Entrevista

Regina Guimarães: Paulo Cunha e Silva fez "terrorismo intelectual"

Regina Guimarães: Paulo Cunha e Silva fez "terrorismo intelectual"

Em 2006, Regina Guimarães foi porta-voz da luta contra a privatização do Rivoli. 14 anos depois, a dramaturga volta a insurgir-se contra a política cultural do Porto

Quatro anos depois da morte do ex-vereador da Cultura da Câmara do Porto Paulo Cunha e Silva (1962-2015), Regina Guimarães acusa-o de ser delirante, mentiroso e ignorante. As críticas constam do prefácio que a autora escreveu para a peça de Tiago Correia, "Turismo" - em cena no fim de semana passado, no Teatro do Campo Alegre -, e que espoletou uma chuva de críticas por parte dos artistas, que acusam a o Teatro Municipal de censura, por não ter distribuído o texto. Ao JN, a dramaturga de 63 anos defende que Cunha e Silva "não precisa de proteção" e que fez "terrorismo intelectual" na cidade.

O seu texto foi censurado?
As pessoas tinham noção de que estavam a fazer censura. É pouco elegante sacudirem o capote para cima do Tiago Correia. Os tipos andaram uma semana a lixar-lhe o juízo e agora dizem que aceitou. Não cabe na cabeça de ninguém. Isto não pode funcionar assim! A Câmara é muito importante para a política cultural da cidade, obviamente, mas não é dona das consciências.

Não gostaram do seu texto?
O texto partia das questões que o espetáculo levantava. Não estou à espera que pensem como eu, mas é um texto de opinião assinado, não é uma nota de imprensa!

Por que razão diz que "a classe dos artistas foi servindo de vanguarda do processo de neocolonização da cidade"?
Há artistas que estão tão preocupados com as suas questões que não percebem que são utilizados para transformações na cidade que são muito graves. No fundo, à conta de fazerem da cidade uma espécie de recetáculo de uma movida, as pessoas não estão atentas ao facto de as classes mais desfavorecidas estarem a ser postas na rua sistematicamente. Isto não está certo!

Se não especificar, toda a classe artística é visada.
Não quero especificar. Às vezes os artistas estão pouco atentos às transformações sociais que acontecem e para as quais eles são uma espécie de enfeite. É isso que tem acontecido no Porto. Os artistas têm sido embaixadores de uma transformação social da cidade que tem um enorme impacto na possibilidade de a habitar.

Se "os artistas novos estão descomprometidos", como escreveu, os outros estão comprometidos?
Ah pois! Porque nós, ao longo da nossa vida, temos de fazer escolhas. E as nossas escolhas têm consequências.

No trabalho?
Exatamente. Acredito que as pessoas d'A Turma têm uma frescura que faz com que lidem com questões gravíssimas sem medo.

E o que tem a cidade líquida a ver com isto tudo?
A cidade líquida é um conceito do Zygmunt Bauman com um valor muito negativo. Ora, há uma pessoa que pega nisso e a transforma numa coisa maravilhosa! Isso é terrorismo intelectual, porque as pessoas não leram todas o Bauman, não conhecem o conceito. Isso serviu para legitimar um tipo de política cultural em que se parte do princípio que a cidade ideal é a cidade onde as pessoas têm de viver em concorrência. Os problemas de habitação do Porto são o desmentido formal dessa tal cidade líquida, que não é do Bauman mas da cabeça do Paulo Cunha e Silva. É um problema de palavras e de honestidade quando se utilizam conceitos menos conhecidos.

Paulo Cunha e Silva não está vivo para se defender.
Ele era uma pessoa com valor, acho que ficaria espantado por uma coisa destas estar a acontecer. O trabalho dele defende-se por si mesmo. Isto é de um paternalismo! Alguma vez o PCS precisa da proteção da governação? Esse senhor teve vida, obra, trabalho e pensamento. Posso não estar de acordo, mas ele não precisa disso. Isso não é honrar a pessoa. Honrá-la é continuar a discutir com ela.

Quando Paulo Cunha e Silva era vivo falou sobre isto?
Falei, mas ninguém me ouve. Essa discussão está publicada no livro "Desobedecer às Indústrias Culturais".

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