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Primavera Sound: Viagra Boys é sujinho, sujinho

Primavera Sound: Viagra Boys é sujinho, sujinho

Suecos atuaram este sábado no Nos Primavera Sound. A diversidade também é isto: o caos e a atitude "deixem-me emborcar enquanto canto para aqui umas coisas".

"Boa tarde, Barcelona!", começou por dizer o vocalista dos Viagra Boys, Sebastian Murphy, em pleno Parque da Cidade, no Porto, no último dia do Nos Primavera Sound.

A confusão geográfica do cantor tem um lado provocatório, mas apostaríamos que tem também um lado alcoólico - não terá sido só no palco que o sueco começou a empurrar vodka e cerveja; já vinha certamente embalado.

Na grande diversidade do festival, no "novo normal" que surge como emblema do Primavera 2019, têm de caber também figuras como Sebastian - figuras que se gabam do seu corpo desleixado e coberto de tatuagens, figuras sem "mensagens positivas", sem simpatia, sem nada que se assemelhe à comunicação cada vez mais padronizada entre o palco e a plateia.

Também não inventou a roda, é certo - e nem chegou aos exageros de algumas referências mais imediatas da banda: antepassados punk que só não comiam o braço em palco porque precisavam de o esticar para fazer manguitos. Mas a pose do cantor contrasta hoje radicalmente com a polidez que domina as interações nos concertos.

E quanto à música? A vocalização é punk "vintage" - pensem nas bandas mais caóticas dos anos 1970 e 1980 - The Ruts, The Exploited, Dead Boys. Mas o som colhe influências bem mais sofisticadas e do momento seguinte à eclosão do punk original: há o baixo hipnótico dos Art of Noise, um "psycho" que lembra Cramps, uma demência que se aproxima dos Birthday Party.

Mas podemos esquecer todas estas semelhanças, porque a receita final soa fresca, atual, explosiva. E nunca uma banda de rock duro terá integrado tão bem o saxofone. É mesmo no entrelaçar do baixo, potentíssimo e a largar faúlhas, e do saxofone que sai a assinatura musical destes habitantes de Estocolmo que mais parecem um grupo de rufias a partir copos num pub londrino.

Têm apenas um álbum, "Street worms", lançado em 2018, que serviu de alinhamento ao concerto do Primavera. E têm esse vocalista que rasteja, faz duas flexões e adormece, levanta-se trôpego, vangloria os seus peitos flácidos, dá uma golada de vodka, imita uma bailarina e o Bruce Lee e despede-se calorosamente de Barcelona.