamos trancados nas portas de vidro, à espera que o carro arrancasse para nos soltarem também às ruas de Lisboa.

Julgo, como esperava, que mais do que apenas ver Madonna vimos um pouco do que significa a cultura de Portugal: mestiça. Belissimamente mestiça. Elogiada pela mais famosa conterrânea que nos calhou.

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