Arte do dia

Receita para um fim de semana letárgico

Receita para um fim de semana letárgico

Há poesia dos escombros, romances que são mais do que História, imersões online em arte e manifestos por espaços comuns. E febre, claro: de sábado de manhã, tarde ou noite.

Num sábado, mais um, em que transcender fisicamente os muros da nossa terra não é permitido, é especialmente precioso atentar numa banda portuguesa, os Beautify Junkyards, que salta barreiras geográficas a cada canção. O quarto álbum, "Cosmorama", foi editado esta semana, e às influências folk, psicadélicas e pop juntam-se fragrâncias de tropicalismo (que já é, de certa forma, uma soma das influências mencionadas), a que não será alheia a presença da voz da brasileira Nina Miranda em três temas, incluindo o single "Reverie". O vídeo extrai poesia dos escombros:

Sem poesia literal, tão pouco escombros, mas com escrita inigualável, há Eça de Queirós. Os fins de semana letárgicos em curso foram costurados à medida para ler, reler ou rereler "O mistério da estrada de Sintra", "O mandarim", "Os Maias". A transladação de Eça para o Panteão Nacional, aprovada unanimemente no Parlamento, merece uma descrição longa, detalhada ao átomo, fina e enxuta e britânica no humor.

O Google Arts & Culture é uma ferramenta de imersão que merece um estatuto bem superior ao de subcave esquecida no império da multinacional californiana. Como ponto de partida, pegue-se na lupa para espreitar a todas as portas da Torre de Babel pintada por Pieter Bruegel para os lados de 1568.

Vivemos, como obcecados pela música ou pelo cinema, num excessivo conforto assente no passado? Vivemos. O passado, reembalado por algoritmos, é seguro e barato e priva novas gerações de artistas de atenção e retorno financeiro decentes? Sim. O jornalista britânico Mark Sinker analisa tudo isto num excelente artigo no jornal "The Guardian". Abundam os casulos individuais e faltam habitats culturais comuns a um largo espetro de criadores, argumenta ele. É nessas grandes e democráticas praças que as artes podem entrar em choque, conversar, reagir, rasgar as regras e começar de novo.

Sábado é sábado, com ou sem confinamento. Tem febre, e da febre nasce a dança. Pegue-se no alinhamento preparado pelo produtor americano Channel Tres para a revista "Mixmag", e faça-se o que tem de ser feito.

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