Entrevista

Radu Jude: "Nunca gostei da treta das passadeiras vermelhas"

Radu Jude: "Nunca gostei da treta das passadeiras vermelhas"

O realizador romeno Radu Jude fala de "Má sorte no sexo ou porno acidental", vencedor do Urso de Ouro de Berlim.

Uma professora do Secundário vê a vida e a carreira serem postas em causa quando um vídeo sexual privado, feito com o marido, cai acidentalmente na Internet. Com "Má sorte no sexo ou porno acidental", o romeno Radu Jude venceu o Urso de Ouro da edição de 2021 do Festival de Berlim, realizada online, e aponta o dedo aos falsos moralistas do nosso Mundo.

O que sentiu ao vencer o Urso de Ouro de uma Berlinale tão especial, realizada online?

É evidente que não foi a situação ideal, mas não vivemos num Mundo ideal. O meu filme também não foi feito de uma forma ideal devido à pandemia. Não vejo que tenha sido um problema fazer o festival online. Nunca gostei da treta das passadeiras vermelhas. O cinema é uma arte para ser levada a sério, o que não acontece quando se põe aquela gente bem vestida a desfilar.

Porque é que incluiu o elemento pandemia no filme através, por exemplo, das várias personagens que vemos com máscaras sanitárias?

Houve uma decisão estética de integrar esse elemento no filme. É o seu lado contemporâneo, que me pareceu ficar bem. E foi uma forma de proteger a equipa e os atores. Estou mais feliz que ninguém tenha ficado doente do que com o prémio que recebi. A saúde das pessoas está acima da arte.

No vídeo de sexo que abre o filme, as personagens também usam máscaras, mas de outra natureza.

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Filmámos essa cena em fevereiro de 2020, duas semanas antes do confinamento e sem saber o que se iria passar logo a seguir. De repente, essas máscaras passaram a ter outro significado. Foi uma coincidência feliz.

Falar de sexo é a melhor maneira de falar de política?

Já houve muitos conflitos entre a política e o sexo na Roménia. No período nacionalista das décadas de 1920 e 30 foram atacadas várias pinturas e romances considerados "vulgares". Durante a ditadura comunista ainda foi pior, não houve qualquer representação da sexualidade. Os filmes na televisão eram censurados. Quando era adolescente era muito difícil ver o corpo de uma mulher nua. Uma fotografia de uma revista porno era um tesouro.

O filme é também um forte comentário à situação política na Roménia.

Só temos partidos corruptos, ou que advogam medidas de austeridade, ou neoliberais. Não há solidariedade nem proteção social, não há investimento nem interesse pela educação. As perspetivas são horríveis.

Na primeira parte do filme, a protagonista percorre várias zonas da cidade. É o seu olhar sobre Bucareste?

A ideia era criar uma ligação entre algumas áreas de Bucareste e a história da protagonista. Diz-se muitas vezes que a cidade é violenta e agressiva, mas a cidade somos nós, basicamente. A nossa comunidade. Se olharmos com cuidado, podemos ver alguns dos valores do povo, ou como o poder se organiza, como as diversas classes se organizam. Mas a paranoia de Ceaucescu destruiu uma parte inteira da cidade, apesar de se terem feito também coisas boas, como o sistema do metropolitano.

Na sequência do julgamento, fica-se com a ideia de que a História se repete.

É verdade que há traços de velhas ideologias que se repetem, embora sob formas diferentes. Por exemplo, quando houve um referendo contra a comunidade LGBT votado no Parlamento, os discursos violentos de certos políticos eram os mesmos usados no final dos anos 1930, se se substituísse judeus por gays. A ideia era a mesma: havia que proteger os nossos valores nacionais, a pureza da nação romena.

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