Dia Mundial

Qual a potência do teatro hoje?

Qual a potência do teatro hoje?

Na data em que se celebra o Dia Mundial do Teatro, o JN pediu depoimentos a encenadores, atores, dramaturgos, cenógrafos e professores. Para que dessem a sua perspetiva sobre o poder de intervenção desta arte no presente. O resultado é também uma leitura sobre o teatro no Portugal de 2017, pelas vozes de quem o faz, pensa e ensina.

Pelo menos desde o século V a.C. que a arte teatral acompanha a vida do homem e lhe inventa possibilidades. O historiador Jean-Pierre Vernant descreve o espetáculo trágico como o espaço em que se confrontam os valores do passado mítico e os do presente da polis ateniense. Um bom exemplo será a "Oresteia", de Ésquilo, uma trilogia de tragédias onde poderá ser lida a evolução da ideia de justiça - da Lei de Talião aos tribunais.

Associado aos grandes movimentos da história, o teatro (ou pelo menos a teatralidade) participou na afirmação do cristianismo, que não dispensou o espetáculo como elemento de transmissão da sua mensagem, nomeadamente com os mistérios ou o drama litúrgico. Após o renascimento, é possível observar a evolução do poder político, económico e social através dos protagonistas dos textos dramáticos - que são primeiro reis, depois burgueses, e finalmente representantes do povo, já no século XIX.

Com o modernismo e as vanguardas, o teatro vive uma série de implosões, como a crise da forma dramática e a emancipação da teatralidade, que passa a contestar a sua subjugação ao texto. Mas continua a testemunhar o seu tempo e a atuar sobre ele, com o surgimento de várias formas de teatro político ou outras que integram e influenciam novos estudos sobre o homem, como o teatro expressionista na sua relação com a psicanálise.

Questionando, satirizando, denunciando e propondo, o teatro chega ao século XXI sob múltiplas formas e com uma memória que se perde nas imagens gravadas nos vasos antigos. Continua a escrever o seu tempo e a ser escrito por ele. Mas com que potência o faz em 2017? Qual o alcance da sua intervenção?

Estas perguntas poderão ser feitas regularmente, porque o mundo não pára e os dados se alteram rapidamente. E porque interessa saber o que pensam, em cada momento histórico, aqueles que fazem o teatro e o ensinam. Nesta data em que se celebra o seu dia mundial, o JN pediu depoimentos a encenadores, atores, dramaturgos, cenógrafos e professores. Profissionais portugueses de várias idades e regiões que transportam o fogo desta arte ancestral.

O resultado é uma "polifonia significante", para usar a feliz expressão do teórico francês Bernard Dort, em que se revela uma diversidade de perceções sobre poder do teatro na atualidade. E também sobre os diferentes lugares da sua intervenção. Alguns dos textos são verdadeiras joias de reflexão e poesia. Que sirva este trabalho para algo semelhante ao que o teatro faz - suspender o tempo. Neste caso, suspender o tempo veloz do jornalismo e propor um documento sobre o teatro no Portugal de 2017.

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Nuno Carinhas, encenador, diretor do Teatro São João

"Apesar de não sabermos do futuro do Teatro, podemos assegurar que está cheio de presente. Isso deve-se à tenacidade dos seus fazedores e atores, herdeiros das memórias mais antigas do mundo. Eles lidam com personagens que argumentam com inteligência, absurdez ou ridículo; que insultam, improperam e chacinam com crueza; que rogam e se compadecem por misericórdia e gratidão; que reclamam o fim de servidões e combatem pela dignidade; que duvidam. No teatro exibe-se a beleza e a fealdade, o humano e o inumano, o luxo e a pobreza, o autoritarismo dos déspotas e a rebelião dos povos. Somos convocados para as viagens no comboio fantasma do tempo, dentro da máquina de todos os excessos: acende-se a luz no palco vazio, caixa dos sentidos onde cabem novas paisagens nascidas de todas as artes, para a construção da mais impura. Uma máquina que range de indignação perante as injustiças, as desigualdades e as indiferenças, o analfabetismo e a miséria. O teatro é lugar de obsidiante questionamento, do curso da História e das nossas pequenas histórias."

Tiago Rodrigues, dramaturgo, encenador, diretor do Teatro D. Maria II

"Vivemos numa sociedade onde o consumismo ainda impera. Queremos tudo rapidamente, com o menor esforço, empregando o menor tempo possível. Queremos ser informados ou entretidos (ainda conseguimos distinguir?) mas não nos peçam para fazermos mais do que tocar num ecrã para o conseguir. Queremos estar com todos ao mesmo tempo sem ter que passar pela chatice de estar realmente com alguém. Inevitavelmente, estamos a descobrir que isto não é maneira de viver. No teatro, os artistas pedem-nos que lhes ofereçamos o nosso tempo, o maior dos nossos tesouros. E nós fazemo-lo. Sabemos que as redes sociais e o mundo virtual até podem ser ferramentas para despoletar a mudança, mas também sabemos que a mudança só se opera realmente quando as pessoas se juntam. No teatro, pedem-nos que estejamos numa sala com outras pessoas, normalmente desconhecidos, e que formemos uma assembleia humana. Sabemos que comprar um bilhete num teatro é comprar algo de desconhecido em vez daquilo que já sabemos que queremos. É-nos proposto o prazer de estar fisicamente perante um mistério. Fruímos em vez de consumirmos. O teatro e todos os teatros que existem dentro do teatro têm em comum o facto de nos propor uma sociedade da fruição, do prazer do pensamento. Não conheço nada mais poderoso. Talvez o amor. Mas o teatro vem logo a seguir."

António Capelo, ator, encenador, diretor do Teatro do Bolhão

"O teatro foi, durante séculos, o espaço privilegiado dos seres humanos para interrogarem a sua condição e questionarem as suas relações: com os outros seres, com a natureza e com o próprio deus. Por isso, os sentimentos e emoções humanas sempre foram semente para a imaginação de dramaturgos e poetas; o fruto das suas obras reflete, pois, tudo quanto o ser humano necessita para se entender melhor consigo e com os outros, para entender os mecanismos tantas vezes ínvios de deus e dos próprios homens... As crises, que tanto têm assolado o mundo e a nossa existência, são adubo que fertiliza a imaginação daqueles que fazem do teatro a sua vida e, como consequência, sempre contribuíram para que o homem consiga ultrapassar os problemas que o assaltam. O teatro sempre foi espaço de diálogo, de aproximação, de inquietação e de partilha; se hoje vivemos tempos de crise e o mundo enfrenta obstáculos medonhos, o teatro não deixará de ser espaço de reflexão e, como sempre fez, há-de contribuir para desbravar caminhos na procura de soluções que a todos beneficiem. Não temos dúvidas que o teatro interroga mais do que responde; aproxima mais do que afasta; fala da morte para anunciar a vida; desenha o ódio para indicar o amor; mostra a infelicidade para nos tornar felizes; e tudo isto para nos ajudar a fazer o caminho da nossa passagem pelo mundo... Fará sentido a pergunta?"

António Reis, ator, encenador, diretor da companhia Seiva Trupe

"O Teatro existe desde que o mundo existe. E, por isso mesmo, será das maiores absurdidades sugerir como conceito que o potencial do Teatro tem vindo a decrescer. Os senhores do poder vão disfarçando as suas incapacidades, pois qualquer mente comum facilmente concluirá que os neurónios do poder se assemelham cada vez mais aos de um bonzo, pelo seu desmesurado crescimento de gorduras desnecessárias. Os cortes recentemente efetuados por Donald Trump são exemplo evidente.

Uma das potências necessárias do Teatro é denunciar os abusos de poder no mundo. As tragédias humanitárias explodem quando o ser humano persiste em desconhecer as suas potencialidades positivas.

O Teatro é essencial à vida como o ar que respiramos. O pensamento é a nossa maior riqueza e, por isso mesmo, talvez seja igualmente pertinente questionar: quando deixou o Teatro de intervir no mundo?"

Nuno Cardoso, ator, encenador

"Esta pergunta tem sido repetida vezes sem conta de cada vez que surge um novo meio de comunicação, de cada vez que a nossa sociedade sofre uma reconfiguração na forma como se estrutura e se comunica... E vezes sem conta encontramos um teatro vivo, capaz de perceber a sociedade em que se insere e capaz de produzir seja dramaturgia sejam espetáculos que servem de fulcro de reflexão e ação sobre o que o rodeia.

O teatro tem uma qualidade especifica que resiste a tudo, em meu entender. Tem o dom do tempo e concita a congregação de pessoas, criando um espaço e tempo de comunhão que não consegue ser reproduzido por mais nenhuma arte ou meio de comunicação.

Nesse universo especifico, a palavra, o gesto, a ideia ganham uma reverberação única pela partilha em tempo real e em comunidade que originam. Este fenómeno enquanto instrumento de intervenção no mundo é em meu entender inigualável.

É e será sempre indispensável ao cimento que nos une. Talvez não esteja na moda, talvez seja continuamente enterrado ou negligenciado pelos "opinion makers" e sumidades que reflectem sobre a cultura e a arte, mas seja num teatro nacional seja numa associação recreativa quando o teatro é desencadeado não há nenhuma arte que seja tão colada à pele do homem.

Portanto, resumindo e respondendo à pergunta de outra forma. O teatro terá sempre a potência de intervir no mundo, é o par de sapatos usado e feio que a civilização tem guardado para todos os dias - excepto os dias de festa em que calça sapatos de verniz apertados. Estão a um canto, não são os mais chiques da prateleira, mas são os que nos levam para a frente e para trás em dias de frio e chuva.

O teatro é o par de sapatos sem o qual não conseguimos caminhar, e com o qual caminhamos sem dar conta."

Nuno M Cardoso, encenador

"O Teatro como qualquer forma de Arte está em constante transformação, alterando-se com o Mundo e moldando-o. Como manifestação política é ainda uma alternativa aos meios de comunicação imediatos. Cada vez mais a necessidade e o desejo - neste mundo em crescente atomização e nesta realidade-simulacro veiculada através de ecrãs - de experiências reais e partilhadas. O Teatro estabelece relação no aqui e no agora, dando ainda espaço para o questionar, experienciar, manifestar e participar. Estabelecer relações cada vez mais próximas com as comunidades com sentido crítico e transformador. Um a um e um de cada vez. Com a possibilidade de errar. E no risco e no erro a potência de criar novas intervenções no mundo."

Emília Silvestre, atriz

"O teatro é um lugar mágico, físico e espiritual! De pessoas! De encontro, de comunhão, de partilha, em que a nossa humanidade, com todos os medos, desejos, anseios e defeitos está ali, à nossa frente, em carne e osso, num momento inesquecível porque irrepetível!

Nos dias de hoje, em que - para o bem e para o mal - o desenvolvimento tecnológico está num ritmo imparável, em que somos invadidos por bizarros conceitos de pós-verdades e as falsidades ganham estatuto, o papel do teatro é servir-nos de âncora. E de guia! Como enunciador das preocupações e inquietações em relação ao mundo em que vivemos, o teatro, como a arte em geral, tem sido sempre um terreno fértil para a investigação crítica da vida em sociedade. E porque tem a capacidade de ser, também, uma extraordinária experiência de sentidos ajuda-nos a reaprender a pensar, a demorar o pensamento... centrando-o no essencial.

Se é certo que o futuro não acontece a partir de um número de regras imutáveis que alguém resolveu compilar, também é verdade o que a história nos confirma. O teatro não se fixa: evolui, sempre. Não se resigna: transforma-se e reinventa-se para lá do imaginável."

Sara Barros Leitão, atriz

"Não sei o porquê de se partir do pressuposto que o teatro está a perder potência de intervenção nos dias de hoje. O teatro sofreu inúmeras ameaças ao longo dos séculos, desde a invenção da ópera, do cinema, da televisão, e nunca deixou de existir, sempre se soube reinventar. Pensar que o mundo nunca atravessou uma crise como a dos dias de hoje é ingénuo. A verdade é que estamos a ser bombardeados pelas regras da sociedade capitalista que é inimiga da criação artística, mas acredito que o teatro está a encontrar um caminho para dar a volta. Henry Miller diz que "a melhor maneira de matar um artista é dar-lhe tudo o que ele precisa". Como é evidente não precisamos de levar esta frase ao limite e tirar-lhes tudo, mas a verdade é que nunca vamos ter as condições ideais, e, no entanto, nunca assistimos a uma tão grande diversidade e qualidade performativa como agora. Quanto mais podres são os dias, mais necessário é o teatro."

António Durães, ator, encenador, professor

"O Teatro não tem desempenhado, desde sempre, outro papel que não seja esse: refletir acerca do homem, do seu tempo e no seu tempo, conforme o mundo e o seu desabrochar. Ao realizar essa reflexão, está a trazer consciência ao homem e a intervir nas suas múltiplas resoluções. Resta perceber com que grau de potência.

Claro está que, a qualidade da intervenção mantida, vai diferindo conforme esses tempos. Hoje (e se calhar como sempre), quando o acessório assume uma primazia que, nos tempos que vivemos, são mais evidentes que nunca, com um acesso cada vez mais limitado aos canais de comunicação e à divulgação, a necessidade visível do teatro desvanece-se.

Mas é ao teatro (e à arte) que está reservado, desde sempre, um papel extraordinário na fundamental paragem e suspensão do tempo, para que, no conflito com o tempo e com os homens desse tempo, com a distância que o teatro proporciona, se obtenham as respostas que precisamos no conflito com eles. Uma suspensão que pára o cansaço e que aponta, porventura, respostas. Nas suas múltiplas funcionalidades e valências, seja o entretenimento seja a reflexão crítica engajada, o teatro deve ser, sempre, provocação, para se cumprir. Contra a materialização desmedida das vidas, de todas as vidas, a falta de tempo, a impaciência, o teatro consegue empurrar para longe essas condicionantes. Se for bom. Pelo menos durante um período de tempo, que será tão prolongado quanto o teatro for capaz de o prolongar, de manter viva essa provocação em cada espetador. Transformá-lo de agente passivo, embrutecido, adormecido a éter sobre a mesa das vidas domadas que vamos vivendo, em agente ativo, em agente provocador, em agente da ação cívica. Porque se o teatro não cumprir essa missão, não é teatro. Como diria o poeta Gonçalo M. Tavares, o teatro deve ser sempre um bilhete para mudar a vida. De todos. Dos que o materializam, sejam espetadores ou atores. Sem qualquer deles, a equação humana não se resolve."

Ivo Alexandre, ator

"O Teatro está em constante mutação, acompanha e transcende a própria passagem do tempo. Questiona, mas também afirma, dá espaço à imaginação ou coloca à nossa frente a realidade tal como ela é. Numa época em que o tempo desaparece com a rapidez que transforma horas em segundos e anos em meses, o teatro resiste. Novas companhias, atores, encenadores, gente de teatro que explora dramaturgias clássicas e contemporâneas e que as apresenta mostrando outras formas de criar, novas perspetivas, tem conseguido criar públicos mais atentos, ativos e interessados. O teatro teve e continuará a ter um papel de intervenção no mundo em que vivemos. Parar o Tempo, sonhar e refletir."

Rui Spranger, ator

"O teatro sempre questionou o homem, a sociedade, a política. Foi, em muitos contextos, arte de resistência. Desde a ação em épocas ditatoriais à ação em democracia sobre questões sociais e políticas. Hoje, muitos espetáculos são feitos por essa Europa fora sobre os "migrantes", sobre todo o tipo de injustiças. É verdade que já não chega às grandes massas como outrora, mas espalha e continuará a espalhar sementes. Numa contemporaneidade em que tudo é produzido e absorvido rapidamente, o teatro, desde a sua construção à sua fruição, tem o tempo da assimilação e da digestão. O teatro sempre viveu em crise e sempre lhe resistiu, continuando vivo e conquistando sempre mais e mais fazedores e consumidores. É um grande paradoxo contemporâneo e é a vitória permanente da resistência e do amor."

Mário Moutinho, ator

"No passado dia 11 de Março fui ao Festival Alt"Vigo ver a última criação da Ana Vallés, um trabalho onde aborda este assunto, ainda que não seja o tema central da peça. Questiona precisamente que tipo de teatro se está a fazer e para dizer o quê. Se continuamos a montar as mesmas peças, ano após ano, o mesmo repertório com mais ou menos formalidade, se estamos a viver de ruínas e a agir culturalmente como se fossemos uma espécie de guias de museus.

Este trabalho da Ana Vallés fez-me mais uma vez refletir - o que de resto sempre acontece cada vez que tenho oportunidade de ver os trabalhos desta criadora de artes cénicas, que considero das mais notáveis dos nossos tempos. Mas, desta vez, saí da peça a refletir sobre o teatro que se faz hoje e de que forma ele intervém, participa, discute a sociedade atual. Naturalmente, o que está em fundo na crítica da Ana é um certo panorama do teatro que se faz em Espanha e particularmente na Galiza, mas pode ser aplicada noutras latitudes.

O teatro independente, quando efetivamente o é, tem a capacidade de criar peças contemporâneas com forte intervenção social, abordando dramas e conflitos, individuais e coletivos da sociedade atual, trabalhando dramaturgicamente estes temas ou levando à cena autores contemporâneos. Insistindo. Pois como diz Slavoj Zizek, citado na peça da Ana Vallés "o oposto da existência não é a não-existência, mas sim a insistência."

Luís Mestre, dramaturgo, encenador, professor

"Não lhe chamo potência. Chamo-lhe fascínio, admiração, espanto, contemplação, a capacidade de transformar um indivíduo. E é este indivíduo que intervirá no mundo. Poderá até mesmo mudá-lo. Vejo o teatro como força de mudança de pessoas e despoletador de sonhos. Um organismo vivo, intangível. Que permanece no tempo através da memória. É este o seu verdadeiro arquivo. Vejo o teatro como veículo de histórias, de acontecimentos, de fragmentos, como porta de entrada para o onírico, para o lírico, para novos mundos. É aqui que toca no divino.

Terá hoje o teatro a força necessária para continuar a intervir no mundo? Sim. Absolutamente."

Jacinto Lucas Pires, dramaturgo

"O teatro está em perda, sim. Como a política, o jornalismo e o tempo para uma boa conversa. O "facebookismo" dominante é a negação do espírito de cidade - estarmos juntos numa sala de espetáculos, numa praça ou num parlamento, e não fechados nos nossos ecrãs a ouvir só os que pensam como nós e a odiar todos os outros. O chamado mundo da "pós-verdade" não suporta a "mais-que-verdade" da ficção. A imaginação, que busca o coração das coisas e faz as perguntas difíceis. Por isso, o teatro é ainda mais urgente hoje. Como forma de resistência, de sonho, de questionamento. E também, já agora, para não desaprendermos isso de estar junto."

Marta Freitas, dramaturga, encenadora

"O teatro tem como principal inimigo um mundo cada vez mais rico em banalidades. A insatisfação do homem já não pode ser saciada pela arena. Raramente, quando o homem tem tempo e vai ao teatro, quando compreende, e os símbolos lá se reúnem e fazem sentido, abrem-se portas dentro de si. Mas, fora do microcosmos da arena, o homem é novamente engolido pelo mundo, pelo que lhe é exigido por fazer parte deste rebanho - a humanidade. As portas abertas, que o fizerem chorar durante o sono, são novamente fechadas, com trancas mais fortes, não vá um dia todo o homem-sem-tempo guardar a sensação de potência que o teatro oferece. Quando oferece. Porque para oferecer é preciso querer dar. E os zeladores deste espaço sagrado, quase sempre homens-robotizados, tentam eles próprios sobreviver, digladiando-se com os outros homens iguais a si. Têm de beber da potência podre do mundo, porque só há espaço económico para uma minoria. E vêm-se obrigados a matar os concorrentes (como os escravos matavam e morriam na arena perante a plateia sedenta). E os seus egos crescem. Porque foi difícil a batalha. E egos gigantescos preenchem um palco, durante uma única noite, onde, no final, são aplaudidos apenas por aquele homem-sem-tempo, que aceitou que as suas portas interiores se abrissem, naquele dia. E quem não se digladia adoece, desiste, esquece o homem-sem-tempo. Transforma-se, deixa-se engolir pelo mundo potentemente podre, esquecendo o medo que sentia no momento da batalha, trocando esta aparente sensação de tranquilidade pela aceitação de viver morto."

Nuno Costa Santos, dramaturgo, escritor, cronista

"Peço para localizarmos a resposta em Portugal e nos nossos palcos, que é o que conheço melhor. Penso que há espetáculos de grande qualidade - e nesse sentido com potência suficiente para intervir e problematizar o que somos e o que podemos ser. E em diversos registos, nos textos e nas encenações. Também há grandes estopadas e com folhas de sala pretensiosas (um dia alguém fará uma tese sobre esses delírios) que tornam bastante do teatro que se faz pífio, embora demasiadas vezes vaidoso da sua alegada importância. A capacidade de intervenção do teatro também depende dos públicos. Não se pode apenas exigir de quem cria. A capacidade do teatro depende igualmente dos espetadores, da sua disponibilidade, da sua exigência, da sua vontade de discutir (consigo também) depois de verem as peças, da sua capacidade de resistir a unanimismos ocos. O "meio teatral" também merecia as suas terapias, dado que é, em grande parte, muito territorial, fechado e pouco plural."

José Capela, cenógrafo, diretor da companhia Malavoadora

"Pergunto-me muitas vezes o que significa agora "intervir". Vivemos um tempo perigoso, em que está a generalizar-se a ideia de que a arte deve ser útil: faz assistência social a comunidades, é tomada por pedagogia em serviços educativos, ensina-nos história, produz documentários cheios de "verdade", dá lições... Impõe-se à arte que ela seja desculpabilizada, como se fosse necessário dizer "É arte, mas..." e depois completar a frase com uma qualquer ideia de utilidade, positivista, que nega a própria arte mas - pior! - aparenta estar cheia de boas intenções, filantrópicas, paternalistas. É verdadeiramente perverso. A arte serve para inventar aquilo que não existe. É um território de especulação livre, de transcendência do reconhecível, eventualmente de transgressão. É essa a intervenção que lhe cabe. Designadamente ao teatro. Intervenhamos fazendo teatro artisticamente relevante!"

Pedro Vieira de Carvalho, desenhador de luz e diretor técnico

"Há essa força intrínseca no teatro, que pura e simplesmente não desaparece. Independentemente da conjuntura, da situação social ou política, ele pura e simplesmente resiste. E acontece.

O caso do Porto é exemplo disso. Atravessámos um momento mau, em que o desinvestimento na arte e na cultura quase esvaziou a cidade, quer de profissionais da área, quer de público em geral. Mas, apesar de algumas baixas a lamentar, agora esse tecido cultural recupera e revitaliza-se. A resiliência de quem faz e de quem consome teatro, alimenta-o, mesmo em períodos de latência.

Tal como um vulcão, que pode estar adormecido durante muito tempo e de repente explode violentamente, numa demonstração prodigiosa de força, também o teatro tem essa capacidade, mas intervindo diretamente em cada indivíduo, abalando-nos no que temos de mais íntimo e, mais tarde ou mais cedo, levando-nos a reagir perante o que nos rodeia.

O poder do teatro está, assim, em cada um de nós. Estejamos, ou o nosso trabalho, em cima de um palco, ou sentados num qualquer lugar de uma plateia escura, de ambos os lados estamos, naquele preciso momento, a intervir no mundo."

Ana Pais, investigadora em artes performativas

"Se falamos de intervenção social com consequências palpáveis na mudança de mentalidades e no melhoramento da vida das pessoas, não creio que o teatro esteja a intervir no mundo ou, pelo menos, não o suficiente. O caso concreto de Portugal é muito evidente. Mesmo depois do franco investimento na cultura e nas artes, desde a década de 90, diz-nos o relatório da SEC de 2014 (Mapear Os Recursos, Levantamento da Legislação, Caracterização Dos Atores, Comparação Internacional) que Portugal é um dos países da União Europeia cuja população menos participa em atividades culturais. No entanto, há uma potencial intervenção política do teatro na forma como nos relacionamos com os outros do ponto de vista dos afetos. O teatro reúne um grupo anónimo de pessoas para partilhar um acontecimento ao vivo. Nesse encontro, os atores procuram produzir efeitos emocionais no espetador e o público, participando num vaivém de sensações e tensões, torna o espetáculo diferente todas as noites. Por isso, o teatro intervém no modo como nos deixamos afetar e como afetámos os outros."

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