Documentário

Quando estudar custava 56 quilos de arroz

Quando estudar custava 56 quilos de arroz

Numa aldeia de Madagáscar estudar implicava ter de pagar ao professor 56 quilogramas de arroz. O documentário "56" relata como se acabou com esta prática.

Em Soavinarivo, uma pequena aldeia em Madagáscar de 950 habitantes, estudar implicava o "pagamento" de um ano de colheita ao professor, por aluno. O que excluía a maioria das crianças do acesso ao ensino. O processo de cultivo de arroz era exigente e em primeiro lugar as famílias colocavam a subsistência. O professor só aparecia três ou quatro vezes por mês, sem horário definido. Não havia salas nem mesas.

Porém, uma viagem de mais de 13 mil quilómetros pôs ponto final a esta realidade. A viagem foi realizada por Carlos Gómez - inspirador do documentário "56" - desde o Peru até Madagáscar.

Gómez era professor de educação primária em Espanha, quando em 2014 realizou uma ação de voluntariado de verão no Peru. Foi no país latino-americano que começou o projeto Wilka, um caderno de viagem onde narrava as suas impressões. Uma vez de volta na Espanha, o caderno tornou-se uma novela juvenil, "Wilka, um romance para construir uma escola". Nela, o professor espanhol tentava explicar a desigualdade global, desmontar certos estereótipos e reforçar a reflexão sobre o mundo atual. Os fundos obtidos pelas vendas dos livro, cerca de 40 mil euros, foram os destinados à construção de uma escola em Soavinarivo.

Em janeiro de 2015, o que seis meses antes tinham sido apenas umas anotações num caderno, já se tornara numa escola com capacidade para 200 meninos, laica e comunitária, com sanitas, refeitório, poços e mesmo uma casa de acolhimento. Janeiro de 2015 também foi o início do documentário "56". Nesta altura, Marcos Huertas, realizador, decidiu que esta era uma estória que devia ser filmada e divulgada. Assim, durante 16 dias, Huertas esteve a acompanhar a construção da escola junto com a sua equipa.

Escolheram três meninos para relatar as mudanças na primeira pessoa. Vitorine, Menja e Ravaka explicaram diante da câmara as duras condições do cultivo de arroz, assim como os quilómetros que tinham de caminhar para apanhar água ou os maus-tratos habituais de que eram alvo por parte dos professores. Uma situação que acabou o dia em que se inaugurou a nova escola.

O documentário "56" foi projetado, em março, no Conselho de Direitos Humanos da ONU e já recebeu 15 prémios e 47 nomeações internacionais.