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"Queremos mostrar que Saramago está vivo"

"Queremos mostrar que Saramago está vivo"

Nas vésperas do arranque das comemorações do centenário de nascimento de José Saramago, o comissário do evento, Carlos Reis, manifestou o desejo de que as celebrações não se cinjam apenas à dimensão literária. "Trata-se também de celebrar a nossa obrigação de estarmos atentos e vigilantes", destacou.

É já nesta terça-feira, dia do nascimento de José Saramago, que arranca o programa comemorativo do seu centenário. As atividades previstas cobrem quase todas as artes, do cinema e da música ao teatro e ópera, suscitando novas leituras e interpretações da obra saramaguiana.

As comemorações do centenário do nascimento de José Saramago arrancam nos próximos dias. Quais os seus principais objetivos?

De uma forma sintética, posso dizer que os objetivos das comemorações estão implícitos nos quatro eixos de desenvolvimento do programa: o eixo da biografia, onde damos atenção à dimensão cívica e de intervenção social de Saramago; o eixo da leitura, orientado para as escolas e para os leitores jovens, mas também para as bibliotecas e para manifestações artísticas que podem ser entendidas como releituras de Saramago; o eixo das publicações, ou seja, reedições da obra de Saramago, em Portugal e no estrangeiro, e também estudos sobre a sua obra; o eixo das reuniões académicas, dando lugar a reflexões especializadas, normalmente em contexto universitário, sobre a obra saramaguiana e sobre os seus grandes sentidos.

Numa declaração a propósito do centenário, Pilar del Rio afirmou o desejo de que José Saramago não se transforme numa estátua nem numa gravura marcada pelo tempo, Em que sentido as comemorações procuram enfatizar a dimensão humana do autor?

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Essa é, de facto, uma das linhas de orientação do programa e de muitas atividades que nele vêm convergir. Por um lado, trata-se de mostrar que Saramago está vivo e é constantemente renovado, não só pelas leituras e pelas releituras a que é sujeito, mas também pelas reinterpretações a que a sua obra dá lugar, em diversas linguagens artísticas: no cinema, no teatro, na dança, na banda desenhada, na pintura, etc. Por outro lado, a vitalidade (ou a sobrevida, como eu gosto de dizer) de Saramago provém da capacidade que ele teve para antecipar temas e problemas que hoje estamos a viver. Não por acaso, o Ensaio sobre a Cegueira foi um romance lido e relido, mesmo para além das nossas fronteiras, em tempo de pandemia. E se falamos da componente humana das obras saramaguianas, então não podemos deixar de lembrar a sua preocupação, no plano social e o no plano ético, com a violência, com a cegueira da razão humana ou com o desconhecimento do outro como nosso semelhante.

O público em idade escolar está muito representado nas iniciativas que vão desenvolver. Como tencionam chegar de um modo apelativo mas didático a esta faixa, combatendo a ideia feita de que é um autor "difícil"?

Nalguns aspetos Saramago pode ser um escritor difícil, mas um estudante que se defronta com questões complexas de matemática, de física ou de filosofia pode defrontar-se com textos que precisam de leitura demorada e concentrada. Os professores desempenham aqui um papel importante, até mesmo ajudando a superar a ideia perversa de que tudo tem de ser fácil, rápido e lúdico... E convém lembrar que Saramago também escreveu para as crianças. Justamente, a abertura do Centenário inclui uma ação a que atribuo grande significado: nesse dia, muitas centenas de crianças do Ensino Básico lerão, à mesma hora (às 10 horas), o conto A Maior Flor do Mundo. Em Portugal, mas também em Lanzarote, no Brasil e talvez até noutros lugares espalhados pelo mundo. Uma verdadeira corrente de leitura.

Outro dos enfoques é no plano académico. O que falta fazer ainda no contexto universitário para que a obra de Saramago seja ainda mais compreendida?

O mundo académico não cessa de dar o seu contributo ao conhecimento e à compreensão da obra de Saramago. Abundam os colóquios, os congressos (há três anos, em Coimbra, tivemos o maior congresso internacional jamais realizado sobre Saramago), as teses universitárias. E não só em Portugal, claro. Por exemplo, em Espanha e no Brasil, elas surgem com uma frequência impressionante.

O que já se sabe sobre as chamadas Conferências do Nobel?

As Conferências do Nobel são isso mesmo: um conjunto de conferências sobre Saramago ou a partir do seu pensamento, por escritores com projeção internacional. Pedimos a Alberto Manguel (que será um dos conferencistas) que escolhesse essas figuras relevantes e várias delas já aceitaram vir a Portugal: a etíope Maaza Mengiste, o colombiano Juan Gabriel Vásquez, a polaca Olga Tokarczuk (que foi prémio Nobel da Literatura há três anos). As conferências começam a 3 de janeiro e têm lugar nos meses seguintes, sempre nos primeiros dias de cada mês.

Os constrangimentos provocados pela pandemia trouxeram certamente alguma incerteza na elaboração do programa. Como procuraram responder a essas limitações?

É verdade. As incertezas da pandemia têm-nos exigido um esforço constante de organização e de reorganização, com dezenas de reuniões em regime remoto. Confiemos que o vírus respeitará o Centenário e dará uma trégua nos próximos tempos...

Celebrar Saramago no seu centenário não significa certamente celebrar apenas a literatura. Significa também mais o quê, em seu entender?

É isso mesmo: celebramos mais do que a literatura e mais do que Saramago. Celebramos a cultura como espaço de liberdade e como constante motivo de superação dos limites. E também, a partir da mensagem de Saramago e da preocupação ética e social que atravessa a sua obra, insistimos na necessidade de denunciar a violência e a intolerância, os crimes ambientais e as falácias das democracias que se vão degenerando. E ainda a consciência dos deveres humanos, a partir e para além da reivindicação dos direitos humanos. Celebramos, em suma, a nossa obrigação de estarmos atentos e vigilantes, num mundo sombrio e carregado de contradições.

Como avalia a resposta das entidades públicas e privadas aos pedidos de parceria para o desenvolvimento de ações?

De forma muito positiva. Antes de mais, contamos com um generoso apoio mecenático do BPI/Fundação La Caixa. Além disso, estabelecemos parcerias com muitos organismos e institutos do Estado, cujo contributo para o Centenário é indispensável: organismos do Ministério da Cultura, do Ministério da Educação, do Ministério dos Negócios Estrangeiros (designadamente, o Camões), do Ministério da Economia (o Turismo de Portugal). E também a Câmara Municipal de Lisboa, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, o Centro Português de Serigrafia, etc. Isto sem esquecer as Canarias e Lanzarote que prepararam um programa muito rico e muito variado.

No plano pessoal, o que significa para si comissariar o programa comemorativo do centenário do nascimento de José Saramago?

Desde logo, é um desafio arriscado que enfrento com honra, por estar em causa aquilo que está. Depois, é um testemunho de gratidão. Como leitor devo muito a Saramago, como amigo beneficiei da sua generosidade e de gestos de cordialidade e de atenção que não esqueço.

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