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Ricardo Gordo: "Falta partilha em quem toca guitarra portuguesa"

Ricardo Gordo: "Falta partilha em quem toca guitarra portuguesa"

A guitarra portuguesa em diálogo estreito com o hip hop, a eletrónica e a world music. É a partir deste caldo sonoro eclético que Ricardo Gordo constrói o seu novo disco, "Conversas de esquina", um contributo do músico portalegrense para a renovação das canções tradicionais.

O arrojo foi um atributo de que Ricardo Gordo não abriu mão no seu mais recente disco, comemorativo de uma década de carreira. Influenciado por alguns dos músicos com quem trabalhou, como Stereossauro ou Mariza, o guitarrista faz de "Conversas de esquina" um entreposto musical diversificado em que a guitarra portuguesa dita leis, mas sem abdicar da contaminação de outros géneros.

Aos 33 anos, o músico revela vontade de experimentar outros instrumentos, anunciando, por isso, que o novo disco será o último em que interpreta um único instrumento.

Este é um disco de fado até para quem não gosta de fado?

É, acima de tudo, um disco de guitarra portuguesa pensado por alguém que não está preocupado em fazer um disco convencional. Quis utilizar uma estética moderna, ainda que utilizando uma linguagem tradicional.

Ao cabo de dez anos de carreira, crê que gravou o seu disco mais maduro?

Completamente. Além dos discos que gravei em nome próprio, colaborei com imensos projetos e dei concertos em número suficiente para que me pudesse direcionar melhor e escolher a estética com a qual mais me identifico. Quando comecei a gravar, tinha começado a tocar guitarra portuguesa há pouco tempo. Não é presunçoso dizer que hoje tenho um domínio muito maior do instrumento, além de ter beneficiado da influência dos músicos com quem comecei a colaborar. Em 2018 comecei a tocar em simultâneo com o Stereossauro e a Dulce Pontes. Isso levou-me a certos festivais e a países que me ensinaram muito coisa, a nível cultural e musical. É precisamente essa coleção de experiências que me faz ser o que sou hoje, refletindo-se no disco, seja a parte eletrónica ou a mais tradicional. Quando toquei para a Dulce Pontes, tive oportunidade de dar alguns concertos em países africanos, o que se reflete no disco. Há um tema do disco, intitulado "Martin's speech", que reflete todas essas influências, pois encontramos elementos da eletrónica, africana e a guitarra portuguesa no meio, com uma linguagem puramente fadista. Essa é a minha catarse: ter sido capaz de pegar nessas influências todas e fazer um bolo com estes ingredientes todos.

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É surpreendente a forma como a guitarra portuguesa se alia harmoniosamente a outros géneros, como a eletrónica ou hip hop.

Não é uma novidade absoluta. Comecei a fazer isso com o Stereossauro. Não inventei a pólvora. Hoje começa a estar mais em voga e o grande culpado disto foi o Stereossauro com o seu "Bairro da ponte". A guitarra portuguesa é um instrumento como outro qualquer, mas é nosso. Infelizmente, não tem sido tão utilizado na música popular ou moderna como foi a guitarra de flamenco, por exemplo ou até o cavaquinho brasileiro. A Espanha e o Brasil são países que pegam nos seus instrumentos tradicionais e aplicam em música comercial, seja ela qual for. Nós começámos a fazer isso muito tarde. Só a partir dos anos 90 começámos a ouvir a guitarra portuguesa fora do fado. Estamos um pouco atrasados em relação aos outros neste domínio. O que é uma pena, pois a guitarra portuguesa é um instrumento com um timbre único, muito bonito, e as suas frequências casam bem com qualquer sonoridade. Ser um instrumento agudo na afinação facilita imenso na hora de trabalhar com os baixos da eletrónica. Foi um casamento fácil de fazer. Nunca me vi como um guitarrista de fado. Sempre procurei fazer coisas diferentes. Comecei no rock, que ainda toco, e mais tarde fui convidado para colaborar com a Dulce Pontes por ser um guitarrista alternativo. A ligação com o Stereossauro trouxe-me o resto de que precisava. Por tudo isso, acabou por ser algo natural compor estas sonoridades para o novo disco. Foi natural, porque é nestes ambientes que me sinto confortável.

O que é que impediu uma renovação mais atempada da música tradicional em Portugal e do fado, mais em particular, seguindo os passos de outros países, em relação a outros géneros?

Tudo remonta a um preconceito musical antigo, que vem até da ditadura. Por isso, costumo dizer que fomos vítimas de um regime demasiado longo que terminou há pouco tempo. Por isso é que, ainda hoje, quem pretende aprender guitarra portuguesa vê-se grego, porque a malta mais antiga não gosta de ensinar. Não é à toa que a guitarra de Coimbra é a mais vista, pois foi lá que se criou a primeira escola, nos anos 80. E depois ainda há a questão do bairrismo entre Coimbra e Lisboa. A malta não se dá nem se cruza. Há uma falta de partilha e de conhecimentos que sempre arrastou a guitarra portuguesa para o nicho das casas de fado. Embora hoje já não se veja tanto, graças a músicos como o Gaspar Varela, sempre houve o preconceito de que a guitarra é um instrumento de velhos. Só agora é que a guitarra portuguesa se começa a ouvir noutros géneros e a chamar a atenção dos miúdos. Além de tudo isto, não é um instrumento fácil de tocar à primeira, como a viola ou o piano. Outra condicionante é o facto de sermos um país pequeno, com um mercado também ele diminuto.

Apesar de tudo, na última década, houve grande dinamismo, com o aparecimento de vários novos artistas no panorama da música tradicional. Foi uma oportunidade desperdiçada para renovar o meio?

Não foi totalmente perdida. Foi apenas uma moda. Nomearam o fado para Património Mundial da UNESCO deu um grande 'bosto', mas não nos esqueçamos que já antes disso a Mariz e a Ana Moura andaram pelo mundo a espalhar o fado.

O seu percurso musical alia a experiência de palco e de discos à componente académica. Essas duas valências são indissociáveis para si?

As duas são importantes. Todavia, fiz essa escolha universitária porque sabia que teria uma vida difícil se me cingisse só à execução do instrumento. No ano passado, antes da pandemia, a vida corria-me bem e estava a ponderar deixar de ensinar no Conservatório Nacional e hoje dou graças a Deus por não ter tomado essa decisão, já que foram as aulas que me sustentaram nesse período.

A ligação à guitarra portuguesa é para continuar ou a vontade contínua de experimentação que marca o seu percurso pode ditar outros rumos?

Posso dizer apenas que, em princípio, este foi o meu último disco inteiramente dedicado à guitarra portuguesa. Pretendo continuá-lo a utilizar como recurso, mas custa que me associem apenas à guitarra portuguesa. Hoje estão tão mais interessado em fazer outras coisas que, decididamente, "Conversas de esquina" é um fecho de ciclo. Quero trabalhar para a música num todo e não focar-me num só instrumento.

Essa vontade de não estagnar vem já dos primeiros discos?

O que sempre me cativou, desde que comecei a compor ainda adolescente, nunca foi ser um executante exímio. Mais do que ser o melhor guitarrista do mundo, quis procurar a minha linguagem, ter um som distinto. Dou o exemplo do Jimi Henri ou do Carlos Santana. São guitarristas imediatamente identificáveis ao fim de uma nota. Essa sempre foi a minha procura. Estou completamente satisfeito nesta fase da minha vida, pois, quando passa uma música minha na rádio, é fácil perceber que sou eu a tocar.

Não quer tocar só um instrumento?

De todo. Por isso é que tenho outros projetos e vou voltar a trabalhar para os Seul Ire. É por aí que passa o meu futuro.

O que tem procurado extrair das colaborações musicais feitas nestes últimos anos?

Aprendizagem. Experiência. Vivência. Tenho trabalhado muito sozinho, até porque sou de Portalegre e não tenho tantas músicos à minha volta como gostaria. Por isso, quando tenho a sorte de colaborar com malta profissional tento aproveitar ao máximo para aprender mais. A nível musical, técnico, de experiência, de vida... tudo. Cada colaboração nova é uma nova aprendizagem. É isso que me cativa: estar a absorver essas experiências e influências.

Onde se vê daqui a dez anos?

O mesmo que faço hoje: procurar sonoridades especiais, aprender a mexer melhor nos instrumentos e ter a capacidade perfeita de exprimir-me através deles. Se puder viver só disso, perfeito

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