Ken Loach

"Precisamos de um novo modelo económico"

"Precisamos de um novo modelo económico"

O novo filme de Ken Loach, "Passámos Por Cá", já estreou nas salas. O realizador britânico, duplo vencedor da Palma de Ouro em Cannes, falou com o JN.

Aos 83 anos e com mais de meia centena de filmes realizados, o britânico Ken Loach é um dos cineastas no ativo mais empenhados na causa política, com os seus filmes a denunciarem quase sempre situações de tremenda injustiça social, colocando o cidadão comum em luta desigual contra o sistema. Ainda todos se lembram do filme anterior do cineasta, o comovente "Eu, Daniel Blake", que lhe valeu a entrada no clube restrito dos realizadores duplamente premiados com a Palma de Ouro de Cannes. Foi também em Cannes que falámos com o realizador, após a projeção de "Passámos Por Cá", sobre um homem que decide endividar-se com a compra de uma carrinha nova, para fazer entregas de encomendas por conta própria. Mas o que parecia dar certo no papel esbarra na realidade e a sua família começa a desmoronar-se.

Há três anos disse que "Eu, Daniel Blake" era o seu último filme...

Eu disse-o uma vez e foi uma coisa muito estúpida de dizer. Não, ainda estou em campo, mas quase a ser substituído, antes do prolongamento.

E está sempre a encontrar temas novos para os seus filmes...

É esse o problema. Este filme é sobre exploração. Mas a exploração no domínio das pensões é já o tema do próximo.

Porque se interessou por este tema em particular?

Pareceu-me o caso clássico de se dizer que tudo o que corre mal a responsabilidade é do trabalhador. Neste meio, é algo muito visível. Tem de se ter uma carrinha própria, depois fica-se com uma dívida enorme, e tem de se trabalhar mais e mais caso contrário a dívida vai crescer. É um caso em que a pessoa tem de se endividar para ter trabalho.

Como é que funciona a economia neste setor?

Temos de perceber que isto é o resultado inevitável da economia de mercado. A ordem económica é ditada pelas grandes corporações. Elas estão em competição e os grandes contratos vão para as que foram mais baratas e fornecerem o melhor serviço. Baixam os custos de trabalho e se utilizam empresas de trabalho temporário não têm de pagar dias de doença, dias de férias, seguros de acidentes.

Onde é que se posiciona o trabalhador?

O condutor fica com todos os riscos, se tiver um acidente é ele que tem de pagar. Pelo contrário, o empregador não corre nenhum risco. Uma outra companhia tem de fazer algo para não perder o contrato, por isso há uma guerra permanente para baixar custos. E normalmente são os custos de trabalho que se baixam, explorando ainda mais o trabalhador.

Continua a denunciar situações como estas nos seus filmes, mas a situação não parece estar a melhorar.

É verdade. Não vamos conseguir necessariamente mudar as pessoas que estão no poder ou que estão em posição de mudar alguma coisa, mas há que dizer que situações como estas são intoleráveis. O meu último filme era sobre pessoas que necessitam que o apoio financeiro do estado exista. Hoje a situação ainda é pior. O governo não recuou um centímetro. A comida entregue por organizações de caridade aumentou 18% num só ano.

Se estivesse numa posição de poder, o que faria para resolver a situação?

Não se pode mudar isto. Podemos colocar algumas regulações, mas vão descobrir maneira de as contornar. Se quisermos mudar isto, temos de mudar a estrutura económica e isso para mim quer dizer propriedade comum, controlo democrático, economia planificada, justiça social.

"Sabemos que estamos a destruir o planeta"

Ultimamente tem estado muito ativo na denúncia dos atentados ecológicos.

Sabemos que estamos a destruir o planeta e estas carrinhas são alimentadas a combustível fóssil. Todas as entregas implicam um certo nível de poluição. E isto não é sustentável. Não se pode continuar a queimar combustível fóssil por cada coisa que compramos. Precisamos de um novo modelo económico. O sistema não se pode reformar. É a sua essência que tem de mudar. E a mudança tem de ser internacional. A ideia de socialismo num país não resultou. Mas alguém tem de começar.

Enquanto consumidor, quais são as suas medidas?

A consciência individual é necessária, mas para se atuar tem de ser de forma coletiva. Cada um faz o melhor que pode, é bom para as nossas consciências, mas não estamos a conseguir mudar nada. O que está a mudar é que a nova geração já está a dizer: este é o nosso planeta, vocês não o vão destruir. É preciso alimentar esta ideia. O perigo é quando a raiva faz resvalar as pessoas para a extrema-direita. A extrema-direita é mais forte do que a esquerda, neste momento.

A emigração é um dos problemas dos nossos dias, mas o seu filme não o aborda.

Em Newcastle, onde filmámos, os motoristas são todos britânicos. A ironia é que se as companhias contratarem emigrantes vão ter custos mais baixos, mas é a extrema-direita que está a lutar contra a emigração. Por um lado querem trabalho mais barato e mandam vir emigrantes, mas por outro lado querem expulsar os emigrantes.

Voltou a encontrar atores fantásticos, mesmo que sem grande experiência. Pode explicar um pouco como os descobre?

Normalmente, escolhemos pessoas em quem acreditamos e que possam dar vida à história. O motorista parece-se com um motorista, a assistente social com uma assistente social. Uma câmara de filmar pode ver os poros da tua pele. Vemos imensa gente: atores, pessoas que fizeram alguma representação ou mesmo nada, pedimos-lhes para improvisar. Para cada papel vimos cerca de duzentas pessoas.

"Os filmes de super-heróis veiculam uma ideologia de direita"

Como é que está a situação laboral no meio que conhece melhor, o cinema inglês?

As produtoras contratam pessoas a pagar literalmente nada. Dizem que é para o currículo, que assim ganham mais experiência. As pessoas têm de pagar os transportes e a alimentação, mas ficam com uma menção no CV. E ao fim de seis meses quando perguntam se podem ficar dizem-lhes que não, para ir buscar outra pessoa sem pagar nada. Mas todas as pessoas que trabalharam no nosso filme receberam pela tabela sindical.

Depois de fazer o filme, passou a encomendar mais coisas pela internet?

Eu mal sei usar o meu telemóvel. Esse não é um tipo de tentação que tenha. Tenho outras, mas essa não.

Os seus filmes lutam no mercado com os filmes de super-heróis. O que pensa dessa tendência de hoje?

São filmes que veiculam uma ideologia de direita. Há sempre um super-herói para resolver os nossos problemas. É o triunfo do indivíduo sobre o coletivo.

Para terminar a nossa conversa, apesar de tudo está otimista ou não?

Tenho de ser realista. E a emergência climática é cada vez mais forte. Os jovens é que vão ter de dizer que o sistema tem de mudar. Tudo depende de nós. Se nos organizarmos, podemos ganhar. Se não, se formos fatalistas, nada feito.

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