Cinema

Rever a obra de Rainer Werner Fassbinder em cópias novas

Rever a obra de Rainer Werner Fassbinder em cópias novas

Há oito filmes do grande cineasta alemão para ver a partir desta sexta-feira no Teatro do Campo Alegre, no Porto. O ciclo projeta dois a três filmes por dia até ao dia 26.

É um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico em Portugal. Desde esta sexta-feira, há oito filmes de Rainer Werner Fassbinder para ver, na sala de cinema, em magníficas cópias restauradas, assinalando o quadragésimo aniversário da morte do que foi e continua a ser um dos nomes mais importantes de todo o cinema.

Se é verdade que estes oito filmes dão já uma mostra assinalável da qualidade e da diversidade temática da obra de Fassbinder, serão sempre redutores face ao que foi o gigantesco corpo da obra do autor alemão, considerando sobretudo que ele nos deixou quando tinha apenas 37 anos de vida.

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No caso de Fassbinder pode bem dizer-se que a quantidade é tão importante como a qualidade. Assinando a primeira longa-metragem em 1969 e a última no ano da sua morte, em 1982, Fassbinder assinou nesses 23 anos igual número de filmes de fundo para cinema, uma dúzia de filmes para televisão, de tão grande impacto que fizeram sala em todo o mundo, como os geniais "Jogos Perigosos" ou "Martha" .

Fez ainda duas séries de televisão, entre as quais a monumental "Berlin Alexanderplatz", além de inúmeras encenações para teatro, sem esquecer que foi argumentista de quase todos os seus filmes e produtor a partir de certo momento.

Fassbinder, via-se bem pelas personagens que interpretava nos seus filmes, tinha essa capacidade febril de trabalhar. A sua vida só poderia ser assim, os seus filmes só poderiam ser assim por essa impressionante dinâmica. A sua morte, por overdose de cocaína e comprimidos para dormir, é fácil de dizer hoje, não poderia também ser muito diferente, tal o seu infernal ritmo de trabalho. Sem surpresa, foi encontrado tendo ao lado o guião ainda incompleto de um filme sobre Rosa Luxemburgo...

Fassbinder nascera a 31 de maio de 1945, numa pequena localidade da Baviera. Fruto claro do pós-guerra, os primeiros anos da sua vida foram tão intensos como a sua carreira cinematográfica. Declaradamente homossexual, foi casado duas vezes, uma das quais com a atriz Ingrid Caven, teve inúmeros e inúmeras amantes, entrou desde cedo para o mundo do teatro, onde ganhou imensa experiência, realizou várias curtas-metragens e estreou no Festival de Berlim o primeiro filme longo, "O Amor é Mais Frio do que a Morte".

O nome de Fassbinder é indissociável da geração do Novo Cinema Alemão, de que fizeram parte nomes como Wenders, Herzog, Schlondorff, von Trotta, Kluge. É verdade que Fassbinder sempre foi uma figura à parte, mas é sintomático que, num dos filmes do ciclo, "Cuidado com Essa Puta Sagrada", precisamente sobre os dramas da rodagem de um filme, surjam na tela outros realizadores como Margarethe von Trotta Ulli Lommel e um muito jovem Werner Schroeter.

Fassbinder tinha, no cinema, a sua própria trupe, como se fosse uma companhia de teatro. Muitos dos seus filmes foram fotografados por Michael Ballhaus, que mais tarde iluminaria a obra de Scorsese, musicados por Peer Raben, decorados (e interpretados) por Kurt Raab. Mas e as atrizes! O que Fassbinder fez com Hanna Schygulla, Margit Carstensen, Irm Hermann, Ingrid Caven, que com ele criaram algumas das mais extraordinárias personagens de todo o cinema...

Os filmes que agora se podem ver ou rever, graças à Rainer Werner Fassbinder Foundation e à Leopardo Filmes, que os traz até nós, intersetam alguns dos temas mais caros à obra do realizador. Alguns são já muito conhecidos e mediatizados: "O Casamento de Maria Braun" aborda a História da Alemanha durante e no pós-guerra, "As Lágrimas Amargas de Petra von Kant", uma das grandes obras-primas do cinema, analisa as relações de poder num casal e discute a sexualidade, "Effi Briest - Amor e Preconceito", filme de época, foi um dos projetos mais ambiciosos e também dos maiores sucessos comerciais do realizador.

O que é particularmente interessante nesta mostra é revelar-nos filmes menos conhecidos do realizador. A começar pelo inédito em sala "Mamã Kuster Vai para o Céu", visão cáustica sobre a vida política e social do seu tempo, muito crítico sobre o papel da esquerda e da extrema-esquerda germânicas.

Depois há o próprio cinema, em "Cuidado Com Essa Puta Sagrada", a visão sobre o "charme" pouco discreto da burguesia alemã em "Roleta Chinesa", com a bela e surpreendente presença da godardiana Anna Karina, a homenagem a Douglas Sirk por quem usou o melodrama como grande motor criativo, com "O Medo Come a Alma" e um outro olhar sobre a Alemanha do pós-guerra, "O Mercador das Quatro Estações".

Próximas sessões

O ciclo Fassbinder começou esta quinta-feira e prossegue até ao próximo dia 26 . Eis os títulos e horários das próximas exibições:

"O mercador das quatro estações (dia 7, 18h30)

"Roleta chinesa" (dia 7, 21h30)

"O medo come a alma" (dia 8, 18h30)

"As lágrimas amargas de Petra von Kant" (dia 8, 21h30)

"O casamento de Maria Braun" (dia 9, 18h30)

"Effi briest - Amor e preconceito" (dia 9, 21h30)

"Mamã Kunsters Vai Para o Céu" (dia 8, 15h30)

"Cuidado Com Essa Puta Sagrada" (dia 9, 15h30)

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