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"Fome": Quase tão imenso como a própria vida

"Fome": Quase tão imenso como a própria vida

Mais de 130 anos depois da publicação original, "Fome", poderoso romance do norueguês Knut Hamsun, mantém as suas virtudes intactas. A reedição deste livro é uma das apostas da editora Cavalo de Ferro para o início de 2021.

Nenhum romance é seguramente maior do que a vida, mas há um punhado de obras que nos conferem essa ilusão, tão próximas se revelam das suas matizes, devaneios e contradições.

De entre esse escassíssimo número de títulos que desafiaram os limites da própria literatura, teremos que encontrar "Fome", livro que Knut Hamsun escreveu em 1890 e, desde então, tem influenciado sucessivas gerações de escritores de todo o Mundo.

Na errância de um jovem delirante e em aguda privação material pelas ruas de Kristiania (atual cidade de Oslo) encontramos sintetizados os abismos tantas vezes insondáveis da alma humana.

Escritor febril, o homem, de quem jamais saberemos o nome, move-se pelos espaços públicos com a soberba própria de quem se acha eleito. Trata com arrogância extrema os pobres, embora a sua carência económica seja até superior, e, não obstante os sucessivos, fracassos ou deslizes, continua convencido de que a sua hora chegará. Enquanto isso não acontece, trata de culpar tudo e todos por esses infortúnios.


A sua penúria chega a ser comovente, mas os laivos de simpatia que pudéssemos sentir por esta figura tendem a desvanecer-se à medida que nos vamos apercebendo da forma como rejeita qualquer tipo de ajuda ou contributo que não passe pelo reconhecimento inequívoco do seu génio sem igual.

Só muito mais tarde nos apercebemos dos verdadeiros intentos dos seus atos. A fome severa por que passa é, afinal, uma opção voluntária sua que se deve tanto a uma compulsão interior como à crença de que, nessas condições extremas, a autenticidade de tudo quanto escreve sairá reforçada.

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O solipsismo cerrado, a ausência de empatia para com qualquer outro ser, a megalomania galopante ou os delírios incontroláveis são consequências do estado faminto a que chega.

Os breves momentos de lucidez, após a ingestão de alguns alimentos, saciam-lhe momentaneamente a fome, mas trazem também a consciência da vida terrível que leva. Por isso, prefere habitar num estado mental vago em que a perspetiva de glória iminente supera a fome, como se sentisse as suas entranhas serem devoradas por um animal insaciável dentro de si.

Nesta "greve de fome contra si próprio", de que fala Paul Auster no prefácio de uma das edições do livro, a realidade é sempre uma hipótese repugnante", como diria Manuel António Pina.

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